COTIDIANO / Terça, 09 Março 2021 16:50

Em Pernambuco, 72,7% das vítimas fatais pela Covid-19 são pessoas pretas e pardas

Com 95% dos leitos ocupados, Pernambuco vive o momento mais crítico da pandemia por Covid-19; Balanço entres os meses de março do ano passado e deste ano apontam mudança drástica no cenário do Estado e revela que as principais vítimas são pessoas negras

Texto: Victor Lacerda / Edição: Lenne Ferreira / Imagem: Agência Brasil

Introdução:

Com 95% dos leitos ocupados, Pernambuco vive o momento mais crítico da pandemia por Covid-19; Balanço entres os meses de março do ano passado e deste ano apontam mudança drástica no cenário do Estado e revela que as principais vítimas são pessoas negras

Texto: Victor Lacerda / Edição: Lenne Ferreira / Imagem: Agência Brasil

Um dado alarmante sobre a saúde pública do estado de Pernambuco foi divulgado no último boletim epidemiológico sobre as infecções pela COVID-19. Estatísticas da Central Estadual de Regulação Hospitalar, via Secretaria Estadual de Saúde, confirmaram que 95% dos leitos das UTIs para atendimento de casos graves estão ocupados. A comparação entre março de 2020 e março de 2021, mostra que o quadro geral do estado passou de nenhum caso confirmado para 275.578 casos leves e 33.079 com síndrome respiratória aguda grave (SRAG), este último dado, quando detalhado, revela: 72,7% (6.513) dos óbitos correspondem a pessoas pretas e pardas. 

O alto número de mortes que atinge a comunidade negra tem sido motivo de preocupação para movimentos sociais desde o início da pandemia. O temor de que a população de baixa renda fosse a mais impactada motivou manifestações no Estado desde o ano passado e a pressão pela vacinação de toda população segue como prioridade para os ativistas. Especialista em Micropolítica da Gestão e Trabalho em Saúde, Luiz Valério, comenta que o dado sobre a contaminação da população negra no estado é resultado de uma junção de fatores, entre eles, o entendimento que o racismo no país atua em vários âmbitos, como na saúde pública. 

“Nós não temos uma divisão de renda equânime, contamos com uma disparidade do acesso à saúde, ponto que deve ser atravessado por raça, gênero e classe. A ideia de interseccionalidade somada às outras diversas vulnerabilidades sociais, vão nos mostrar que a raça define, sim, os números de adoecimento e morte da população negra aqui no país”, pontua Valério. 

Ainda de acordo com o especialista, a interpretação do quadro vai além da ideia que o vírus não escolhe quem vai acometer ou apenas o cumprimento das políticas de higienização, apontando a necessidade de um maior entendimento das questões de acesso socioeconômico do Brasil. 

Em quadro geral, 1.006 leitos para atendimento contra a síndrome aguda estão ocupados. Para casos de enfermaria, 84% dos leitos também não estão disponíveis. Na rede privada, para os que acessam os serviços de planos de saúde, o cenário não é tão diferente. De acordo com informações autodeclaradas pelos serviços da rede suplementar, 92% dos leitos das UTIs estão ocupados. Já enfermaria, cai para 52% de ocupação. 

A Secretaria Estadual de Saúde (SES-PE) ainda registrou 373 novos casos de acometidos pelo vírus. Entre os confirmados até o fechamento desta matéria, 114 (30,5%) são casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) e 259 (69,5%) são leves. Também foram confirmados laboratorialmente 34 novos óbitos (20 femininos e 14 masculinos), ocorridos entre os dias 21 de novembro do ano passado até o último domingo (7).

Para Valério, medidas só surtirão efeitos reais se os contextos sociais forem considerados.  “Quem tem acesso à informação? Quem tem água potável todos os dias em suas casas? Quem tem acesso a um transporte de qualidade diariamente? Após reflexões deste tipo é que poderemos entender que pretos e pardos serão mais afetados por já serem acometidos pelas mazelas sociais, na negativa de acesso à uma boa renda, através de trabalhos não precarizados, e uma boa educação, por exemplo”, reflete Valério.

Medidas emergenciais

Mesmo sem perspectiva para um efetivo lockdown, Pernambuco já vinha contando com medidas restritivas após o Decreto Nº50.346, do último dia 1º de março. A ação, proposta pelo governador Paulo Câmara (PSB), alterou a dinâmica das atividades sociais e econômicas até o dia 17 deste mês. Desde o anúncio, comércio, como lojas, bares, restaurantes, assim como visitas aos presídios e demais serviços considerados não essenciais não podem funcionar no fim de semana e devem encerrar as atividades a partir das 20h da sexta-feira para retornar às 5h de segunda-feira. Praias só podem ser utilizadas individualmente, com atividades voltadas apenas à prática de exercícios. Demais medidas podem ser acompanhadas neste arquivo.

Como tentativa de conter o cenário atual, a SES afirmou novos recursos estruturais para atender pacientes acometidos pelo vírus. Na tarde da última segunda-feira (8), mais 79 respiradores foram comprados pelo Governo de Pernambuco, em um investimento de R$3,5 milhões. Como perspectiva para as semanas seguintes, o órgão confirma mais 150 ventiladores, que já foram adquiridos. Uma outra medida de contenção, o chamamento público aberto para contratação de leitos dedicados à Covid-19 junto aos hospitais privados.

Em nota publicada pela gestão estadual, o secretário de saúde, André Longo, fez um apelo à população para que se respeite as regras sanitárias, o distanciamento social e a higienização das mãos para ajudar na queda do número de internamentos e ocupação dos leitos pela COVID-19. 

"Estamos ampliando permanentemente as vagas para terapia intensiva no Estado, seja em serviços próprios ou conveniados e também contratualizado com a rede privada. O esforço para ofertar essas vagas em todas as regiões pernambucanas tem sido constante, mas ratifico que cada um precisa fazer a sua parte para aliviar essa pressão que nosso sistema de saúde têm sentido nos últimos dia", pontuou Longo.

 Apoie jornalismo preto e livre!

 O funcionamento da nossa redação e a produção de conteúdos dependem do apoio de pessoas que acreditam no nosso trabalho. Boa parte da nossa renda é da arrecadação mensal de   financiamento coletivo e de outras ações com apoiadores. 

 Todo o dinheiro que entra é importante e nos ajuda a manter o pagamento da equipe e dos colaboradores em dia, a financiar os deslocamentos para as coberturas, a adquirir novos   equipamentos e a sonhar com projetos maiores para um trabalho cada vez melhor. 

 O resultado final é um jornalismo preto, livre e de qualidade.

 Acesse aqui nosso Catarse

NEWSLETTER

Fique por dentro de tudo que acontece. Se inscreva e receba nossas notícias toda semana.

VÍDEOS

ccsp.jpg
umanobetofreitas.jpg
boletiim38.jpg
racismoemeioambientecop26.jpg