ÁFRICA & DIáSPORA / Quarta, 01 Dezembro 2021 14:23

Ômicron: variante evidencia desigualdade vacinal no continente africano

Dados da Organização Mundial da Saúde mostram que apenas três em cada 100 pessoas estão vacinadas no território africano; virologista camaronês destaca o monopólio dos países do hemisfério norte aos imunizantes disponíveis

Texto: Caroline Nunes | Edição: Nadine Nascimento | Imagem: Reprodução/ONU

Introdução:

Dados da Organização Mundial da Saúde mostram que apenas três em cada 100 pessoas estão vacinadas no território africano; virologista camaronês destaca o monopólio dos países do hemisfério norte aos imunizantes disponíveis

Texto: Caroline Nunes | Edição: Nadine Nascimento | Imagem: Reprodução/ONU

Com a nova variante da Covid-19, Ômicron, que atinge a população da África do Sul e adjacências, ficou mais evidente a desigualdade vacinal no continente africano. Em março deste ano, o diretor e virologista camaronês John Nkengasong abordou o tema em um pronunciamento oficial dos Centros Africanos para Controle e Prevenção de Doenças. Segundo ele, a Europa e os Estados Unidos pretendiam monopolizar o acesso às vacinas disponíveis. “Acabarão com as vacinas, imporão restrições às viagens e então a África se tornará o continente da Covid-19”, destacou Nkengasong, na ocasião.

No Brasil, a deputada estadual Erica Malunguinho (PSOL) ressaltou o quanto essa desigualdade se intensifica a partir da variante Ômicron, e que é necessário tomar medidas eficazes para impedir que a situação de saúde na África piore. Segundo uma postagem da parlamentar, a nova cepa Ômicron já leva diversos países, inclusive o Brasil, a fechar fronteiras para passageiros que chegam de Botsuana, Eswatini, Lesoto, Namíbia e Zimbábue, além da própria África do Sul.

“A medida vai contra as regulamentações firmadas pelo G20, em reunião realizada em Roma, no ano passado. A questão fica ainda mais delicada quando se tem notícias da nova variante Ômicron ter infectados em países europeus, por exemplo, sem que os mesmos sofram qualquer impedimento no tráfego internacional”, destaca Malunguinho.

A deputada ainda aponta informações que o diretor John Nkengasong havia previsto há meses: enquanto a maior parte dos países do hemisfério norte tem altos índices de doses aplicadas, na África e em outras regiões mais pobres a proporção de vacinados chega a uma dose da vacina para cerca de 100 pessoas. “O tamanho da ofensa aos direitos humanos é sem tamanho”, aponta.

“Não houve cooperação para que a grave situação pandêmica fosse minimamente amenizada na região. Essa é a igualdade que pregam neste novo mundo? O racismo dá as caras nas entrelinhas, mais uma vez”, finaliza a parlamentar.

Os dados mais recentes da Organização Mundial da Saúde (OMS) mostram que apenas três em cada 100 pessoas foram completamente vacinadas contra a Covid-19 nos países mais pobres do planeta, apesar de que vacinas seguras e eficazes já existem há quase um ano. Na África, o número de vacinados é de 7%, embora haja países em que a taxa de vacinação está muito baixa, como Burundi (0,0025%), República Democrática do Congo (0,06%) e Chade (0,42%). Com isso, o vírus não para de sofrer mutações, segundo a OMS.

Em entrevista à Alma Preta Jornalismo, a presidente do Congresso de Epidemiologia Lígia Kerr pondera que mesmo a África do Sul, que tem o percentual de vacinados mais elevado do continente (cerca de 25%), foi abandonada pelos países mais ricos no quesito vacina, bem como os outros países do continente africano.

“Compraram mais vacinas do que precisavam, deixando esses outros países com baixa quantidade de imunizante e baixo percentual de imunizados. Então isso contribui para as variantes”, avalia.

Para minimizar essa desigualdade, na última segunda- feira (29), o presidente da China, Xi Jinping, disse que país oferecerá mais 1 bilhão de doses de vacinas contra a Covid-19 a países africanos e incentivará empresas chinesas a investirem cerca de US$ 10 bilhões na África nos próximos três anos. A promessa de doses adicionais da vacina foi feita durante um discurso na abertura do Fórum de Cooperação China-África.

Variante Ômicron

Na semana passada, a OMS classificou a B.1.1.529 como variante de preocupação e escolheu o nome 'Ômicron' para denominar a nova cepa da Covid-19. Com essa classificação, a variante foi colocada no mesmo grupo de versões do coronavírus que já causaram impacto na progressão da pandemia: alfa, beta, gama e delta.

A professora de Biomedicina da Estácio de Sá e doutora em Ciências, Maíra de Assis Lima, explica que a Ômicron é considerada preocupante pelas diversas mutações que apresenta, sendo mais de 30 na proteína 'spike', que é a porta que o vírus usa para entrar nas células e que é o alvo da maioria das vacinas contra a Covid-19.

“Todo vírus precisa de uma chave de acesso para o nosso organismo. Com essas mutações, os cientistas estão tentando descobrir se esse vírus se tornaria mais fácil de infectar outras pessoas ou se indivíduos que já tiveram a Covid-19 se infectariam mais facilmente por essa variante”, explica a doutora.

A OMS também destaca que a Ômicron já está presente no mundo todo, pois todos os continentes já registraram casos da variante. No entanto, até o momento, não há registros de mortes ligadas à nova cepa.

Lígia Kerr explica quais são as principais diferenças entre a Ômicron e as demais cepas da doença. “Essa variante tem cerca de 32 mutações na espícula do vírus, que é por onde ele consegue entrar nas nossas células, o que aumenta a chance de contágio”, destaca.

“O que deve acontecer, e o que a gente já espera, é uma queda das vacinas em relação à efetividade, principalmente nos países da África, locais em que a população ainda não está imunizada. Ainda estamos tentando descobrir mais sobre a Ômicron”, pontua Lígia Kerr.

Efetividade dos imunizantes

O Brasil já registrou dois casos de Ômicron até o momento: um homem de 41 anos e uma mulher de 37, provenientes da África do Sul. Ambos tiveram resultado positivo em exames de PCR coletados no laboratório instalado no Aeroporto Internacional de Guarulhos antes de viagem à África do Sul.

No entanto, Lígia Kerr destaca que as vacinas brasileiras têm sido efetivas contra a Covid-19. Ela salienta que no caso da variante mais agressiva, a delta, por exemplo, os imunizantes têm a efetividade reduzida, mas que ainda é necessário mais estudos para saber como as vacinas se comportam no organismo das pessoas infectadas pela Ômicron.

“Para os idosos, nós estamos dando a terceira dose da vacina, ou seja, a imunidade deles com certeza estará melhor”, destaca.

Segundo a doutora Maíra, é importante lembrar que a imunização no Brasil representou uma queda no número de hospitalizações e casos graves da Covid-19 em todo o país. Portanto, segundo ela, é essencial que as pessoas que desejam viajar para fora do país se certifiquem que o imunizante recebido no Brasil é aceito em outras regiões do mundo.

Festas podem ser canceladas devido à Ômicron

Após o anúncio da presença da nova variante no Brasil, a Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) divulgou uma nota em apoio ao Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass) e ao Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde (Conasems) quanto à manifestação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que trata da exigência de certificado de vacinação contra Covid-19 para a entrada de viajantes no Brasil.

“Junto com as demais medidas sanitárias, em particular a possibilidade de cancelamento do carnaval de 2022 como já apontado por prefeituras e governos, a imposição de tais restrições em momentos de maior circulação de pessoas é uma estratégia importante para reduzir a disseminação do SARS-CoV-2, bem como tentar impedir a introdução de novas variantes do vírus, como a Ômicron”, diz o informe.

A Abrasco ainda afirma convoca governos municipais e estaduais a avaliarem a realização e a liberação de festas públicas de grandes aglomerações de pessoas e manifesta sua preocupação com uma deterioração do cenário pandêmico no Brasil.

Para a doutora Maíra de Assis, apesar do alto percentual de vacinados no Brasil, que tem 76,7% da população com ao menos uma dose e 62,7% das pessoas com ciclo vacinal completo, segundo o Ministério da Saúde, o recomendável é realmente evitar aglomerações até que pelo menos mais estudos sobre a variante Ômicron sejam disponibilizados.

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“No entanto, é importante também um controle na circulação de pessoas, principalmente no transporte público, até por que fica difícil proibir eventos grandes sendo que o ano inteiro as pessoas se aglomeram nesses locais”, avalia.

A presidente do Congresso de Epidemiologia, Lígia Kerr, reafirma que os protocolos de saúde devem continuar em vigor para prevenir a contaminação pela Ômicron. Segundo ela, o distanciamento físico, máscaras, álcool em gel e, principalmente, a vacinação são necessários para que o mundo possa - de uma vez por todas - se livrar da pandemia de Covid-19.

“Os países que abandonaram os protocolos e não aderiram à vacinação, pois existe essa parcela, apresentaram aumento da infecção pelo vírus. Isso é algo que temos que vencer aqui [no Brasil]. As vacinas são seguras, importantes, reduzem o risco e essas medidas continuam, mais do que nunca, importantes”, finaliza.

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