ÁFRICA & DIáSPORA / Quinta, 28 Outubro 2021 16:06

Guerra na Etiópia gera crise econômica e humanitária

Os conflitos no norte do país etíope e os bloqueios à ajuda de organizações internacionais na região faz com que a população seja submetida à fome e às violações de direitos humanos; embaixada no Brasil foi fechada

Texto: Fernanda Rosário | Edição: Nadine Nascimento | Imagem: Lars Oberhaus/ Fotos Públicas

Foto de pessoas em estrada na Etiópia.
Introdução:

Os conflitos no norte do país etíope e os bloqueios à ajuda de organizações internacionais na região faz com que a população seja submetida à fome e às violações de direitos humanos; embaixada no Brasil foi fechada

Texto: Fernanda Rosário | Edição: Nadine Nascimento | Imagem: Lars Oberhaus/ Fotos Públicas

Há quase um ano, a Etiópia vive uma guerra que repercute em todos os âmbitos do país, desde consequências para sua população até às suas relações externas. A nação africana decidiu fechar diversas missões diplomáticas no exterior e cerca de 30 embaixadas em diversos países, por conta da crise econômica que enfrenta. No Brasil, a embaixada em Brasília teve suas atividades suspensas no último dia 8 de outubro.

Segundo a etíope e analista de conflito, Danait Tafere, o maior motivo desses fechamentos de missões diplomáticas é porque os fundos que foram usados para financiar as embaixadas em todo o mundo agora estão sendo utilizados para financiar a guerra em Tigré, no norte da Etiópia.

“Eles não podem mais pagar os salários dos funcionários. O governo etíope também realocou internamente parte do financiamento das escolas públicas para a guerra, bem como reduziu os salários de todos os funcionários do governo para financiar o conflito em Tigré”, explica a analista.

Além disso, de acordo com Mohammed Nadir, professor visitante de relações internacionais e Oriente Médio na Universidade Federal do ABC (UFABC), uma das razões também é política. “Alguns países se posicionaram a favor de declarar sanções à Etiópia por causa do conflito em Tigré, então, o país retaliou retirando suas embaixadas. Por outro lado, em outros países, a decisão era mais por questões econômicas do que políticas”, completa.

De acordo com Danait Tafere, os fechamentos prejudicam os relacionamentos do país etíope que foram desenvolvidos com várias nações nos últimos 27 anos sob a liderança anterior. Além disso, também há a suspensão do movimento de cidadãos que viajam e fazem negócios nessas nações. Os serviços de aconselhamento, como a emissão de vistos e outras parcerias políticas e econômicas, foram interrompidos por causa das decisões políticas em torno do uso do dinheiro no país.

O Brasil e a Etiópia completaram este ano uma relação diplomática de 70 anos. De acordo com Alfa Oumar Diallo, professor e pesquisador da Faculdade de Direito e Relações Internacionais da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD), os dois países reforçaram suas relações diplomáticas com a assinatura de diversos acordos em 2013 e, em maio de 2021, aprofundaram suas relações na área da cooperação econômica.

Diante disso, em entrevista para a Alma Preta Jornalismo, o Ministério de Relações Exteriores do Brasil informou que o fechamento da embaixada etíope não prejudica as relações diplomáticas estabelecidas entre os dois países. Em nota, o Itamaraty diz que “os temas da relação bilateral com o Brasil passaram a ser acompanhados por funcionários do governo etíope residentes em Adis Abeba”, capital da Etiópia.

A Alma Preta Jornalismo também questionou as autoridades etíopes sobre o motivo do fechamento da embaixada no Brasil, mas até o fechamento desta matéria não obteve retorno.

Bloqueios à ajuda humanitária internacional

Segundo alerta da Organização das Nações Unidas (ONU), a crise humanitária no norte da Etiópia piora a cada dia. No início de outubro (6), o secretário-geral da ONU, António Guterres exigiu, diante do Conselho de Segurança, que autoridades do país etíope permitam um livre acesso de ajuda humanitária à região.

O discurso aconteceu após o governo da Etiópia anunciar, no final de setembro, a expulsão de sete funcionários de alto cargo de agências da organização por motivo de interferência em assuntos internos do país, segundo comunicado do Ministério das Relações Exteriores etíope.

Entre os que tiveram que abandonar a Etiópia dentro de 72 horas, estavam Adele Khodr, representante do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) na Etiópia, Kwesi Sansculotte, conselheiro de paz e desenvolvimento no Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, além de Marcy Vigoda, chefe do Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA).

Também em comunicado divulgado em rede social, o Ministério das Relações Exteriores da Etiópia acusa a equipe da ONU, expulsa do país, de falhar no cumprimento de sua missão de forma independente e imparcial. Algumas das violações apontadas pelo Ministério no comunicado, foi de “disseminar desinformação e politizar a assistência humanitária”, além de “desviar assistência humanitária para a TPLF (sigla em inglês para a Frente de Libertação do Povo do Tigré, grupo considerado rebelde pelo governo central e envolvido no conflito que ocorre na província etiópe ao norte do país, em guerra desde novembro de 2020)”.

Segundo Danait Tafere, o governo etíope expulsou funcionários da ONU sem motivo ou evidência. “No momento, a ajuda internacional é a única maneira pela qual alimentos e remédios que salvam vidas estão entrando em Tigré. Este bloqueio é uma estratégia militar para matar ainda mais de fome o povo da região”, completa a analista de conflitos.

Em informações divulgadas pela ONU, para o secretário-geral António Guterres, com a expulsão dos funcionários, a Etiópia viola o direito internacional e corre o risco de abrir também um precedente para que outros países façam o mesmo.

O porta-voz da TPLF, Getachew Reda publicou um comunicado do Governo de Tigré condenando a expulsão dos funcionários da ONU da Etiópia e a criminalização do trabalho humanitário internacional no país como um ataque à soberania do governo central.

“Esses instrumentos como a ONU, Anistia Internacional, Cruz Vermelha e Médicos sem Fronteiras são importantes, principalmente, quando o governo tenta esconder o que está acontecendo, que é o caso do governo da Etiópia”, relata Alexandre dos Santos, professor de África no Instituto de Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio).

Norte da Etiópia em guerra

Mapa Etiópia

Localização da Etiópia no continente africano | Crédito: Maps Ethiopia

A Etiópia é a segunda nação mais populosa do continente africano e a oitava maior economia da África. O país faz parte da região chamada Chifre na África e faz fronteira com o Djibouti e a Eritreia ao norte, o Sudão e o Sudão do Sul a oeste, com o Quênia ao sul e com a Somália a leste. Em sua capital, Adis Abeba, abriga a sede da União Africana (UA) e da Comissão Econômica das Nações Unidas para a África (UNECA).

Tigré é uma das dez regiões administrativas da Etiópia e sofre com diversas tensões entre grupos étnicos internos e externos. Há uma crise, desde novembro de 2020, entre o governo central e as autoridades regionais da província de Tigré, reunidos por meio da TPLF e que reivindicam uma maior autonomia.

“Já são relações tensas que se tornam mais tensas por conta do afluxo de refugiados causado pelo conflito na região do Tigré, no Norte”, completa o professor Alexandre dos Santos.

A guerra começou quando o primeiro-ministro Abiy Ahmed (ganhador do Prêmio Nobel da Paz de 2019 por colocar fim ao conflito de 20 anos entre Etiópia e Eritreia) lançou uma operação militar contra a TPFL como resultado ao ataque a uma base militar federal. No final de junho deste ano, o governo do país anunciou um cessar-fogo unilateral, mas forças etíopes da etnia amhara, que lutou como aliada do governo central, permaneceu, pensando também em recuperar áreas sobre as quais reivindicam direitos históricos. Assim, o conflito se disseminou pelas regiões vizinhas de Amhara e Afar.

Primeiro ministro Etiópia

Abiy Ahmed, primeiro-ministro da Etiópia | Crédito: Nobel Prize/ Fotos Públicas

De acordo com a analista de conflitos Danait Tafere, que morava em Tigré alguns meses antes do início da guerra, os efeitos do conflito estão em todos os níveis, financeiro, espiritual, emocional e psicológico.

“Como em qualquer conflito, quem paga o preço são sempre os mais vulneráveis. O estupro foi usado como arma de guerra e foi ordenado por militares. As mulheres relataram que os soldados que as estavam atacando disseram que eles estavam ali para garantir que nenhum Tigré nascesse. Os soldados também realizaram esterilização forçada usando ferros de metal quente e suas armas”, relata.

Um relatório divulgado este ano pela Anistia Internacional revela como centenas de mulheres e meninas foram violentadas e submetidas à escravidão sexual por etíopes e eritreus, que são aliados ao governo do primeiro-ministro Abiy Ahmed.

A fome, traumas psicológicos e o bloqueio à ajuda humanitária têm gerado um saldo de mortes e deslocamentos forçados. Segundo a ONU, desde novembro, mais de 400 mil pessoas enfrentam a fome na região de Tigré devido à guerra. Ao menos 5,2 milhões de pessoas necessitam de ajuda humanitária no local. Além disso, de acordo com números oficiais, milhares de pessoas morreram e cerca de dois milhões foram deslocadas dentro da região em conflito.

“Agora as mães estão vendo seus filhos morrerem por falta de alimentos e nutrientes. As mulheres Tigray no resto da Etiópia também estão passando por traumas psicológicos porque a comunicação com Tigray foi bloqueada desde o início da guerra e elas não conseguiram acessar suas famílias na região. Economicamente, em todo o país, o custo de vida triplicou desde o início da guerra e mães, idosos e crianças pobres são os primeiros a sofrer”, finaliza Danait Tafere.

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