ÁFRICA & DIáSPORA / Sexta, 24 Junho 2022 15:48

África do Sul identifica primeiro caso de varíola dos macacos

Já são mais de 40 países com casos identificados da doença; alteração de nome estigmatizante do vírus também é discutida na OMS

Texto: Fernanda Rosário | Edição: Nadine Nascimento | Imagem: Reprodução/ Rádio Tapejara

Imagem mostra tubos de teste para varíola dos macacos.
Introdução:

Já são mais de 40 países com casos identificados da doença; alteração de nome estigmatizante do vírus também é discutida na OMS

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Texto: Fernanda Rosário | Edição: Nadine Nascimento | Imagem: Reprodução/ Rádio Tapejara

A África do Sul registrou o primeiro caso de varíola dos macacos no país na última quinta-feira (23). Já são 48 países com casos identificados da doença, sendo que cerca de 30 são em localidades em que a doença não é endêmica.

“O paciente é um homem de 30 anos de Joanesburgo sem antecedentes de viagem. Isso significa que a contaminação não ocorreu fora do país”, disse o ministro sul-africano da saúde, Joe Phaahla, de acordo com o Africanews.

As autoridades do país africano estão em busca das pessoas que tiveram recente contato com o paciente. Também está em discussão na Organização Mundial da Saúde (OMS) a alteração do nome estigmatizante do vírus, considerado discriminatório por muitos especialistas, sobretudo africanos. 

Há riscos de uma nova pandemia acontecer?

A Organização Mundial da Saúde (OMS) avalia nesta semana se vão declarar o surto de propagação do vírus como uma emergência em saúde pública de interesse internacional, a exemplo da Covid-19 e da poliomielite. Caso seja declarada como emergência global, a OMS deverá recomendar ações de prevenção e redução de propagação do vírus.

Apesar da doença causar sintomas leves na grande parte dos casos, a disseminação fora de países africanos em que o vírus é endêmico tem sido considerada incomum e preocupante para especialistas. A biomédica Mellanie Fontes-Dutra comenta que existem estudos trazendo a hipótese de que esse vírus possa estar circulando em países cuja circulação é não-endêmica há algum tempo.

“Isso pode nos ajudar a entender quanto ao número de mutações adquiridas pelo atual vírus circulante. Ainda, com o aumento da população suscetível a esse vírus e o aumento da mobilidade, o vírus pode ter se beneficiado de determinadas redes de contato para essa transmissão atual, algo que precisa ainda ser melhor investigado”, explica a biomédica.

De acordo com o médico, escritor e divulgador científico Adriano Vendimiatti Cardoso, na realidade, nós já estamos enfrentando, pela definição, uma pandemia da varíola do macaco. “A definição de pandemia é uma doença que está espalhada pelo mundo todo com vários casos e sem conseguirmos ter um controle da transmissão desses casos. Está demorando para termos o anúncio, mas já é pandemia”, explica o médico.

Ainda segundo o divulgador científico, a contaminação global pela varíola dos macacos é diferente da experiência com a Covid-19, que é uma doença muito mais contagiosa, de transmissão aérea e com um grau de letalidade mais elevado.

O epicentro das contaminações tem sido a Europa - com mais de 80% dos casos - mas outros países do mundo estão identificando a doença desde o início do surto em maio. Já são mais de 3 mil casos em países onde o vírus não é endêmico, com nenhuma morte detectada nessas localidades.

Também no Brasil foi confirmada transmissão comunitária do vírus nesta quinta-feira. São ao menos 16 casos confirmados da doença. São Paulo - com 10 casos no total - e Rio de Janeiro - com quatro casos - confirmaram cinco novos infectados sem histórico de viagem. Além deles, o Rio Grande do Sul é o outro estado com mais dois pacientes confirmados.

Surgimento da doença e seus sintomas

A varíola dos macacos é transmitida pelo monkeypox, um vírus que pertence ao gênero Orthopoxvirus e é considerado uma zoonose viral, sendo transmitido por animais. Recebeu esse nome porque foi descoberta pela primeira vez em macacos na Dinamarca em 1958, mas há suspeitas de que pequenos roedores das florestas tropicais africanas tenham originado a doença. O primeiro caso humano foi identificado em 1970, na República Democrática do Congo.

Os sintomas da doença são semelhantes aos observados em pessoas contaminadas pela varíola humana, erradicada em 1980, mas menos grave e devastadora. As reações são geralmente febre, inchaços dos gânglios linfáticos, dor no corpo, mal estar e erupções cutâneas. Segundo a OMS, o período de incubação da doença é de seis a 13 dias, mas pode variar de cinco a 21 dias.

De acordo com o médico Adriano Vendimiatti, o vírus pode ser transmitido por meio do contato físico, com indivíduos, animais e objetos contaminados, e também por gotículas de pessoas contaminadas, como em tosses, falas e respiração muito próximas.

“Então, é não ter contato com pessoas que estão doentes ou com suspeitas da doença. Não abraçar, beijar e apertar a mão. Ela não é uma doença sexual, mas se você tiver uma relação com alguém que está doente, vai pegar, porque só o contato pele a pele já pega”, explica.

A biomédica Mellanie Fontes-Dutra reforça que estamos diante de uma doença que, apesar de na maior parte das vezes causar infecções leves a moderadas, pode trazer risco de agravamento, portanto não deve ser subestimada.

“O vírus da COVID-19 e o vírus monkeypox são muito diferentes em vários aspectos, e comparações entre eles se tornam complexas, portanto. Acho importante não subestimar nenhuma das duas doenças causadas por esses vírus, pois, novamente: mesmo não tendo uma alta letalidade, um grande número de casos pode provocar aumento de hospitalizações, além dos riscos de exposição para a população”, explica Mellanie, também divulgadora científica pela “Rede Análise” e “Todos Pelas Vacinas”.

O médico  Adriano reforça que a lavagem das mãos, o uso de álcool em gel e máscara é fundamental para a proteção também contra a varíola dos macacos. Além disso, é essencial tomar cuidado sobretudo em banheiros públicos e sanitários. Pessoas idosas e com comorbidades também permanecem como um dos públicos mais vulneráveis à doença.

“Não é uma transmissão aérea que nem a Covid, mas o fato de você estar de máscara diminui muito o risco de transmissão. A vacina da varíola humana também protege contra a varíola de macaco. A doença é tão mais leve e a vacina pode trazer algumas reações que não compensa vacinar todo mundo com a vacina da varíola em larga escala nesse momento. Está em desenvolvimento algumas vacinas específicas”, comenta Adriano.

A OMS também desaconselhou a vacinação em massa, porque não há quantidade de imunizantes para todos atualmente. “As decisões sobre o uso de vacinas contra Smallpox ou Monkeypox devem ser baseadas em uma avaliação completa dos riscos e benefícios caso a caso”, disse o órgão em comunicado.

O tratamento oferecido hoje para a doença é por meio de remédios para alívio dos sintomas.

Nome do vírus é considerado estigmatizante para populações negras e africanas

Também está em discussão na OMS uma possível alteração do nome da doença - monkeypox, varíola dos macacos - por ser considerada estigmatizante. No início do mês, segundo a RFI (Rádio França Internacional), mais de 30 especialistas, sobretudo africanos, publicaram uma carta aberta em que exigem a mudança da nomenclatura “para que não seja discriminatória”. Muitos cientistas defendem que apenas o nome da nova cepa do vírus que circula - hMPXV - deveria ser utilizado, já que a nomenclatura atual implica em relacionar a doença a países africanos e sua população negra.

críticas realizadas por profissionais da saúde e cientistas também que indicam que a varíola dos macacos só assumiu relevância neste momento por ter atingido países brancos, mesmo que a doença tenha ressurgido em 2017 na Nigéria, após mais de 40 anos sem casos relatados.

“Em um país e em um mundo carregado ainda de preconceito racial, esse nome pode servir como combustível para piadas e para termos racistas. Porque a origem dessa doença, até o nosso conhecimento de agora é da África. É o tipo de coisa que pode trazer sofrimento para grupos de pessoas que não tem nada a ver com a situação, talvez para imigrantes africanos. Vale a pena mudar essa nomenclatura assim como a cepa indiana virou a Delta”, finaliza o médico Adriano Vendimiatti.

 Leia também: “Onda silenciosa” da Covid-19 é um alerta para comunidades quilombolas e indígenas

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