COTIDIANO / Segunda, 07 Fevereiro 2022 17:43

Chacina do Cabula: sete anos depois moradores ainda se sentem ameaçados

No dia 6 de fevereiro de 2015, 12 jovens negros foram assassinados por nove policiais militares, que ainda respondem em liberdade; "A gente segue em luto porque são sete anos, mas muito mais de 12 já foram assassinados nesse período", diz moradora

Texto: Dindara Ribeiro | Edição: Nadine Nascimento | Foto: Reaja

Imagem enquadra um púlpito de mármore e, abaixo, flores brancas e amarelas. No canto superior direito estão as pernas e mãos de duas pessoas negras
Introdução:

No dia 6 de fevereiro de 2015, 12 jovens negros foram assassinados por nove policiais militares, que ainda respondem em liberdade; "A gente segue em luto porque são sete anos, mas muito mais de 12 já foram assassinados nesse período", diz moradora

Autor:

Texto: Dindara Ribeiro | Edição: Nadine Nascimento | Foto: Reaja

Desde 2015, os moradores da Vila Moisés, região periférica de Salvador, convivem com a insegurança e o medo. Na comunidade, localizada no bairro do Cabula, o clima de desconfiança, o silêncio e a tensão dão o tom do que foi a chacina do Cabula, ação policial que resultou na morte de 12 jovens negros, com idades entre 16 e 27 anos, e que nesse ano completa sete anos sem respostas.

Para moradores e familiares, a tragédia não se encerrou em 2015 e segue até os dias atuais. Em anonimato, pessoas que vivem na região relatam que policiais que participaram da chacina ainda tentam silenciar suas vozes e as ameaçam de morte.

"Os policiais continuam aqui atuando, são as mesmas guarnições e, ao longo desses sete anos, no período de fevereiro, as ações se intensificam [...] um dia antes morre alguém, um dia antes eles invadem o bairro, inclusive, relatando isso: 'olha, eu participei da chacina do Cabula' ou 'vou matar vocês em grupo'... Essa tem sido a rotina nesses bairros", relata uma moradora, que preferiu não se identificar.

Todo ano, no dia 6 de fevereiro, parentes, militantes e familiares de outras vítimas da violência policial se reúnem no local onde aconteceu o crime, um campo a céu aberto rodeado por matagais, espaço que hoje dá lugar a um púlpito e velas em homenagem às vítimas, onde familiares ainda revivem o luto e pedem para que o caso não seja esquecido.

REAJA chacina cabula siteAnualmente, familiares e amigos se reúnem em memória às vítimas da chacina do Cabula | Foto: Reaja

Em ato público realizado no último domingo (6), os nomes das 12 vítimas foram lembrados: Evson Pereira dos Santos, Ricardo Vilas Boas Silva, Jeferson Pereira dos Santos, João Luis Pereira Rodrigues, Adriano de Souza Guimarães, Vitor Amorim de Araújo, Agenor Vitalino dos Santos Neto, Bruno Pires do Nascimento, Tiago Gomes das Virgens, Natanael de Jesus Costa, Rodrigo Martins de Oliveira e Caique Bastos dos Santos. Das vítimas, três eram adolescentes. Na época do crime, a investigação apontou que nenhuma das vítimas tinha registro de antecedentes criminais.

"Para as famílias têm sido um luto constante. Os bairros periféricos costumam se relacionar como família. Quando morre um filho da vizinha, é um sobrinho que morre. A gente segue em luto porque são sete anos, mas muito mais de 12 já foram assassinados nesse período", completa a moradora, em anonimato.

Sobre as ameaças denunciadas pelos moradores, a PM informou que qualquer cidadão que se sinta ofendido pela ação de policiais podem entrar em contato com a Ouvidoria da Instituição, no número 0800 284 0011, ou com a Corregedoria Geral da Polícia Militar, que funciona em regime de plantão 24h, todos os dias, onde é possível realizar a denúncia de maneira anônima.

Sete anos sem resposta

A chacina do Cabula aconteceu no dia 6 de fevereiro de 2015, quando nove policiais militares mataram 12 jovens, que, segundo a polícia, eram suspeitos de integrar uma quadrilha que planejava um roubo em um banco da região. A PM também alegou legítima defesa, já que teriam reagido a disparos de arma de fogo supostamente iniciado pelas vítimas. Na época, o governador Rui Costa (PT) chegou a comparar a ação dos policiais como a "de um artilheiro em frente ao gol".

No entanto, uma investigação do Ministério Público considerou que a ação policial foi uma execução motivada por vingança, já que dez dias antes do fato um tenente levou um tiro no pé durante uma operação no bairro.

Em investigação, a Procuradoria-Geral da República (PGR) apontou indícios de violência policial na operação, análise que foi seguida pelo Ministério Público da Bahia (MP-BA), que denunciou os nove policiais, apontados de encurralar e executar as 12 vítimas. O caso chegou a ser encaminhado para a Terceira Seção do Superior Tribunal de Justiça (STJ), que, em 2018, negou a federalização do crime, mantendo o julgamento no Tribunal de Justiça da Bahia (TJ-BA).

Atualmente, o caso corre em segredo de justiça e, segundo o TJ-BA, mais informações "não podem ser disponibilizadas pois visam manter o sigilo". De acordo com nota enviada pela Polícia Militar, dos nove policiais envolvidos, oito seguem em atividade e um foi demitido. A PM não detalhou o motivo da demissão.

Andreia Beatriz é uma das integrantes do Movimento Reaja ou Será Morto, que tem acompanhado as famílias na busca por respostas sobre o caso. Para ela, a chacina do Cabula revela um modelo de segurança pública que insiste na criminalização dos jovens negros em prol da defesa dos interesses da supremacia branca.

"A gente entende a necessidade de manter esse caso vivo porque ele é um dos mais emblemáticos que revela a perversidade do Estado em defesa do seu projeto político que não nos inclui. O mais importante, para nós, vir para cá todo dia 6 de fevereiro, é lembrar o nome desses jovens como fundamental para também manter essa história viva", diz Andreia.

REAJA CHACINA DO CABULA"Justiça seria se esses jovens não fossem mortos", diz Andreia Beatriz | Foto: Dindara Paz/Alma Preta Jornalismo

"Justiça seria se esses jovens não fossem mortos. Seria se, depois da chacina do Cabula, o governo do estado tivesse aprendido sobre o modelo de segurança pública que coloca a vida de pessoas negras em risco o tempo todo, mas, infelizmente, o que a gente teve foram mais mortes, mortes de crianças, como Ryan e Micael, de 9 e 11 anos, também como resultado das incursões policiais", completa Andreia.

A vida de Micael Silva Menezes, de 11 anos, também foi lembrada em um ato público realizado pelo Reaja em memória às vítimas do Cabula e de outros casos da letalidade policial. No dia 15 de junho de 2020, Micael brincava de pipa pelo bairro Vale das Pedrinhas, em Salvador, quando policiais militares faziam uma diligência na região. Assustado, Micael tentou se proteger, mas foi surpreendido com um tiro no pescoço e morreu.

Segundo o pai de Micael, Maurício dos Santos Menezes, os policiais chegaram atirando na localidade e tiraram a vida de um dos seis filhos. "Nós somos pais, estamos criando nossos filhos com toda dificuldade, mas é para ver eles crescer, estudar, ser uma coisa na vida, e não para a PM pegar na metade da gestação da vida dos nossos filhos e ceifar a vida de um futuro médico, de um futuro advogado e a profissão que eles quisessem exercer", lamenta.

mauricio micael'Estamos criando nossos filhos com toda dificuldade, mas é para ver eles crescer, estudar, ser uma coisa na vida' | Foto: Iago Augusto/Alma Preta e Divulgação

"Está ficando difícil a cada dia. Eu só citei o nome de Micael e os 12 aqui do Cabula, mas tem Ryan Andrew, tem Joel Santana, do Nordeste de Amaralina. Esses são os que foram divulgados. E os que não são? E os que ficam por debaixo do pano? Eu gostaria que os órgãos cabíveis tomassem uma providência sobre isso", completa Maurício, que pede por justiça.

Para Andreia Beatriz, é necessário que as vozes das famílias da chacina do Cabula e de tantas outras famílias que perderam seus filhos, irmãos, primos e tios sejam ecoadas como forma de dar um basta na execução de vidas negras.

"Esses são os casos que ganham visibilidade, mas é difícil viver cotidianamente uma abordagem policial, tapa na cara e desrespeito a qualquer grau de humanidade. Esse projeto de genocídio nega a nossa existência, a nossa humanidade. Numa guerra racial, numa situação onde a gente vive esse horror racial de Estado, é muito difícil saber o que representaria uma vitória, mas o fato é que a gente precisa seguir lutando. Esse é o maior legado que a gente pode continuar carregando e deixar para quem vier", completa Andreia Beatriz.

Leia também: Bairros com maioria negra de Salvador têm menos acesso a políticas públicas

 Apoie jornalismo preto e livre!

 O funcionamento da nossa redação e a produção de conteúdos dependem do apoio de pessoas que acreditam no nosso trabalho. Boa parte da nossa renda é da arrecadação mensal de   financiamento coletivo e de outras ações com apoiadores. 

 Todo o dinheiro que entra é importante e nos ajuda a manter o pagamento da equipe e dos colaboradores em dia, a financiar os deslocamentos para as coberturas, a adquirir novos   equipamentos e a sonhar com projetos maiores para um trabalho cada vez melhor. 

 O resultado final é um jornalismo preto, livre e de qualidade.

 Acesse aqui e apoie a Alma Preta Jornalismo

NEWSLETTER

Fique por dentro de tudo que acontece. Se inscreva e receba nossas notícias toda semana.

VÍDEOS

camisa69anos.jpg
resindencialcambridge.jpg
rapamazonia.jpg
casoborbagato.jpg