COTIDIANO / Quinta, 17 Junho 2021 11:00

Desigualdade no acesso à educação durante a pandemia preocupa pais e educadores

Falta equiapamento, internet e acompanhamento. Alunos de baixa renda matriculados na rede pública de ensino de Pernambuco precisam lidar com muitos desafios para acompanhar as aulas; pais e profissionais da educação atestam as dificuldades de uma geração que, no futuro, vai sofrer as consequência da falta de acesso à Educação de qualidade

Texto: Victor Lacerda / Edição: Lenne Ferreira / Imagem: Agência Brasil

Desigualdade no acesso à educação durante a pandemia preocupa pais e educadores negros
Introdução:

Falta equiapamento, internet e acompanhamento. Alunos de baixa renda matriculados na rede pública de ensino de Pernambuco precisam lidar com muitos desafios para acompanhar as aulas; pais e profissionais da educação atestam as dificuldades de uma geração que, no futuro, vai sofrer as consequência da falta de acesso à Educação de qualidade

Texto: Victor Lacerda / Edição: Lenne Ferreira / Imagem: Agência Brasil

Indispensável para a formação de qualquer cidadão, a Educação é a base para a construção de uma cidadãos informados sobre sua realidade e com senso crítico. Ao longo da história do Brasil, a área sempre sofreu com a negligência do poder público. Com a chegada da pandemia pela COVID-19 o quadro se agravou e diversos fatores dificultaram ainda mais o desenvolvimento de crianças e jovens de periferia e baixa renda - em sua maioria negros. A defasagem na aprendizagem, revela, para pais e educadores, um cenário de desigualdade sobre acessos.

João Leandro, 15 anos, cursa o 1º ano do Ensino Médio em uma escola estadual localizada no bairro de Tejipió, na Zona Oeste do Recife. Ele passou quase um ano e mei com o celular quebrado e dependendo do aparelho eletrônico do pai para assistir às aulas à distância. A mãe do jovem, a trabalhadora doméstica Vanessa Reis, 40, diante da situação, ainda agradece por ele ter tido pelo menos um meio de acompanhar as atividades escolares, realidade distante dos colegas de João. 

“A pandemia trouxe para a gente mais uma dificuldade, a de entender que a educação, para o meu filho, não vai chegar no mesmo ritmo que chega nas escolas particulares. O motivo disso é a falta de estrutura. Aqui, pelo menos João pôde contar com um novo aparelho para estar presente nas aulas, mas vários pais falam que a situação está difícil. Além de não terem aparelho, muitos não acessam a internet. Em escolas particulares que vejo minhas patroas irem, até café é servido quando estamos esperando para resolver alguma demanda”, relata.

A mãe de João ainda revela o receio dele não estar empenhado nas aulas como era antes pela falta de uma maior periodicidade no repasse de conteúdos. “Fico percebendo o ócio que as crianças se encontram e não por quererem. A escola, agora, fora a falta de estrutura para atender essa nova forma de aprender, tem uma média de apenas uma aula por semana, o que dificulta a assimilação das matérias. Para se ocupar, substitui o tempo que poderia aprender, pelo jogo”, relata Vanessa. 

Esta realidade é confirmada pela pedagoga e ativista pela Rede de Mulheres Negras de Pernambuco, Joaninha Dias, 38. A educadora de ensino estadual, teve que redefinir os horários para atender pais e alunos. “A pandemia nos trouxe uma perda de horário de acompanhamento dos nossos alunos. Meu horário, por exemplo, teoricamente seria das 7h30 às 11h30 em uma das escolas que leciono, mas tive que mudar. O que falar para uma aluna que responde a atividade no início da madrugada e justifica que estava esperando o celular do tio, que voltava do trabalho naquele horário, para enviar? Situações como essa me fizeram entender que, se eu coloco que a aula será ministrada por plataformas on-line, estou dizendo para as crianças e suas famílias que elas estão custeando a educação e isso eu não posso cobrar. Não é papel delas”, pontua. 

A educadora complementa afirmando que os professores da rede pública de ensino estão desenvolvendo métodos para conseguirem passar os conteúdos programados para o ano letivo. “Fica por nossa conta saber como chegar nos alunos e tentar desenvolver a educação com uma estrutura falha e desigual. Eu mesma gravo áudios, por ter uma interação melhor com pais e alunos, além de não sobrecarregar a memória dos aparelhos. A ideia é enviar os documentos com os conteúdos e atividades e, através da voz, todos conseguirem assimilar o que se é passado ou pedido durante as avaliações. Um processo que só foi entendido durante a pandemia”, conta.

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Joaninha atenta ainda para uma questão voltada ao entendimento dos educadores da rede de ensino estadual e municipal, de que muitos não estão em um ambiente acolhedor para se concentrar nas aulas e que têm pais ou responsáveis que estão preocupados em sobreviver. As dificuldades sociais e de acesso à educação de qualidade e estruturada culminam em uma constatação presente no contexto atual de todo o país, a saída efetiva dos jovens do ambiente escolar. “É perceptível a diferença do número de alunos presentes nas turmas. De salas que tinham 25 alunos, hoje, no máximo, contam com uma média entre 8 e 10. Esses são os que apresentam o mínimo de regularidade e oportunidade de acesso, o que revela preocupações com outras causas, como os altos e preocupantes índices de insegurança alimentar e o desemprego no Brasil. 

A ativista também ressalta a nova relação dos moradores da periferia com a escola, que também foi mudada. A escola era um lugar de segurança e um ponto de apoio à comunidade, até pela criança estar em segurança e se ocupando enquanto os responsáveis estão trabalhando. Tratando do âmbito pedagógico, a pandemia ainda retirou dos jovens um lugar de socorro, por saberem que na escola poderiam contar situações vivenciadas em casa ou na rua, o que dificulta o entendimento mais específico sobre as causas de um rendimento não satisfatório entre outras constatações possíveis no dia a dia presencialmente.

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Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios - PNADCOVID-19 , realizada no ano de 2020, revelaram que em setembro 6,4 milhões de estudantes, que correspondem a 13,9% do total, não tiveram acesso às atividades escolares no Brasil. O mesmo levantamento mostrou que estudantes negros e indígenas sem atividade escolar são o triplo de estudantes brancos: 4,3 milhões de crianças e adolescentes negros e indígenas da rede pública e 1,5 milhão de adolescentes brancas, respectivamente.

Para a educadora social, integrante da Rede de Ativista da Educação do Fundo Malala e também do Comitê Pernambucano da Campanha Nacional Pelo Direito à Educação, Paula Ferreira, a situação é alarmante e não será resolvida brevemente. “A maior preocupação para a classe que pensa no futuro desses jovens é que essa defasagem gerada pela pandemia vai reverberar a longo prazo. O resultado disso nós já sabemos: agravamentos da exclusão social, racial e de gênero, acentuando o cenário de precariedade enquanto ensino fundamental e médio no país. Precisamos de ações urgentes que garantam a permanência dos alunos nas escolas”, afirma.

Paula ainda pontua que a falta de fundos destinados à melhorias na educação, dentro e fora de contexto pandêmico, é uma realidade que precisa ser mudada para que gerações futuras sofram menos no desenvolvimento intelectual e na falta de oportunidades no mercado de trabalho. “Nós vivemos em um país que as políticas públicas não operam ao nosso favor. Temos, de fato, uma condição de inferioridade por considerarmos que estamos em um país racista, patriarcal, que não têm lutado para igualdade nas políticas educacionais. O Estado, por sua vez, opera na retirada de direitos. Falta a aplicação de recurso financeiro que garanta uma boa qualidade de ensino para as crianças e adolescentes e isso não é de hoje. Atualmente, lidamos com agravantes”, denuncia. 

Segundo a página oficial da Prefeitura do Recife, hoje, a capital conta com 1477 unidades de ensino municipais. Deste número, a quantidade de alunos sem aula ou vítimas da irregularidade de ensino é imensurável. Questionada pela Alma Preta Jornalismo, a assessoria de comunicação do município, até o fechamento desta publicação, não informou medidas em relação à estrutura para educação à distância. 

Para Vanessa, mãe de João Leandro, o momento é de falta de perspectiva, mas torce que o cenário tenha melhorias de uma maneira geral. “Enquanto isso, a gente vai acompanhando como pode e tentando usar outras formas para que o filho tenha gosto pelos estudos, mas está difícil. Além da situação que nos encontramos, sem uma perspectiva de melhora urgente, os alunos parecem estar desamparados de algo que é básico, né? Frustrante para nós, mães, que vemos na educação uma oportunidade para os nossos filhos”, finaliza. 

Campanha nacional por melhorias no setor

Até o próximo dia 21 deste mês,  uma campanha de alcande internacional em prol do financiamento da educação e do fortalecimento dos sistemas educacionais no contexto da Covid-19 vem sendo mobilizada. É chamada "Semana de Ação Mundial 2021" que traz como tema ‘A educação está passando a lição: Financiamento e escola segura! Ensinar e aprender com infraestrutura!’ como pauta central de discussão de especialistas do campo da educação no país. A programação, totalmente virtual, conta com lives de formação e oficinas. 

O evento pretende trabalhar a necessidade de garantir segurança para o retorno às atividades presenciais nas escolas de todo o país, em cenário de pandemia de Covid-19. Para tal, ativistas que compõem a ação acreditam que será necessário mais e melhor financiamento, assim como um sistema educacional público, gratuito e inclusivo fortalecido.

Como forma prática de mudança no setor, os integrantes do evento visam exortar governos, doadores e organizações nacionais e internacionais a resolverem a falta de financiamento da educação, agravada pela crise sanitária e alertam, também, para a urgência de um financiamento público adequado.

Para conferir a programação completa das rodas de debate e oficinas, acesse o link.

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