ÁFRICA & DIáSPORA / Quarta, 25 Mai 2022 09:53

Dia da África: “continente ganhou o direito de se organizar e pensar”

A data, que é reconhecida pela ONU e pela União Africana, é a ocasião na qual reflete-se a emancipação, defesa e importância da independência dos africanos em relação aos colonizadores europeus; especialistas avaliam relação do Brasil com o continente

Texto: Caroline Nunes | Edição: Nadine Nascimento | Imagem: Bruno Feder

Introdução:

A data, que é reconhecida pela ONU e pela União Africana, é a ocasião na qual reflete-se a emancipação, defesa e importância da independência dos africanos em relação aos colonizadores europeus; especialistas avaliam relação do Brasil com o continente

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Texto: Caroline Nunes | Edição: Nadine Nascimento | Imagem: Bruno Feder

Foi em 25 de maio de 1963 que 32 chefes de estado africanos se reuniram em Addis Abeba, na Etiópia, para defender e emancipar o continente africano, libertando-o do colonialismo europeu e do apartheid. “A Organização das Nações Unidas [ONU] então estabeleceu a data, em 1972, como o Dia da África ou como o Dia da Libertação da África”, explica o professor de Direitos Humanos da Estácio São Paulo, Douglas Galiazzo.

Os líderes, presentes na ocasião em 1963, assinaram uma carta de fundação da OUA (Organização de Unidade Africana) contra a divisão da África entre os europeus, definida pela Conferência de Berlim, entre os anos de 1884 e 1885, que dava aos europeus o direito às riquezas humanas e naturais do continente.

“A Conferência de Berlim foi o principal movimento de países europeus, aliados aos Estados Unidos, de fragmentação e dominação do continente africano. Esses países decidiram entre eles que a África seria loteada, e que esse loteamento significava que os países presentes em Berlim dominariam a África. O encontro de líderes africanos em 1963, portanto, foi uma contra-ação colonial”, explica o sociólogo Tadeu Augusto Matheus, que é mestre e doutorando em Mudança Social e Participação Política pela Universidade de São Paulo (USP).

Ao notar a importância dessa união, em 1972 a Organização das Nações Unidas (ONU) instituiu o Dia da África. A data também representa um profundo significado da memória coletiva dos povos do continente e a demonstração de objetivo comum de unidade e solidariedade dos africanos na luta pelo desenvolvimento econômico da região.

No entanto, a OUA foi incapaz de resolver os conflitos surgidos continuamente, pois os indicadores econômicos ainda não eram animadores, e em várias partes da África ocorriam golpes de Estado e guerras civis.

Assim, no dia 12 de Julho de 2002, o último presidente da OUA, o sul-africano, Thabo Mbeki, proclamou solenemente o fim da Organização de Unidade Africana e o nascimento da União Africana (UA), com foco ainda em superar os desafios que o continente enfrenta até hoje.

O sociólogo Tadeu Matheus enfatiza que a data, mesmo nos dias atuais, representa autonomia para os povos africanos. “Significa dizer que a África, a partir de 1963, ganha o direito de se organizar e, sobretudo, de pensar. É um grande marco”, comenta.

Ele avalia ainda que o encontro promovido pelas lideranças africanas trouxe ao povo – e celebra até hoje – a esperança de criação de mecanismos de libertação europeia e desenvolvimento político e social do continente.

“A África é rica, mas sua população é pobre”

“Esta data representa a resistência, memória, a luta de um povo que enfrenta diariamente a discriminação, o racismo, e a intolerância de uma sociedade que jura não existir racismo, mas que as falas, comportamentos, gestos dizem o contrário”, pontua o professor Douglas Galiazzo.

O que o educador salienta condiz com a vivência do advogado e pós-graduando em Direito Penal, Ibrahim Arolu. Nascido no Brasil e levado para a Nigéria muito pequeno, o advogado retorna ao estado de São Paulo já na idade adulta em busca de melhores condições de vida.

Ibrahim afirma que o povo africano é ambicioso e trabalhador, mas que enquanto estava na Nigéria, não conseguia vislumbrar um futuro promissor devido às desigualdades sociais entre negros e brancos no país. Ele conta que o Dia da África, no continente africano, é uma forma que os brancos dominadores encontraram de romantizar o abuso que cometem contra os povos africanos.

“Na África ainda existe o pensamento de que os brancos são melhores e que nós, negros, somos pessoas de segunda classe. Então, a população geral da África não comemora essa data, pois as pessoas estão preocupadas em sobreviver. As pessoas do continente africano sobrevivem, mas não vivem. A África é rica, mas sua população é pobre”, lamenta o jurista.

O advogado Ibrahim Arolu, pós-graduando em Direito Penal, que retornou da Nigéria em busca de crescimento profissional | Créditos: Acervo PessoalO advogado Ibrahim Arolu, pós-graduando em Direito Penal, que retornou da Nigéria em busca de crescimento profissional | Créditos: Acervo Pessoal

O advogado complementa dizendo que o Estado pratica um terrorismo com os cidadãos da África, colocando essas pessoas em situações sub-humanas de sobrevivência, o que obriga – quem consegue – a deixar sua terra natal em busca de um pouco de dignidade.

“O que é terrorismo de Estado? É quando o líder do povo se torna aquele que o aterroriza. A população africana está focada em sobreviver a isso. Então, apesar de tudo, essa data hoje em dia não significa nada”.

“A maior parte da nossa história já foi assolada pelos colonizadores, que nos roubaram. O pouco que restou na África, os governantes estão preocupados em roubar, em tomar, e fazer negócios ilegais em vez de nos educar e reconstruir os países”, desabafa o jurista.

Ancestralidade e similaridade

“Como diz Lélia Gonzalez, ‘a cultura brasileira é uma cultura negra por excelência’. Há traços de DNA negro-africano em tudo no Brasil. A cultura se diz no sentido amplo da palavra, até mesmo na linguística, como Lélia bem afirma, é o nosso ‘pretoguês’, que não se fala em nenhum outro lugar do mundo”, destaca o sociólogo Tadeu Matheus.

Para o professor Douglas Galiazzo, o Dia da África é uma data para a população negra brasileira afirmar o seu protagonismo nas constantes denúncias contra o racismo e a xenofobia. Ele destaca que o Brasil é o país com o maior número de negros depois do continente africano, povos que têm há tempos em um combate acirrado contra a relação histórica do racismo estrutural que, segundo ele, promove cotidianamente situações vexatórias em todos os setores da sociedade.

“Junto aos africanos que vivem no Brasil, os negros brasileiros são vítimas da hierarquização entre brancos e não-brancos. Então, reconhecer que existem desigualdades raciais e combatê-las é lutar contra o racismo. Para isso, é necessário que esta data seja incorporada não apenas para a população negra brasileira, mas para todos os brasileiros a fim de se conhecer a história de África, a importância da libertação do povo africano contra o colonialismo e o apartheid”, pondera.

O professor de Direitos Humanos pontua que as Comunidades Tradicionais de Terreiro são verdadeiros quilombos de resistência, e fazem a manutenção da história, da memória e do legado dos povos africanos através da religiosidade. Para ele, o legado ancestral é preservado em sua essência, que passa pelos idiomas falados pelos povos Bantu, Yorubá e Jeje, línguas que compõem o português falado no Brasil.

“Foram preservados cânticos, danças, filosofia e os conceitos civilizatórios de povos africanos, medicina tradicional, ritualísticas, entre outras riquezas. As comunidades tradicionais de terreiro mantêm a filosofia de que ancestralidade é um movimento onde o ancestral é antepassado e o futuro também é ancestral”, avalia.

Tadeu Matheus, por sua vez, destaca que é imprescindível que o povo brasileiro passe a enxergar a África como ela realmente é: potente e rica, mas que ainda passa por processo de exploração.

“Nós, pretos e pretas, precisamos compreender o que é África, a partir de políticas de educação, que nos dá muito empoderamento. Com essas informações, cabe a nós celebrar essa data de maneira mais potente no Brasil. Somos os maiores acolhedores da diáspora africana. É necessário compreender todo o contexto desse continente na nossa consituição enquanto brasileiros”, enfatiza.

Ibrahim Arolu afirma que uma das similaridades entre o Brasil e a África está atrelada à escravização de pessoas e o quanto o Estado pode ser cruel com aqueles que têm menos poder. “Assim como o Brasil, o continente africano tem muito a oferecer. O que precisa ser eliminado é a forma que os nossos representantes administram ambos os países”.

Eleições presidenciais e o estreitamento de relações com África

“Os laços entre Brasil e África nos últimos anos foram apenas os que fortaleceram a ida de missionários religiosos ao continente, com a finalidade de exploração da fé. Os avanços feitos anteriormente foram perdidos em quase sua totalidade”, ressalta o professor Douglas Galiazzo.

Tadeu Matheus salienta que as eleições presidenciais de 2022 podem significar o estreitamento das relações com o continente africano, o que, segundo ele, seria interessante para ambas as partes. Nos governos progressistas anteriores – referindo-se à gestão Lula e Dilma (PT) – o sociólogo relembra que o plano de governo visava uma relação mais próxima e econômica com África. De 2016 para cá, com o impeachment de Dilma e, principalmente, com a gestão neoliberal de Jair Bolsonaro (PL), o plano se desmontou.

“Bolsonaro nega o processo de desenvolvimento econômico e a força do trabalho dos povos africanos. Essa negação vem principalmente porque eles [neoliberais] são todos filhos, herdeiros dos colonizadores, dos bandeirantes”, comenta.

“Quando existe a possibilidade de permanência de um governo neoliberal, de extrema-direita, se tem a continuidade da incapacidade de compreender a importância de uma relação comercial, econômica e cultural com o continente mais rico, que é a África, não é Europa”, completa Tadeu.

Para o sociólogo, as eleições, portanto, significam a possibilidade de restabelecer a conexão com o continente africano. Já o professor Douglas Galiazzo ressalta que essa retomada é de grande valia, pois não visa apenas interesses econômicos e tecnológicos, e, sim, abrange uma perspectiva humanitária.

“A intervenção brasileira nesses países não buscou apenas abrir frentes para diplomacia, mas também voltou os olhares para programas sociais, culturais e educacionais em nome do combate à pobreza e às epidemias”, finaliza.

Leia também: ‘Dos 90 diplomatas brasileiros em África, apenas um é negro’

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