COTIDIANO / Terça, 17 Agosto 2021 16:50

'Abrimos o debate sobre monumentos que homenageiam racistas’, diz Paulo Galo após a soltura

Em entrevista à Alma Preta, o ativista ressalta que argumentos pouco objetivos foram usados para que o sistema judiciário pudesse mantê-lo detido, como o não-arrependimento por ter incendiado a estátua de Borba Gato

Texto: Caroline Nunes e Pedro Borges | Edição: Nadine Nascimento | Imagem: Pedro Borges/Alma Preta Jornalismo

Introdução:

Em entrevista à Alma Preta, o ativista ressalta que argumentos pouco objetivos foram usados para que o sistema judiciário pudesse mantê-lo detido, como o não-arrependimento por ter incendiado a estátua de Borba Gato

Texto: Caroline Nunes e Pedro Borges | Edição: Nadine Nascimento | Imagem: Pedro Borges/Alma Preta Jornalismo

“O objetivo principal foi atingido, que era abrir o debate sobre os monumentos que homenageiam racistas. Aí, tem gente que fala ‘tinha que fazer de forma democrática’. Mas quando você ouviu dizer na Globo que tem uma estátua de 13m que homenageia um torturador, estuprador, senhor de escravos? Não se vê. A gente conseguiu fazer esse debate ir para todos os lugares”, é o que diz o ativista Paulo Lima, conhecido como Galo.

Solto recentemente, após ter ficado dez dias em prisão temporária e quatro em prisão preventiva, Galo foi acusado de incendiar a estátua de Borba Gato no protesto do dia 24 de julho, em Santo Amaro, na Zona Sul de São Paulo. Para o ativista, sua prisão também foi necessária para expor o sistema judiciário que, segundo ele, é motivado por valores por vezes controversos.

“Coisas que eu vi no processo foi algo do tipo ‘vou prender o Galo porque ele não se arrependeu’ ou ‘vou prender o Galo por que ele é líder de movimento social’. Baseado em que? Isso é fútil”, ressalta.

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Galo ainda afirma que o ato se trata de algo simbólico, feito justamente para chamar a atenção para o assunto. Ele relembra que a estátua de Borba Gato já havia sido manchada de tinta anteriormente, fato que não surtiu nenhum efeito na época, e que vários monumentos na cidade já foram apontados como racistas.

“A intenção nunca foi machucar ninguém ou sair botando fogo em outras estátuas. A ideia era abrir um debate através do que aconteceu e questionar: é esse o Brasil que nós queremos construir, homenageando torturador e genocida?”, questiona o ativista. 

‘Uma estátua pegando fogo chama mais atenção do que três crianças sumidas?’

Paulo Galo afirma que é necessário debater ainda o que ganha visibilidade e o que motiva a comoção social. O ativista cita exemplos de atos violentos para destacar que a indignação ainda é seletiva, como o caso da mulher trans Roberta da Silva, queimada viva em Recife em junho, a morte da menina Ágatha por uma bala perdida disparada pela PM, no Complexo do Alemão, e o caso dos três meninos desaparecidos em Belford Roxo, também no Rio de Janeiro.

“Uma estátua pegando fogo chama mais atenção do que três crianças sumidas? Sério que um pedaço de pedra chama mais atenção que isso? Quem sabe o que aconteceu com essas crianças, se estão mortas, se estão sendo torturadas ou viraram escravas sexuais”, ressalta.

“A pessoa que foi lá, colocou fogo na estátua, merece mofar na cadeia porque queria abrir um debate? E como a sociedade se posiciona quanto à irresponsabilidade do Estado? Morre um dos nossos é ‘mimimi’. Nós queimamos um pedaço de pedra e isso é a maior tragédia do século”, pondera.

Percepção sobre o sistema carcerário e futuro

O ativista Paulo Galo relata que imaginava ser detido pelo incêndio da estátua de Borba Gato, e não se surpreendeu pelas coisas terem ocorrido dessa forma por ele ser um homem negro. “É que as pessoas criam mecanismos para conseguir viver tranquilamente, mas quando você é preto, se tem um alvo tatuado nas costas”, afirma.

Na análise do ativista, o sistema carcerário é insuportável. “É impossível viver ali [cadeia] por muito tempo sem querer se matar, sem querer morrer”, completa. Galo ainda considera que a prisão só se torna um ambiente menos hostil pelo companheirismo encontrado nos demais detentos.

“Você não tem um sabonete, nada. Você é jogado quase nu na cela. Daqui a pouco, outra pessoa presa vem e te oferece uma toalha, um sabonete, outro te dá um pedaço de pão, outro te dá um cobertor. A cadeia se faz suportável pelas pessoas que estão lá presas. Mas a estrutura é pensada para você sair dali louco. É o inferno”, desabafa Galo.

Paulo Galo ainda ressalta a falta de saneamento básico, ausência de higiene na alimentação dos presidiários, condições precárias das celas, superlotação dos espaços e falta de atendimento médico aos encarcerados. “É necessário quase fazer uma rebelião para que um companheiro que está doente seja atendido pelos médicos”, relembra.

Contudo, o ativista afirma que apesar do ocorrido, a luta continua. Paulo Galo relata que o próximo passo é mostrar para a sociedade que o movimento negro pretende discutir as questões mais estruturais da sociedade.

“Nossa preocupação é com as periferias. Queremos valorizar o que tem de bom nesses espaços, como rodas de capoeira etc. Existem motivos para se levantar uma estátua e motivos para derrubar. Não é possível apagar a história, está na nossa carne. A ideia é construir uma história melhor daqui para frente”, ressalta.

“Vi jornalista falando ‘na Alemanha tem o Museu do Holocausto’. Mas lá não tem uma estátua de Hitler de 13 metros. E, se tivesse e o povo alemão fosse lá, atear fogo em pneu no pé da estátua, teria alguém para dizer que eles estão errados? Quando é preto e índio não pode”, finaliza o ativista.

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