COTIDIANO / Quinta, 22 Julho 2021 12:40

Bahia tem a polícia mais letal e lidera mortes por chacinas no Nordeste

PM é apontada como a principal força policial envolvida nas mais de 2 mil ações monitoradas; as chacinas no estado cresceram 37,5% nos primeiros cinco meses de 2021

Texto: Dindara Ribeiro | Edição: Lenne Ferreira | Foto: Divulgação

Introdução:

PM é apontada como a principal força policial envolvida nas mais de 2 mil ações monitoradas; as chacinas no estado cresceram 37,5% nos primeiros cinco meses de 2021

Texto: Dindara Ribeiro | Edição: Lenne Ferreira | Foto: Divulgação

A Bahia é considerada como o estado que tem a polícia mais letal do Nordeste e é líder em mortes por chacinas, segundo dados divulgados nesta quinta (22) no relatório "A vida resiste: além dos dados da violência", da Rede de Observatórios da Segurança. Na comparação de junho de 2019 a maio deste ano, a Bahia registrou 247 vítimas em chacinas, sendo que 165 foram vítimas fatais.

Na análise de junho de 2019 a maio de 2021, foram 461 vítimas fatais durante operações policiais. No total, analisado nos cinco estados que fizeram parte da pesquisa, a Rede contabilizou 3.792 mortes pela polícia. No quadro geral, o Rio de Janeiro tem a polícia mais letal, com 827 mortos em ações de policiamento.

 

Dentro do mesmo período analisado, no quadro total de vitimização em ações da polícia por estado (incluindo número de mortos, mortes de crianças e adolescentes e feridos), a Bahia segue na primeira posição em relação ao Nordeste (510), seguido por Pernambuco (100) e Ceará (99). Já na análise geral, o Rio de Janeiro lidera com 1.583. Em segundo lugar, aparece São Paulo, com 1.500 casos.

Dentre as motivações em ações de policiamento, o Estado também foi destaque, com 35,8%,, nos caso de repressão ao tráfico de drogas. Um dado importante também aparece no relatório: a Bahia foi o único no Nordeste que teve aumento, de 3,8%, de ações policiais em festas e manifestações culturais da periferia. A Polícia Militar é apontada como a principal força policial envolvida nas 2.125 ações monitoradas de junho de 2019 a maio de 2021, presente em 1.485 ações (69,9%).

No ano passado, o relatório "A cor da violência policial" indicou que 97% das mortes que ocorreram durante ações policiais vitimaram corpos negros, como é o caso de Viviane e Maria Célia, que foram mortas na porta de casa durante uma ação policial no bairro do Curuzu, em Salvador, e o caso de Jussileni Santana Juriti, que estava grávida de sete meses do terceiro filho e foi baleada também em uma ação da Polícia Militar no bairro de Paripe, região do Subúrbio da capital baiana. O filho dela, de 2 anos, presenciou a cena. Jussileni levou três tiros, sendo um deles na barriga, e perdeu o bebê. Ela chegou a ficar em estado grave, mas conseguiu se recuperar e já recebeu alta médica.

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Para o coordenador da Rede de Observatórios da Segurança na Bahia e co-fundador da Iniciativa Negra por uma Nova Política sobre Drogas, Dudu Ribeiro, os dados apontam que é preciso que a Secretaria da Segurança Pública e o Governo da Bahia repensem sobre a forma de atuação das forças policiais, principalmente nas comunidades periféricas.

"Há uma prevalência da lógica do confronto e da violência que orienta a ação da Secretaria de Segurança Pública da Bahia. Esse modelo é particularmente dramático nas comunidades negras e periféricas, onde a vida não tem sido a prioridade da atuação dos agentes de segurança. Um conjunto de fatores tem relação com o aumento das ações policiais nesses territórios, desde fenômenos relacionados com a própria dinâmica territorial nessa lógica do combate do enfrentamento e da distribuição das forças, como também um incentivo por parte do Executivo de uma lógica bélica de presença da Polícia Militar nesses territórios, de uma lógica sempre criminalizadora dos territórios e a violência como uma única resposta possível", pontua o coordenador.

Chacinas na Bahia cresceram 37,5% nos primeiros cinco meses de 2021

De janeiro a maio deste ano, as chacinas na Bahia cresceram 37,5%, o único indicador que teve crescimento em comparação com os dados de 2020. Nos primeiros cinco meses do ano, a Rede contabilizou 572 ocorrências violentas na Bahia, que incluem: mortes causadas por policiais, feminicídios, mortes policiais, racismo, violência contra o público LGBTQIA+ e chacinas.

Dentre as ocorrências de violência na Bahia está o Caso Atakarejo, em Salvador, onde tio e sobrinho foram mortos após um suposto furto de carne no dia 26 de abril. Seguranças do supermercado entregaram Bruno e Yan Barros, de 29 e 19 anos, a traficantes para serem executados. Os corpos deles foram encontrados com sinais de tiros e tortura.

Em relação aos eventos monitorados, a maioria apresentou redução de janeiro a maio de 2021 na comparação com o mesmo período do ano passado. O número de vítimas por forças do Estado teve queda de 35,6%, um total de 29 casos nos primeiros cinco meses deste ano, as violências, abusos e excessos por parte de agentes do Estado diminuíram 38,7%, totalizando 19 registros de janeiro a maio. Já os enfrentamentos envolvendo armas de fogo, que totalizaram 81 casos, reduziram 61,6% em comparação com os dados do ano passado.

No entanto, em números totais do quadro geral, as ações de policiamento foram as que tiveram mais registros: 295, seguido por ações envolvendo arma de fogo (81), Feminicídio e violência contra a mulher (61) e violência contra crianças e adolescentes.

Segundo Dudu Ribeiro, a falta de reconhecimento dos dados por parte do Estado dificulta o diálogo para que o Governo estadual esteja apto para dialogar sobre novos modelos de segurança para a Bahia.

"Normalmente, a Secretaria nega os números, contesta a metodologia ao invés de estar preocupada com os dados que as pesquisas revelam. A Rede de Observatórios da Segurança tem a capacidade de dar uma grande contribuição do ponto de vista de repensar a segurança pública, mas é preciso abrir o canal da escuta que até agora não houve por parte da Secretaria ou do Governo".

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