COTIDIANO / Sexta, 07 Mai 2021 18:12

“Entre o Ser e o Tornar-se Mãe”

Para a artista pernambucana Letícia Carvalho, a maternidade para as mulheres negras também “Simboliza a resistência que é dar continuidade a vida do povo negro gerando novas gerações e lutando por elas”;  com obras que abordam afeto e ancestralidade, ela propõe desconstruir a romantização  

Texto: Lenne Ferreira | Imagens: Divulgação/Letícia Carvalho

 

Desromantizando a maternidade
Introdução:

Para a artista pernambucana Letícia Carvalho, a maternidade para as mulheres negras também “Simboliza a resistência que é dar continuidade a vida do povo negro gerando novas gerações e lutando por elas”;  com obras que abordam afeto e ancestralidade, ela propõe desconstruir a romantização  

Texto: Lenne Ferreira | Imagens: Divulgação/Letícia Carvalho

 

“Eu vejo muitas propagandas nessa época falando sobre a mãe como um ser incrível, forte, mas é importante dizer que nós somos humanas e que não perdemos essa humanidade depois de nos tornarmos mães”. A declaração é da artista plástica pernambucana, mãe de Odara e ativista, Letícia Carvalho, para resumir um pouco do que a exposição “Entre ser e Tornar-se Mãe” se propôs a discutir. A mostra, que pode ser visitada em seu perfil no instagram, aborda questões como ancestralidade, gestação, parto, puerpério, trabalho e afeto para desmistificar a romantização em torno da maternidade.

“A exposição quer mostrar como a gente sente muita coisa, que não é tudo essa fantasia que criaram e que nos empurram goela abaixo. Mas que no meio de tudo isso a gente pode construir nossas poéticas, nossos afetos, que a arte pode ser uma forma de nos libertar disso”, comenta. 

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O processo de construção do projeto foi pensado para debater tabus e desmistificar ideias romantizadas que existem em relação ao ato de maternar, além de construir uma poética em que a mulher negra seja representada como pessoa que constrói afetos. Um exemplo é o quadro “Odara”, último da exposição, que tem o afeto como tema. Outro perfil abordado são as mães que trabalham e cuidam de seus filhos, mas têm a experiência maternas perpassadas por violências externas como as que ocorrem no transporte público, como mostra a obra  Transporta(dor)a. 

A mostra também retrata o processo de mudança do próprio corpo para autoestima da mulher negra, que é historicamente violentada, no quadro “Puerpério Transitório”, “Eu quis mostrar o processo de transição capilar que passei no final da gestação em que meu cabelo, traço importantíssimo na construção da minha identidade, teve sua fibra completamente modificada e se tornou liso e vem voltando à sua textura normal (crespo) aos poucos com a redução da amamentação”, explica a artista. 

O quadro “Gera(r)ções” traz como tema a ancestralidade e as várias formas de maternar vividas pelas mulheres negras ao longo dos anos. A artista negrita a maternidade como uma conquista política para essas mulheres visto que o direito de ser mãe foi retirado delas desde o período da escravidão, quando eram sequestradas de África e separadas de seus filhos. “Essas mulheres eram vistas como meras reprodutoras, que geravam mão de obra escrava. Elas também eram obrigadas a deixar seus filhos para cuidar dos filhos de pessoas brancas como ainda acontece”, ressalta. 

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“Entre o Ser e o Tornar-se Mãe” contou com apoio da Lei Aldir Blanc no estado de Pernambuco e foi antecedida por uma série de lives no YouTube, que apresentaram o processo de produção das obras e discutiram marcadores como gênero, classe, raça e faixa etária.

Para a artista, que usou como principal técnica para a produção do acervo a pintura com giz pastel oleoso sobre papel, a maternidade de mulheres pretas está muito além do que a vã expectativa da sociedade brancocêntrica pode supor. “Simboliza a resistência que é dar continuidade a vida do povo negro gerando novas gerações e lutando por elas”. 

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