sábado, 8 de maio de 2021 COTIDIANO /

‘Ao minimizar violência policial, a mídia faz parte do plano de genocídio negro’, destaca advogada

Mobilização para a mídia de massa fazer uma cobertura correta do assassinato em massa de pessoas negras recebeu 2.646 adesões desde abril

Texto: Juca Guimarães I Edição: Nataly Simões I Imagem: Rovena Rosa/Agência Brasil

 

Circula em nove grandes cidades do Brasil a campanha “Alvos do Genocídio” para alertar sobre a invisibilidade da violência do Estado contra a população negra. A campanha é coordenada pela Coalizão Negra por Direitos, organização que reúne mais de 150 entidades do movimento negro.

O objetivo é pressionar os veículos de mídia para que eles passem a tratar os assassinatos deliberados, diários, sistemáticos e em massa da população negra com o nome que eles têm: genocídio. Segundo a advogada Silvia Souza, a imprensa faz parte de um plano de genocídio ao minimizar as violências sofridas por essa população.

“A mídia de massa tenta minimizar a violência policial. Os programas sensacionalistas sempre retratam o negro como um sujeito altamente perigoso e fomenta o medo na sociedade”, afirma Silvia, que integra a Educafro e a Coalizão Negra por Direitos.

“É só nomeando que a gente consegue reverter este quadro através de políticas de segurança pública adequadas. O termo genocídio não existia até 1944. Ele foi criado como um conceito específico para designar crimes que têm o objetivo de exterminar grupos nacionais, étnicos, religiosos ou raciais. É o que acontece no Brasil”, explica a advogada.

O Atlas da Violência do Instituto de Pesquisa e Econômica Aplicada (Ipea) mostra que em 2017 o país registrou mais de 65 mil assassinatos. Deste total, 48% foram de homens, jovens e negros, com idade entre 15 e 29 anos. Do total de mortes no ano, 75,5% foram de pessoas negras.

Banalização da violência

A banalização da violência contra o corpo negro é uma das faces do plano de genocídio apoiado pelas forças de segurança pública, conforme alerta o advogado Felipe Pires Morandini. “O sistema das abordagens policiais, por exemplo, reforça um modelo de discriminação. Um comandante da Rota, aqui de São Paulo, disse uma vez que a abordagem nos Jardins tinha que ser diferente da abordagem nas periferias”, recorda.

Morandini é o advogado de defesa da comerciante negra de 51 anos que foi agredida por um policial militar que pisou em seu pescoço em Parelheiros, na Zona Sul de São Paulo. O caso aconteceu no dia 30 de maio e ganhou repercussão após as imagens do crime serem exibidas pela Rede Globo, em 12 de julho.

“Isso escancara a discriminação racial dentro da polícia. Em São Paulo, a polícia mata uma pessoa a cada oito horas. De todas as pessoas mortas, a imensa maioria é negra e pobre, o que revela como o tratamento é diferenciado para negros e para quem mora da periferia”, considera o advogado.

A comerciante agredida fez uma denúncia na Corregedoria da Polícia Militar dias depois do crime. Os policiais que participaram da agressão não foram afastados de imediato, apenas transferidos de batalhão. A Corregedoria só determinou o afastamento dos PMs após a reportagem da TV Globo.

Desde o início da campanha “Alvos do Genocídio”, em abril, foram registradas 2.646 assinaturas de adesão. A campanha tem forte mobilização nas redes sociais com a hashtag #alvosdogenocídio e em anúncios nas ruas das cidades de São Paulo, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Salvador, Vitória, Curitiba, Florianópolis e Blumenau.

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