COTIDIANO / Sexta, 29 Outubro 2021 11:38

Alimentação escolar é porta de entrada do combate à fome nas periferias

Segundo profissionais que atuam em escolas da cidade de São Paulo, muitas vezes a principal refeição de crianças em situação de vulnerabilidade é feita no ambiente escolar

Texto: Letícia Fialho | Edição: Nataly Simões | Imagem: Joyce Dias

Imagem mostra crianças no refeitório escolar.
Introdução:

Segundo profissionais que atuam em escolas da cidade de São Paulo, muitas vezes a principal refeição de crianças em situação de vulnerabilidade é feita no ambiente escolar

Texto: Letícia Fialho | Edição: Nataly Simões | Imagem: Joyce Dias

Com o retorno das aulas presenciais, a comunidade escolar enfrenta uma série de desafios em torno da alimentação de crianças e adolescentes visto que a escola muitas vezes fornece a principal refeição de crianças em situação de vulnerabilidade. Um estudo do Núcleo Ciência Pela Infância (NCPI), da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, aponta que a pandemia aumentou as desigualdades sociais e as crianças foram as mais afetadas em aspectos como as condições alimentares.

Segundo Joyce Dias, diretora do CEU EMEF Perus, localizado na periferia da região noroeste de São Paulo, após o fechamento das escolas por causa da Covid-19 muitos pais e mães de alunos ficaram desempregados e passaram a pedir comida na porta da escola. 

“A escola acaba sendo um catalisador de problemas sociais. É o espaço que representa o poder público que as pessoas têm mais acesso. Como alternativa, nós passamos a comprar e a distribuir cestas básicas para as famílias, depois a prefeitura passou a disponibilizar as cestas”, conta.

No dia 7 de abril do ano passado, a lei de atendimento da alimentação escolar passou a autorizar durante o período de suspensão das aulas a distribuição de alimentos adquiridos com recursos do Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae) aos pais ou responsáveis dos estudantes das escolas públicas de educação básica.  

Segundo a diretora da escola em Perus, a unidade recebeu apoio de parceiros como a "Brincada de Apoio", grupo de pesquisa da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), que desenvolve um projeto que visa reduzir os impactos negativos da pandemia através do brincar e dispõe de um suporte online a pais e professores. Eles também arrecadam doações para hospitais e comunidades de baixa renda. 

Outras parcerias surgiram, como o CIEJA (Centro Integrado de Educação de Jovens e Adultos) de Perus e a Comunidade Cultural Quilombaque, que mobilizaram campanhas de arrecadação e distribuição de alimentos.  “Através dessas parcerias, nós conseguimos o apoio do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) e passamos a distribuir também as cestas saudáveis para as famílias das nossas crianças”, relata Joyce. 

Alimentação saudável e de qualidade

A nutricionista Patrícia Viana também explica como o ambiente escolar supre necessidades de alimentação saudável das crianças. “As crianças necessitam de uma alimentação equilibrada e as escolas recebem alimentos de hortifruti e merenda seca, tudo de ótima qualidade. Nas escolas de zonas periféricas, muitas vezes os próprios pais não têm condições financeiras de oferecer para os seus filhos. Aqui as frutas são servidas à vontade em todas as refeições, o que contribui bastante no crescimento deles”, detalha a profissional.

A Secretaria Municipal de Educação (SME) é responsável pela elaboração do cardápio das escolas da cidade de São Paulo. Através do aplicativo Prato Aberto, o cardápio da merenda escolar das escolas municipais de São Paulo é disponibilizado. Mas são as ‘tias’ da merenda as principais responsáveis pela introdução da alimentação balanceada. 

“A escola oferece uma variedade de alimentos, isso é importante principalmente para crianças pequenas que estão na fase de conhecer. Minha filha, por exemplo, recusa muitas coisas em casa e depois de um tempo ela volta a comer aquilo que recusou. O convívio na escola é importante, principalmente quando eles veem o amiguinho comendo algo com gosto e se permitem provar algo novo”, relata Kaline Carvalho, mãe da Lívia. 
Cozinheiras da Cozinheiras do CEU EMEF Perus, de São Paulo. | Foto: Joyce Dias

Muitos estudantes não têm em casa o trivial “arroz, feijão, carne, macarrão”

No primeiro ano completo desde o início da pandemia, período de março de 2020 a fevereiro de 2021, o preço dos alimentos nos supermercados acumulou uma alta de quase 20%.  Patrícia que atua em várias escolas em bairros periféricos da região noroeste de São Paulo percebeu que aumentou também o número de crianças que passam fome em casa.  A nutricionista relata que muitos não possuem o trivial “arroz, feijão, carne, macarrão”. Ela também considera que a alimentação escolar nesses casos é a refeição mais completa que os alunos têm no dia.

“O que mais impacta é que muitas crianças não consomem frutas porque não tem em casa. Ao ver as crianças se alimentando, observamos que elas gostam e experimentam a comida da escola. Hoje uma criança falou ‘tia, pode por bastante macarrão porque eu amo o macarrão da escola’, então, percebemos que grande parte das nossas crianças vivem em condições precárias”, pondera. 

Conscientização  para evitar desperdício

No CEU EMEF Perus existe um projeto voltado especificamente para a alimentação escolar. Nesse projeto são pautadas questões como o desperdício do alimento e introdução de uma alimentação saudável na escola.  “Orientamos aos pais e responsáveis para que as crianças não entrem na escola com alimentos trazidos de fora. Em caso de crianças com deficiência, que precisam de uma alimentação diferenciada, os pais nos orientam para que elas recebam as dietas especiais disponibilizadas pela prefeitura”, conta a diretora Joyce.

Nos núcleos responsáveis pela cozinha das escolas da capital paulista os cuidados com a higienização, preparo do alimento, controle de temperatura e controle de distribuição foram redobrados, o que também contribui para evitar o desperdício, conforme relata a nutricionista. "Nós aumentamos os nossos cuidados sobretudo na distribuição do alimento. Antes os próprios alunos se serviam, porque era self service. Hoje a alimentação fica restrita a cozinha e as meninas servem prato a prato. Isso também evita o desperdício. Já que eles não colocam a comida na quantidade que querem e deixam no prato”, finaliza Patrícia.

Leia também: Retorno das aulas nas escolas públicas traz desafios para ressocialização das crianças

Este conteúdo é resultado de uma parceria entre a Alma Preta Jornalismo e a Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, que existe para desenvolver a criança para desenvolver a sociedade. A fundação elege quatro prioridades: mobilizar as lideranças públicas, sociais e privadas; sensibilizar a sociedade; fortalecer as funções dos pais e dos adultos responsáveis pelas crianças e melhorar a qualidade da educação infantil no Brasil.

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