COTIDIANO / Quarta, 29 Julho 2020 15:12

Débora Maria: ‘Se não fossem as Mães de Maio, eu teria morrido de depressão’

Conheça a história da fundadora do movimento de mulheres que perderam os filhos para a violência do Estado e buscam por justiça e respeito aos direitos humanos; ao Alma Preta, a educadora conta que seu ativismo é um ‘chamado’ em memória do filho

Texto: Aline Bernardes | Edição: Nataly Simões | Imagem: Isabela Alves

Maio. O primeiro dia é o do trabalhador. O segundo domingo é destinado às mães. O décimo terceiro lembra que no mesmo dia em 1888 foi assinada a abolição da escravatura na Brasil. Maio também é o mês das noivas, de Nossa Senhora, da cigana escrava do candomblé e da educadora e pesquisadora Débora Maria da Silva.

Maio é o mês das Mães de Maio.

Desde 2006, Débora Maria, de 61 anos, vive para honrar a memória de seu filho Edson Rogério Silva dos Santos, assassinado aos 29 anos. O gari foi uma das vítimas dos chamados “Crimes de Maio” — ações atribuídas a grupos de extermínio em resposta a ataques do Primeiro Comando da Capital, o PCC. O movimento Mães de Maio, liderado por ela, surgiu naquele mesmo ano, depois que, mães negras e não-negras juntaram forças para lutar por justiça e combater crimes do Estado contra seus filhos.

Rogério havia ido abastecer a moto em um posto de gasolina quando foi abordado por um policial. Após ser liberado, foi atingido por um tiro no coração e um em cada pulmão. Seu corpo foi encontrado no Morro da Caneleira, em Santos, no litoral de São Paulo. Débora soube que seu filho havia sido assassinado ao ouvir um programa de rádio policial local, que listou os nomes de 14 jovens que perderam a vida entre a noite do dia 14 e a madrugada do dia 15 daquele maio.

Filha da luta

Nascida em Pernambuco, Débora é a terceira de 11 irmãos. Aos três anos mudou-se para São Vicente, litoral paulista, e aos 14 anos foi morar junto ao seu marido, em Santos. Ao Alma Preta, a educadora conta que teve uma infância sofrida. “Ao longo dos anos minha mãe foi tendo filhos, filhos e passamos muitas dificuldades”, recorda.

Como muitas realidades brasileiras, Débora precisou ajudar nas despesas de casa e logo cedo começou a trabalhar como servente de pedreiro junto aos irmãos. De família cristã e conservadora, não seguiu a religião de seus pais e a sua decisão não foi bem aceita. “Aos 12 anos arrumei um emprego como empacotadora e não vi mais a necessidade de continuar na igreja”, relata. “Eu não posso dizer que tive uma infância de lazer, mas de sobrevivência”, acrescenta.

Os Crimes de Maio

Entre os dias 12 e 20 de maio de 2006, pelo menos 564 pessoas foram mortas no estado de São Paulo. Segundo levantamento da Universidade de Harvard, a maioria desses óbitos indicam a participação de policiais. Os pesquisadores ainda apontaram que mais da metade dos casos fazia parte de uma ação de vingança dos agentes de segurança do Estado contra os chamados ataques da facção Primeiro Comando da Capital (PCC), que se concentraram nos dois primeiros dias do período.

A chacina daquele ano ficou conhecida como Crimes de Maio, a maior do século 21 e talvez a maior da história do país. O gritante número de assassinatos e o desinteresse da Justiça em punir os responsáveis deu origem ao movimento Mães de Maio, formado principalmente por familiares das vítimas do massacre.

Mais do que justiça para os próprios filhos, as Mães construíram, ao longo dos anos de atuação e luta, um movimento social e são hoje referência para outras famílias que perdem seus filhos para o Estado.

“Se eu não estivesse dentro desse movimento, eu tinha morrido como tantas outras mães que se afundaram em depressão”, conta. Emocionada, Débora ainda explica que as Mães de Maio é o seu alimento, o que a faz se movimentar.

“Antes do meu filho morrer, eu já havia feito uma mobilização grande na cidade de São Vicente”, relata. Neste episódio, Débora relembra o dia em que um jovem, chamado Sidney, foi assassinado em uma quermesse.

A educadora, no entanto, conta que toda essa força pareceu esvair de seu corpo quando o seu filho se foi. Sem conseguir fazer nada, Débora ficou internada durante cinco dias após o enterro de Rogério. “Era uma dor insuportável”, relembra.

Um chamado em memória do filho

Ainda no hospital, Débora teve uma visão que consequentemente a fez transformar o luto em luta. O filho apareceu para ela e fez um pedido ao mesmo tempo que a levantava da cama puxando os seus braços. “Ele dizia ‘Eu não volto mais e não quero te ver assim, quero a minha mãe guerreando como você é para mim, uma guerreira. Você precisa levantar da cama e lutar pelos meus irmãos que estão vivos”, conta emocionada.

Segundo Débora, o episódio não foi uma alucinação ou delírio pela quantidade de remédios que tomava na época. “No dia seguinte no hospital, eu fui tomar banho e vi meus braços, onde ele me pegou para me puxar arroxeados. Ali eu vi que era uma missão, um chamado”, explica. A partir daquele momento, a educadora procurou outras mães que tiveram seus filhos mortos em ações policiais.

O trabalho começou quando Débora viu uma reportagem que citava o Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (Condepe). “Eu não sabia que havia um órgão do Estado para apoiar vítimas de violência. Eu não era politizada”, diz.

As primeiras mães que Débora encontrou foram Edinalva, Vera Freitas e Vera Gonzaga. Daí em diante, a luta das Mães de Maio se iniciou. “Em São Paulo nós fomos atrás do Ministério Público, de pessoas que poderiam nos ajudar”, relembra.

Se antes Débora tinha medo de andar por São Paulo, durante essa quase romaria, São Paulo ficou pequena. “Se a violência é globalizada, então a nossa luta também seria”, ressalta.

“Eu passei a me reconhecer como negra depois da morte do meu filho. Ao ser assassinado, Rogério ouviu dos policiais que ele seria morto por ser ‘neguinho’ e, consequentemente, para eles, ladrão”, enfatiza a educadora.

Toda essa movimentação fez da Débora uma intelectual da luta. “Hoje eu sou uma promotora popular, eu conheci as leis, os microfones, eu comecei a falar”, diz. Ao contrário do que se pensa, a militância não está presa na Academia. Como afirma a educadora, ao dizer que “muitas pessoas sabem conjugar o verbo luta só na teoria. Nós conhecemos diversos militantes e pesquisadores que usam seu conhecimento só nas salas, mas esquecem de acolher”.

No mês da Mulher Negra, Latino-americana e Caribenha, o Alma Preta traz uma série de reportagens especiais que contam a história de mulheres inspiradoras.

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