COTIDIANO / Terça, 01 Junho 2021 12:32

Com uniforme e crachá, trabalhador negro dos Correios é morto por PM em São Paulo

Funcionário dos Correios há 26 anos, Ademir foi assassinado por policiais militares após encerrar o expediente na última sexta-feira de maio; colegas de trabalho contestam versão da polícia

Texto: Juca Guimarães I Edição: Nataly Simões I Imagem: Acervo Pessoal

rosto do Ademir, funcionários dos Correios, morto pela PM
Introdução:

Funcionário dos Correios há 26 anos, Ademir foi assassinado por policiais militares após encerrar o expediente na última sexta-feira de maio; colegas de trabalho contestam versão da polícia

Texto: Juca Guimarães I Edição: Nataly Simões I Imagem: Acervo Pessoal

Ademir Santana de Souza, 40 anos, foi morto por um policial militar há poucas quadras do centro de triagem e documentação dos Correios,  onde trabalhava, na Mooca, Zona Leste de São Paulo. 

Ademir era negro e bateu o cartão de ponto para encerrar o expediente às 22h35 . Ele foi assassinado por volta das 23 horas da última sexta-feira, 28 de maio, com o uniforme e o crachá dos Correios, onde entrou, por concurso público em 1995. Os colegas de setor e amigos do sindicato contam que ele era uma pessoa calma, gentil e nunca teve histórico de violência. Na sexta-feira, segundo os amigos, não demonstrou nenhuma alteração no comportamento.

Os relatos ouvidos pela Alma Preta Jornalismo de  funcionários dos Correios, que pediram anonimato, indicam contradições com as versões que os policiais militares Carine de Castro Gonçalves, João Victor Matos dos Santos e Rodrigo Martins de Souza sustentaram no dia do crime. “Falaram que o Ademir foi abordado, reagiu com uma faca e o policial atirou nele em legítima defesa”, afirma um funcionário.

Essa abordagem teria acontecido perto da passarela da radial Leste, caminho que normalmente Ademir fazia para ir embora, ainda bem próximo do prédio dos Correios. Colegas de trabalho que passaram no local disseram que viram um corpo no chão e as viaturas da polícia, mas não imaginavam que se tratava de Ademir.

Um funcionário dos Correios, que ainda estava em expediente, disse que um policial foi até o prédio com o crachá do Ademir na mão. “Eu estava saindo e o policial perguntou se eu conhecia a pessoa do crachá e se ela trabalhava aqui. Ele perguntou se eu tinha informações e contatos de parentes, mas não explicou o que tinha acontecido”, explica o trabalhador.

Esse mesmo funcionário contou que foi até o local e lá um tenente contou que Ademir teve uma reação violenta. Como resposta, o policial atirou em legítima defesa. Ademir teria sido socorrido até um pronto-socorro. Depois, mais tarde, um outro policial foi até os Correios e disse que Ademir tinha morrido.

Essa versão, sobre o suposto socorro, não bate com a afirmação dos funcionários que viram um corpo no chão. Os policiais contaram primeiro que Ademir tinha uma faca e depois que era uma tesoura.

Quem era Ademir

Ademir era divorciado, morava no Parque Edu Chaves, na Zona Norte da capital, e tinha dois irmãos. Um deles, Aílton Souza, conta que ele tinha problemas de saúde física e nenhum psicológico. Não fazia uso de remédios controlados e nunca usou armas.

“Meu irmão tinha problemas nos dois joelhos e na coluna. Não podia levantar peso e tinha limitações físicas para movimentos bruscos. Já operado, ficou um tempo afastado do trabalho. Quando voltou teve que ser transferido para uma seção onde não carregava peso”, lembra o irmão mais novo da vítima, que também trabalha nos Correios.

“Ele era muito pacato e tranquilo. Estava indo para o ponto de ônibus. Mataram ele com três tiros, um deles no peito. Ademir era muito querido entre os amigos. Não dá para acreditar nessa história de que ele teria reagido. A polícia primeiro atira para depois perguntar”, diz Ricardo, conhecido como Nego Peixe, diretor do Sindicato dos Trabalhadores dos Correios.

Sintect-SP encaminhou um ofício para o ouvidor das Polícias do Estado, o doutor Eliseu Soares Lopes, onde pede empenho e ajuda na apuração do caso.

A Alma Preta Jornalismo entrou em contato com a  Secretaria de Segurança Pública (SSP) para solicitar informações sobre os policiais envolvidos na morte de Ademir Santana de Souza e quais seriam os procedimentos de investigação. Em nota, o órgão vinculado ao Governo do Estado de São Paulo afirmou que o caso é investigado pela 2ª Delegacia de Repressão a Homicídios, da Divisão de Homicídios, do DHPP.

De acordo com a versão da secretaria, Ademir foi "flagrado com um objeto cortante na mão e não obedeceu à abordagem dos agentes, que intervieram." A pasta diz ainda que ele foi socorrido e levado ao Pronto Socorro, "mas não resistiu e morreu", e que "diligências são realizadas visando à apuração de todas as circunstâncias dos fatos, localização de possíveis testemunhas e câmeras de segurança". 

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