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Artigo discute importância do meio digital para a juventude negra; Juarez Xavier é coordenador do Núcleo Negro para Pesquisa e Extensão da UNESP, o NUPE

Texto: Profº Drº Juarez Xavier / Edição de Imagem: Solon Neto

Mídias radicais contra hegemônicas: Sociedades sem liberdade de informação provocam narrativas de oposição. Os sistemas políticos fechados cujos meios de comunicação se encontram tutelados pelos poderes políticos e econômicos estimulam a mídia radical. Segmentos sociais acêntricos sem acesso ao sistema de produção de conteúdo e à esfera pública articulam suas mídias, pautas e espaços de veiculação. No período em que proliferaram as ditaduras civil/militar na América Latina, sindicatos, organizações da sociedade civil, movimentos de jovens, indígenas, negros, mulheres e partidos políticos submetidos à clandestinidade editaram veículos, que suscitaram uma esfera pública acanhada, persistente e contribuíram com a redemocratização da região.

Plataformas analógicas, digitais, tradicionais e alternativas se revezam na disputa de narrativas com os órgãos oficiais. Elas formam, pela diversidade, tapeçarias de mídias radicais: suportes com diversas configurações [impressos, eletrônicos, digitais, analógicos, vestuários, danças populares, poemas, teatro de rua, penteados, bottons, pichações, cartazes, performances, discursos, piadas, ditados populares], mídias com sistemas complexos de comunicação [emissores, canais, conteúdos e públicas ativos] e reivindicações radicais [narrativas políticas sem isenção, neutralidade e imparcialidade e posicionado].

O arranjo dessas mídias depende do estado e do sistema de governo: clandestina [quando vige um sistema policial de repressão] e anarquista [em momentos de liberdade política]. O primeiro é vertical, espelhada na mídia bolchevique, que sustentou a ação política revolucionária na Rússia pré-revolucionária, em 1917. A segunda é horizontal, espelhada nos movimentos sociais que varreram o ano de 1968.

Imagem: Anistia Internacional – campanha Jovem Negro Vivo

O vetor da mídia radical é a oposição política, a aversão ao governo ou ao estado. Seu conteúdo confronta-se com o distribuído pelas mídias hegemônicas. As pessoas envolvidas nessa mídia compartilham leituras políticas e concordam com as estratégias de superação do estado/governo. Os recursos para assegurar a eficácia da ação estão submetidos ao controle dos proponentes dessa modalidade de mídia.

Essas condições afiançam à mídia radical capacidade de ação política autônoma e independente dos segmentos sociais dirigentes. Livres dos constrangimentos econômicos e políticos, essa mídia pode garantir a efetividade política de sua atuação.

As mídias digitais ampliaram as possibilidades de ação política das mídias radicais, alcançaram dimensões globais.

A política de universalização do acesso à rede mundial de computadores favoreceu a instauração dessas mídias. Os Pontos de Cultura [junções de articulação das redes e conexões na produção de informação] formaram ateliês de produção, com equipamentos e programas de códigos livres, estimularam as conexões entre os coletivos culturais [diversas linguagens, expressões e visões de mundo] e propiciaram mobilizações para a reivindicação de políticas públicas pontuais [focadas nos interesses de cada grupo] e universais [em atenção aos diversos grupos sociais mobilizados].

A capilaridade desses ateliês e as suas conexões pelo território ofereceram as bases técnicas e operacionais para a formação da infraestrutura de comunicação dos grupos acêntricos, a articulação do exoesqueleto de veiculação de conteúdo, a denúncia e as ações reversivas, aderentes às demandas dos grupos sociais mobilizados.

Esse exoesqueleto foi apropriado pela juventude negra, pobre e moradora da periferia, para as denúncias da violência que se abate sobre esse segmento. Ele deu base à formação do Fórum Nacional da Juventude Negra, promotora da Campanha Contra o Extermínio da Juventude Negra.

Juarez Texto 2 citaçao 1Mapa da violência e viés étnico-racial

Os dados sobre violência contra a juventude apontaram o caráter racial dos homicídios. O perfil das vítimas evidencia esse fenômeno: jovem, negro, morador na periferia das cidades [pequenas, médias e grandes], sem passagem pelo sistema penal e morto com armas de fogo. Esses homicídios se dão de forma generalizada no território, em linha ascendente nas regiões de concentração de população negra, e sem a identificação dos autores.

Segundo os dados, entre os anos de 2002 e 2010, com base no Sistema de Informações de Mortalidade, foram assassinados 272.422 afrodescendentes. Média de 30.269 por ano. Em 2010 foram 34.983. Nos estados de Alagoas, Espírito Santo, Paraíba, Pernambuco, Mato Grosso, Distrito Federal, Bahia e Pará, o número ultrapassou os 100 homicídios para cada 100 mil jovens negros. Em alguns estados, ocorrem 20 homicídios de jovens negros para cada jovem branco assassinado.

O alto índice de homicídios que atinge a população jovem e negra sinaliza a existência de focos extremos de violência racial, conforme análise dos estudos sobre o tema.

A tendência não se alterou no mapa da violência de 2015: “Mortes matadas por armas de fogo”. O documento aponta a perversidade crescente da seletividade racial dos homicídios. As taxas de brancos caíram entre 2003 (14,5%) e 2012 (11,8%). A taxa de negros cresceu 14,1%: de 24,9% para 28,5%. A vitimização negra no país duplicou: em 2003 era de 72,5%. Em 2012 foi de 142%: morrem 2,5 vezes mais negros que brancos vitimados por arma de fogo.

O fenômeno se encaixa nos critérios de noticiabilidade: magnitude, impacto social, perversidade crescente, foco em um grupo social específico vítima de racismo, segmento social em condições vulneráveis [jovens, pobres e moradores das periferias]. Não houve, porém, repercussão no maior jornal em circulação no país, na semana de divulgação do mapa da violência.

A divulgação e a repercussão ampliada dos dados foram feitas pela Coordenação do Fórum Nacional de Juventude Negra (FONAJUNE). Ela é o espaço de articulação, interação e aglutinação de grupos e organizações de juventude negra, interessados na ação política nacional.

O fórum é o centro das ações políticas de denúncia do extermínio da juventude negra. O foco das suas ações é a campanha contra a violência, o fenômeno mais significativo que atinge a população negra, sem a cobertura sistemática dos meios de comunicação hegemônicos.

A campanha nacional contra o extermínio objetiva dialogar com a sociedade, sobre as consequências históricas do racismo, e suas implicações nas condições de vida da juventude negra. O fenômeno culmina com a morte programada de milhares de jovens afrodescendentes, em todas as regiões do país, com o registro das violências de gênero, religiosas e todas as demais formas de discriminações correlatas, definidas pela Organização das Nações Unidas (ONU) para a Década do Afrodescendente.

Imagem: Logo oficial da Década do Afrodescendente – Organização das Nações Unidas.

A ação contra a morte de jovens afrodescendentes tem três décadas. Ela tomou corpo nacional nos anos de 1980, quando oCentro de Articulação de Populações Marginalizadas (Ceap) lançou a campanha “Não Matem Nossas Crianças”. A iniciativa repercutiu em âmbito internacional. Foram aprovadas Comissões Parlamentares de Inquérito (CPIs), para investigar o fenômeno e apontar mecanismos de superação. As mobilizações impulsionaram políticas públicas reversivas, nos períodos posteriores. No entanto, à época, a divulgação da campanha dependia da cobertura feita por órgãos de comunicação comerciais, com repercussão restrita. A esfera pública do debate era restrita à militância negra e segmentos democráticos próximos.

O Fórum Nacional de Juventude Negra articula-se apoiado nas redes sociais. Nas cidades e estados, os coletivos contam com dispositivos que permitem o acesso à rede mundial de computadores. Suas articulações se estendem para além das fronteiras nacionais. A campanha contra o extermínio é acompanhada por diversos núcleos espalhados pelo território virtual das redes sociais. As organizações trocam informações, dados, entrevistas, pesquisas e estratégias pelas vias digitais. Esses arranjos transformaram-se em pontos de cultura e difusão. São polos aglutinadores de coletivos culturais, como a Rede Nacional das Casas do Hip Hop, com diversas linguagens [música, dança, grafite, teatro], formas de organização [espaços tradicionais da cultura negra, partidos políticos, organizações culturais], segmentos sociais [estudantes, trabalhadores fabris, artistas] e objetivos políticos [movimentos negros, feministas, LGBTT, direitos humanos].

Dispostas de forma horizontal e disseminadas pelo território nacional, essas articulações reivindicam liberdade política nas cidades.

Elas são as bases de sustentação do exoesqueleto tecnológico para a produção de conteúdo, em diversas linguagens e plataformas. Seu sistema de articulação prescinde dos meios de comunicação social hegemônico. A campanha contra o extermínio mobiliza, debate, cria demandas institucionais, provoca a ação dos poderes institucionais [legislativo, judiciário e executivo] nas três esferas políticas [município, estado e federal], reivindica políticas públicas, denuncia a violência e duela com as formas correlatas de racismo.

O sistema de veiculação de conteúdo desenhado para campanha forma uma esfera pública radical [reivindica mudanças estruturais nas condições de vida da juventude negra], precária [contra hegemônica e subalterna], ativa [mobilizada e propositiva] e pública [articulada com os demais segmentos sociais interessados na superação da violência]. Ele é o ambiente de inovação de linguagem, formatos, plataformas e estratégias de ação política. Nos momentos agudos de conflitos específicos [contra o extermínio] e gerais [contra as políticas neoliberais de corte de direitos], sua capacidade de produção de conteúdo rompe o cerco da mídia empresarial e, ao pautar essa mídia, atinge a esfera pública de debate, com sua defesa do direito à vida.

Assim, a paisagem das organizações da juventude negra caracteriza-se pela apropriação dos dispositivos digitais, organizados em ateliês criativos, com conexão internas e externas e a constituição de um exoesqueleto de produção, distribuição e fruição de teor político no enfrentamento ao preconceito, à discriminação, ao racismo e ao extermínio da população negra, jovem, pobre e moradora das periferias brasileiras.

Considerações Finais

O extermínio de jovens negros, pobres e moradores das periferias dilaceram as famílias afrodescendentes. A execução dessa juventude desarticula o núcleo familiar, impede a possibilidade de mobilidade vertical e congela esse segmento social no porão da desigualdade, que caracteriza a sociedade brasileira, à despeito dos avanços dos últimos anos. A morte de jovens negros, fenômeno em escala ascendente, não tem a atenção requerida, pela gravidade da situação, dos veículos de informação. Os dados não repercutem nos meios de comunicação mercadológicos e hegemônicos na sociedade. Nesse vazio informativo articula-se o sistema de comunicação, baseado nos ateliês criativos da juventude negra, e nas conexões formadas por esses arranjos. Essas organizações apropriaram-se do exoesqueleto digital para a produção de conteúdo contra hegemônico.

A campanha contra o extermínio da juventude negra é veiculada pelo exoesqueleto digital, desafia a invisibilidade imposta pelos meios corporativos, rompe com o “cordão sanitário” montado pelas mídias do mercado, pauta o debate público entre os segmentos sociais envolvidos e formula políticas públicas reversivas. Pelas redes digitais, a juventude negra veicula informações e ações estratégias para o enfrentamento do preconceito, da discriminação, do racismo, desafia a omissão da mídia comercial, e aponta alternativa para a transposição do cenário de violência.

 

Texto: Mirts Sants / Edição de Imagem: Pedro Borges

Em pleno século XXI me angustia a ausência de imagens positivas da família negra e especialmente da mulher negra nas mídias, seja na publicidade, jornais, tv, e até mesmo nas redes sociais, em páginas que não tratam especificamente as questões raciais. Numa simples busca no banco de imagens do Google, quando digitamos a palavra "mãe", a ausência de imagens de mulheres não brancas com seus filhos é absurda, assim como quando digitamos a palavra "casamento". Não há casais negros, seja hétero normativo ou não. Isso nos confirma que, para a comunicação, as mulheres negras não estão relacionadas ao amor, à família, e muito menos à afetividade.

Bell Hooks, no seu texto traduzido "Vivendo de Amor", diz que "Muitas mulheres negras sentem que em suas vidas existe pouco ou nenhum amor. Essa é uma de nossas verdades privadas que raramente é discutida em público. Essa realidade é tão dolorosa que as mulheres negras raramente falam abertamente sobre isso".

Essa é a primeira imagem que aparece no Google quando se digita "família".

O amor por muitos séculos foi um direito negado na vida das mulheres negras, pois desde a escravização, seus corpos ainda jovens eram constantemente violados por seus senhores, enquanto que as relações com o homem negro escravizado eram proibidas. Durante o dia as mulheres estavam nos afazeres da casa grande, e os homens no trabalho pesado no campo. À noite, eram presos nas senzalas, o que dificultava qualquer manutenção de bases familiares.

Isso sem contar que o tráfico de escravos vendia mulheres e homens como mercadorias para diferentes donos, separando seus poucos laços afetivos. A relação com os filhos também eram frequentemente quebrada antes, durante e depois do seu nascimento, pois as mães negras, quando não eram forçadas a abortar seus filhos, frutos de estupros e relações indesejadas, deviam deixar de amamentá-los para assim alimentar os filhos das sinhás.

Jornal do MNU põe a afetividade como uma maneira de enfrentar o genocídio

Esse triste histórico nas relações humanas da constituição da "família negra" muito contribuíram para destruir a capacidade de  manter relações afetivas por parte das mulheres negras e seus iguais naquele período. Os reflexos disso podem ser sentidos ainda hoje.

As trocas de carícias por casais negros sofreram preconceitos por séculos, onde pessoas negras eram violentamente agredidas por simplesmente demostrar amor em público, situação comparada a como hoje são vistas as relações homo-afetivas. Nos anos 90, o Movimento Negro Unificado (MNU) lançou uma campanha intitulada “Reaja à violência racial: Beije sua preta em praça pública”. Ainda hoje as carícias entre pessoas negras não são vistas totalmente como uma relação “normal”.  Mesmo assim, muito se conquistou pelo direito da construção das subjetividades da família negra.

As mulheres negras sempre são vistas e muitas vezes até “parabenizadas” por sua força, resistência e luta, devido a sua "capacidade" de sobrevivência mesmo diante de todas as adversidades e condições sociais em que se encontram. Porém, essas diferenças não são sanadas e sequer dirimidas, assim como, seus corpos continuam a ser violentados e violados de diversas formas ora pelo estado, ora pela sociedade racista, machista e homofóbica.  

Daí nos perguntamos: porquê ainda mães/pais e crianças negras não estampam propagandas como a do dias das mães das grandes marcas do mercado? E quando aparecem, chegam a causar espanto pela raridade, assim como, por muitas vezes não serem consideradas belas o suficiente para serem capa de "revistas de pais e filhos". A exceção é quando a filha/o é adotivo de alguma famosa da novela.

Já quando falamos de violência, o corpo das mulheres negras se torna algo público. Somos violentadas sem despertar qualquer comoção nacional da sociedade, desde a violência doméstica, obstétrica, simbólica, assim como, a violência policial, cada vez mais frequente como foram nos casos da Mãe Cláudia Ferreira da Silva, baleada, arrastada e morta por um carro da polícia em 2013 no RJ e da irmã Luana Barbosa dos Reis Santos, covardemente agredida e morta pela policia de Ribeirão Preto-SP no mês passado. Isso sem contar os casos que na maioria das vezes não tomamos conhecimento, quando estes corpos são violados e ocultados, como se ninguém fosse reclamá-los.

O amor nos convida a ir para além da sobrevivência. Segundo Bell Hooks, precisamos "reconhecer a necessidade de conhecer o amor", seja pelos filhos/as, pelos pais, irmãos/as, companheiros/as e por toda a comunidade negra. Faz-se necessária a convivência negra em sua plenitude para que a afetividade através do amor e do respeito, nos cure das cicatrizes deixadas na alma pelas chibatas da escravidão e consequentemente pelo racismo cotidiano a que estão sujeitos mulheres, homens e crianças.

Quanto à ausência de representatividade positiva da família negra nas mídias ainda nos dias atuais, precisamos romper com essa invisibilidade da nossa imagem ligada ao afeto. Para tanto, antes de tudo, temos que radicalizar boicotando as marcas de produtos e bens de uso e consumo que não nos veem como consumidores de sequer um sabonete, assim como propõe a campanha #NãoMeVejoNãoCompro. Devemos também exigir nossa representação nas propagandas impressas e digitais, oficiais ou não, além de entupir as mídias sociais com imagens da nossa estética, beleza, cultura do nosso povo e do quanto somos carinhosos, afetuosos e sim capazes de amar, e amar nossa imagem e semelhanças, amar nossos filhos/as, companheiros/as.

Mirts Sants é formada em Direito e graduanda em Letras. É membro do Coletivo Negrada, do Movimento de Mulheres Negras Capixabas e integra a Executiva Nacional da Organização do EECUN.

Texto: Pedro Borges / Edição de Imagem: Pedro Borges

Sebastião Rodrigues Maia, o Tim Maia do Brasil, é até os dias de hoje um dos principais músicos brasileiros. Ele nasceu em 28 de setembro de 1942, na cidade do Rio de Janeiro, e faleceu em 15 de março de 1998, em Niterói.

Tim Maia foi cantor, compositor e produtor musical. Entre os seus grandes sucessos, estão as músicas Gostava Tanto de Você, Me dê Motivo, Azul da Cor do Mar, Ela Partiu, entre outras. O síndico do Brasil, como era conhecido, ganhou no dia 19 de junho de 2015 uma estátua em sua homenagem na Tijuca, bairro onde nasceu e cresceu.

Em 2007, Nelson Motta lançou o livro “Vale Tudo – O Som e a Fúria de Tim Maia”. Em outubro de 2014, a produção serviu como base para o filme “Tim Maia”, dirigido por Mauro Lima.

Acesse aqui:

http://lelivros.online/book/download-vale-tudo-nelson-motta-em-epub-mobi-e-pdf/#forward

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