COTIDIANO / Segunda, 31 Mai 2021 13:27

Vítima da ‘guerra às drogas’, Douglas não teve a chance de ver o filho nascer

Douglas foi morto em um "tribunal do crime" por morar em um bairro de uma "facção rival", no Rio de Janeiro

Texto: Juca Guimarães I Edição: Nataly Simões I Imagem: Reprodução/Redes sociais

Rosto do entregador Douglas, ele usa um boné preto e tem 20 anos
Introdução:

Douglas foi morto em um "tribunal do crime" por morar em um bairro de uma "facção rival", no Rio de Janeiro

Texto: Juca Guimarães I Edição: Nataly Simões I Imagem: Reprodução/Redes sociais

Na próxima quarta-feira, 2 de junho, o menino Marlon vai completar quatro meses de vida. Ele mora em Acari, na Zona Norte do Rio de Janeiro, e nasceu no dia em que o corpo do pai dele, Douglas Oliveira de Figueiredo, foi encontrado no Rio Meriti com marcas de tiros na barriga.

Douglas tinha 20 anos, era entregador de farmácia há cerca de um ano e fazia bicos na Ceasa descarregando frutas na central de abastecimento. Ele foi vítima de desaparecimento forçado no dia 29 de janeiro, uma sexta-feira, no bairro de Coelho Neto, também na Zona Norte, enquanto fazia entregas para a farmácia.

A família de Douglas ficou mais preocupada ainda depois que começaram a circular nas redes sociais vídeos que mostravam o rapaz sentado na calçada, com sangue no pescoço e  ameaçado por um suposto traficante, que dá uma coronhada na cabeça dele. Nas imagens, o jovem é coagido a admitir que fazia parte de uma quadrilha rival no tráfico de drogas e que estava lá para “dar um bote”, ou seja, atacar a quadrilha local.

Além de Marlon, que ele não viu nascer, Douglas era pai de Michael, de dois anos de idade. O entregador foi mais uma vítima negra dos desdobramentos da chamada ‘Guerras às Drogas’, que envolve polícia, milicianos e quadrilhas em disputa por territórios.

Tribunal do crime

Segundo a Polícia Civil do Rio de Janeiro, Douglas foi assassinado mesmo sem ter nenhum envolvimento com o tráfico de drogas. Ele foi executado em um “tribunal do crime”, possivelmente por ser morador de Acari e estar em um bairro dominado por uma facção rival.

As equipes da 33ª DP, de Realengo, junto com outros órgãos da Polícia Civil, rastrearam as atividades criminosas relacionadas ao tráfico de drogas em Coelho Neto e identificaram os suspeitos de terem participado da execução de Douglas. No dia 27 de maio, 13 suspeitos de tráfico de drogas foram presos.

De acordo com a investigação, eles atuavam na comunidade de Proença Neto, sob influência do complexo do Chapadão, e tinham bocas de fumo (pontos de vendas de drogas) nas ruas residenciais de Coelho Neto, onde Douglas foi visto com vida pela última vez.

O corpo do jovem foi encontrado no Rio Meriti por um morador da região, que o reconheceu por conta das postagens feitas por amigos e parentes nas redes sociais.

A Polícia Civil concluiu que foram os próprios traficantes que filmaram e postaram o vídeo que mostra o jovem ser torturado e ameaçado. A publicação nas redes sociais seria uma forma de amedrontar a população local e quadrilhas rivais. Além de Douglas, a polícia suspeita que a quadrilha seja responsável pela execução de outras vítimas também em tribunais do crime.

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