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Texto: Michelli Oliveira e Nathália Costa / Imagem: Willian Oliveira

“Quem acredita em racismo inverso crê que há um racismo bom e ideal (o anti-negro) e um racismo mau (anti-branco)”. – Janaína Damaceno

Seu branquelo azedo se ponha no seu lugar! Será você já presenciou uma cena dessas? Um negro ofendendo um branco? Pode ser que você tenha vivenciado uma situação como essa ou parecida, ou que isso nunca tenha acontecido. O fato é que a partir de casos como esses, as pessoas não negras se apropriaram de tal situação ofensiva à sua etnia para criar o suposto racismo reverso/inverso, ou melhor, o racismo de negro contra branco. Nunca ouviu falar? Já ouviu e concorda? Portanto, na busca de desmistificar tal invenção absurda sobre essa problemática, proponho que mergulhe nesse texto para entender o porquê de mesmo que um negro ofenda um branco verbalmente isso nunca poderia ser chamado de racismo inverso.

Primeiramente, para falarmos sobre racismo inverso, devemos descobrir se houve na história da escravidão algum navio ”branqueiro”, cheio de escravos brancos que foram retirados à força de seu país e enviados em condições desumanas para países que se apropriaram de suas vidas e os transformaram em escravos. Será que isso realmente aconteceu? É óbvio que não.

Todos nós sabemos que o Brasil não foi descoberto e sim invadido, visto que existia aqui habitantes que cultivavam suas terras e com a chegada dos portugueses foram obrigados a ver sua cultura, religião e vida serem destruídas. Foram ‘catequizados’ e obrigados a aprenderem o idioma dos seus invasores.

Já não bastasse isso, os europeus viram que para crescerem economicamente precisavam de mão de obra e para isso resolveram ir até a África e trouxeram o máximo possível de africanos (reis, rainhas) de lá, para trabalharem de graça em terras roubadas.

Nisto, entramos na parte da história em que milhares de navios negreiros traziam desumanamente pessoas para o nosso país para serem escravas como já foi dito acima. Muitos morreram nas viagens em condições desumanas na qual eram submetidos, muitos morreram de tanto trabalhar, muitos morreram de fome, de dor, de cansaço e muitos outros tentando fugir de toda aquela desgraça.

Em 1888, a princesa Isabel, por motivos ainda duvidosos, como todos sabem declara o fim da escravidão. Entretanto, apesar de libertos esses povos sofreram e seus descendentes sofrem até hoje com toda essa barbárie á etnia negra. Pois apesar da suposta liberdade, a partir de 1888, os povos negros tiveram que iniciar uma constante luta para serem respeitados e reconhecidos como cidadãos, o que infelizmente nos dias de hoje, mesmo com algumas conquistas, ainda se faz necessária muita luta pela igualdade.

Temos hoje uma defasagem salarial enorme entre brancos e negros, onde os brancos ocupam cargos relativamente importantes e com salários bem mais altos. As melhores escolas quem tem acesso é a maioria não negra, nas universidades tanto professores quanto alunos em sua maioria são brancos. A elite é majoritariamente branca, consequentemente a mídia é ocupada por brancos. A representação do negro na mídia é minoritária e isso ocorre como podemos ver praticamente em todas as instancias. Porém, há locais que os negros ganham maior espaço, nos presídios brasileiros 67% da população carcerária são afrodescentes e 77% dos mortos no nosso país são jovens negros, entre 15 a 29 anos.

Foto: Willian Oliveira

Foto: Willian Oliveira

Devemos entender que racismo e preconceitos são conceitos distintos, mas que estão interligados. Diferente do que pensamos, não é o preconceito que impulsiona o racismo, mas é através do racismo que surgem diferentes tipos de preconceitos. O racismo é fruto um mito criado sobre a cor de pele negra na qual o fenótipo (conjunto de características físicas de uma pessoa) são os escolhidos para terem criado um ódio e características negativas à pessoas com concentração alta de melanina. Á essas pessoas foram atribuídas diversas características negativas (gente amaldiçoada, suja, violenta, cabelo duro e ruim e etc), sustentadas pelas elites sociais em todas as épocas da história da humanidade, que se inseriram e perpetuaram no imaginário social, mantidas até os dias atuais.

Ao contrário do racismo, como já vimos que é um fenômeno antinegro, o preconceito pode ter muitas vertentes, entre elas a própria questão racial, mas não só ela. Pode-se ter preconceito pela roupa de uma pessoa, o cabelo, o local onde mora, a orientação sexual, enfim uma quantidade infinita de tipos preconceitos.

Por isso, quando uma pessoa branca sofre algum tipo de agressão verbal relacionada à sua cor, ela não pode dizer que sofreu racismo reverso, porque o racismo é única e exclusivamente direcionado a pessoa negra. A pessoa branca nesse caso sofreu um preconceito, uma discriminação ou uma injúria racial que esta relacionada á ofensas contra a honra da vítima, independente de seu fenótipo. Racismo é um crime histórico que foi criado pelo ódio à etnia negra e que matou e continua a matar milhares de pessoas negras em todo o mundo.


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Professora Janaína Damaceno

Entrevistamos a professora da Uerj Janaína Damaceno, doutora em Antropologia Social (2013), com a tese “Os Segredos de Virgínia: Estudo de Atitudes Raciais em São Paulo (1945-1955)” sobre a psicanalista e socióloga Virgínia Leone Bicudo, primeira mulher negra no Brasil a realizar um trabalho de pós-graduação sobre a questão racial. Mestre em Educação (2008) e Bacharel em Filosofia (1999) pela Unicamp. Em 2014, participou das Jornadas Cinematográficas da Mulher Africana de Imagem em Burkina Faso e realizou pesquisas no Instituto Nacional de Audiovisual e Cinema (INAC) de Moçambique e na África do Sul. Desde novembro de 2013 é uma das coordenadoras do Fórum Itinerante de Cinema Negro (FICINE).
Para a professora Janaína Damaceno, acreditar que racismo reverso existe é acreditar que o racismo pode de alguma forma ser aceitável.

“Quem acredita em racismo inverso crê que há um racismo bom e ideal (o anti-negro) e um racismo mau (anti-branco). Ou seja, não vê o racismo como um mal em si. Acha o racismo anti-negro normal e natural. Acha que praticar o racismo ou viver numa sociedade racista é um direito e um privilégio adquirido inclusive para o seu prazer.”

Muitos debates estão acontecendo acerca do dito racismo reverso. O que seria o racismo reverso? Ele existe de fato?

O racismo inverso não é. Isso decorre de um entendimento limitado acerca das expressões racismo, preconceito e discriminação, como bem mostra o professor Kabengele Munanga. Um negro pode até ser preconceituoso em relação a um branco, o que normalmente é um caso isolado, mas isso não muda a estrutura racial brasileira. Brancos não deixarão de ter poder e privilégios por causa disso. Não retira nem o poder, nem os privilégios da branquitude, como mostra a pesquisadora Lia Schucman em sua tese. O racismo é uma questão estrutural que está veiculada diretamente ao princípio do poder, dos direitos e da regulação e exploração da vida e da morte. Quem acredita em racismo inverso crê que há um racismo bom e ideal (o anti-negro) e um racismo mau (anti-branco). Ou seja, não vê o racismo como um mal em si. Acha o racismo anti-negro normal e natural. Acha que praticar o racismo ou viver numa sociedade racista é um direito e um privilégio adquirido inclusive para o seu prazer. Ódio, violência e morte fazem parte desse repertório. Ódio contra os corpos que os racistas concebem como inferiores, contagiosos e impuros. Violência como forma de diversão e recreação; e morte como forma de extermínio negro. Não há racismo às avessas porque não existe uma estrutura que negue sistematicamente poder aos não negros.
Qual a diferença entre preconceito e discriminação?

O preconceito é como aprendemos na escola, uma ideia à priori que temos acerca das pessoas ou dos grupos sociais. Ele se desenvolve, principalmente, através de estereótipos sociais e de atitudes negativas em relação a determinadas pessoas ou grupos (mulheres, negros, pobres, idosos, indígenas, ciganos, pessoas doentes, etc). O preconceito racial é o aparato ideológico do racismo, e como ideologia, ele se manifesta como se fosse algo natural, não como algo ensinado e fabricado. Como ideologia, ele se manifesta sob o véu da invisibilidade. Daquilo que está à nossa frente, mas nunca conseguimos ver ou nomear. Como ideologia, ele não leva em conta os processos históricos, os dados lógicos ou os indicadores sociais e econômicos da nossa sociedade, ele se sustenta de sua própria má-fé ou ignorância. O preconceituoso sente-se confortável com as suas atitudes, que considera que sejam sempre as mais adequadas. Ele não tem peso de consciência. Ele está sempre certo. A discriminação também pode ser dirigida a distintos sujeitos e grupos sociais. A discriminação racial, no entanto, é dirigida num país estruturado racialmente como o nosso, normalmente, em direção ao negro. Discriminar seria o ato em si de ofender, humilhar, negar oportunidades no campo do trabalho e da educação, impedir o acesso de negros aos bens comuns da sociedade, como a saúde, à cultura, impedir acesso ao consumo, etc. Pode ser realizada por indivíduos ou por instituições como resultado do preconceito ou como resultado direto de interesses específicos de alguns grupos, como propõe Maria Aparecida Bento.
Como você vê o racismo no Brasil atual?

No Brasil, o racismo anti-negro é estrutural, ele não pode ser compreendido como um tipo de discriminação ou preconceito dentre outros. Sendo estrutural, o racismo agencia noções de poder e hierarquização. Quando falamos em racismo estrutural dizemos que negros não têm acesso aos esquemas de poder no Brasil. Ele é estrutural e institucional porque a sociedade e o Estado brasileiros foram e são concebidos através de ideias) e práticas racistas que limitam o acesso do negro aos bens básicos da sociedade como a educação, a saúde, a moradia, ao bem-estar e, principalmente, à vida. Além disso, concordo com o professor Adilson Moreira quando ele diz que o racismo é um sistema de dominação. Acrescentaria aqui, que ele também é um sistema de exploração e morte.

Por que devemos desconstruir a afirmação do racismo reverso?

Devemos desconstruir essa noção de racismo inverso porque ela é falsa. É uma expressão usada para negar a estrutura racista e faz parte do mesmo repertório de expressões como “o pior racista é o próprio negro”, “o negro é racista contra o próprio negro”, etc. Expressões como essa são usadas por quem prefere confundir e encobrir o verdadeiro debate aqui proposto. O racista não se vê com injusto, porque justiça é um termo que não importa para ele. A não ser que ele se sinta injustiçado. Mas o mais interessante é que no contato com sua família ele pode ser extremamente afetivo, assim como muitos homens machistas são extremamente espirituosos, a ponto de não ser tão fácil provar seus atos. Por isso, a “mocinha” que xinga um jogador de macaco, a estudante que compara bebês negros às suas fezes, não são facilmente reconhecidas como racistas. Nem empresas ou o Estado se vêem como tais. Porque dentro da banalidade de suas existências, o racismo não é um mal. É seu direito.

Quais as consequências da afirmação do racismo reverso para aos negros?

As consequências do racismo para os negros são nefastas. Porque o racismo tem cheiro de dor, tortura e morte. Tanto da morte física quanto da morte social da população negra. Morte dos talentos que não podem se concretizar. Morte e mutilação de mulheres que entram em trabalho de parto. Morte de crianças pela violência policial. O racismo brasileiro não de indigna com o assassinato de crianças negras. Para eles, a conta é justa: menos um. São os termos da necropolítica colocados por Achile Mbembe e Osmundo Pinho. Claro que os negros frente a isso sempre inventam modos de resistir e de re-existir em nossa sociedade, de desmascarar um Estado estruturado pelo racismo. Mas essa resistência e essa reexistência não estão em condição igualitárias de competir com um sistema de dominação de amplo espectro como o racismo. Não ainda. O pior do racismo anti-negro no Brasil é saber que nossos corpos e nossas vidas não tem valor algum para o Estado ou para a nossa sociedade como um todo.

Se chegou até aqui, vale a pena assistir a entrevista abaixo com o Chico Buarque sobre racismo.

Texto: Pedro Borges / Imagem: Araújo

Boxeadores negros sempre serviram como exemplo e inspiração para a população negra na superação das desigualdades raciais

“No dia 27 de junho daquele ano, 1937, Joe Louis nocauteou James Braddock para se tornar o campeão mundial dos pesos pesados. E todos os negros em Lansing, como os negros em todos os lugares, ficaram eufóricos com a maior celebração de orgulho da raça que a nossa geração já tinha tido.” Malcolm X

A construção da identidade para a população negra é uma questão delicada. Mais do que ocupar os piores cargos e ser as principais vítimas de homicídio, a representação midiática negra alimenta os já perpetuados estereótipos de criminoso, vagabundo e promíscuo. Frente a esse quadro de possibilidades de espelho, quem vai querer se identificar enquanto negra/o? A representatividade positiva é fundamental para que as pessoas se definam e se reconheçam enquanto afrodescendentes.

O artigo “Cor nos Censos Brasileiros” de Edith Piza e Fúlvia Rosemberg mostra como o brasileiro e em especial o afrodescendente tem uma grande dificuldade para se definir enquanto negro. No estudo do IBGE durante a Pesquisa por Amostra de Domicílios, PNAD, de 1976, foram respondidas mais 190 nuances diferentes de cor de pele. Depois da cor branca, a definição de pele “morena” foi a mais utilizada, em 34% das respostas.

Para Janaína Damaceno, doutora em antropologia pela Universidade de São Paulo, USP, as imagens e as comunicações “ajudam a construir nossas identidades porque este não é um processo solitário, é um processo solidário. O que dizem e como nos representam é central no processo de produção de identidades, e a cultura visual e audiovisual, pela sua centralidade em nossa sociedade, é um dos principais espelhos na construção das identidades sociais e individuais”.

No caso das mulheres negras, Janaína Damaceno expõe como elas são lembradas apenas no período carnavalesco, quando há destaque para o seu corpo. Enquanto isso, nas telenovelas, a fuga dos estereótipos é ínfima. A atriz Solange Couto, 59 anos, em depoimento no ano passado, no mês de novembro, disse que dos 37 papéis interpretados ao longo da sua carreira, 25 foram de empregadas/escravas, 5 dançarinas e 7 não estereotipados.

Como contraponto, é importante que se tenha uma representatividade positiva de negras e negros. A figura do ídolo, então, se torna importante. Uma pessoa similar a você, com as mesmas características físicas, tida como referência de conduta para todos, pode fazer a diferença na formação da pessoa.

Dagoberto Fonseca pensa que a “presença de ídolos para a população negra é de suma importância na medida em que você estabelece a representatividade e a possibilidade de construção de referenciais. Esses que dão conta de estabelecer uma positividade e uma valorização quando nós temos uma sociedade que diz que o negro não é positivo”. Janaína completa e aponta que “um ídolo ou ícone são importantes pois servem de exemplo de conduta e de que é “possível chegar lá””.

Nomes não faltam para essa população negra se inspirar, seja no esporte, na música, na academia, na política, ou economia. Para o fortalecimento da identidade negra, Dagoberto destaca a importância da “questão mítica que você pode estabelecer a partir desse ponto, seja como o mito de um homem como Nelson Mandela”.

Nelson Mandela, o grande líder sul-africano, tem seu nome e rosto carregado de qualidades e valores positivos. Não à toa, foi o primeiro presidente negro da África do Sul depois de ficar 27 anos preso e um personagem fundamental para o fim do apartheid. A morte de Madiba, em 5 de dezembro de 2013, foi o funeral que reuniu o maior número de líderes e ex-líderes de Estado na história.

Esporte

Seja qual for a modalidade, o esporte de modo geral sempre foi um espaço onde os negros tiveram papel de destaque. É do esporte também onde surgiram e se constituíram diversos e inúmeros ícones negros. Dagoberto coloca que o “esporte é de fundamental importância para a população negra se reconhecer e enquanto possibilidade de ascensão social”.

O boxe nos EUA é um excelente exemplo. A luta foi responsável por criar inúmeros mitos com grande prestígio na comunidade negra em todo o mundo. Com a esquiva de Rubin Carter e os movimentos perfeitos de Muhammad Ali, a população negra sabia que a liberdade e a vitória eram possíveis.

Muhammad Ali tem no seu cartel 57 vitórias e somente 5 derrotas. Não à toa, é considerado para muitos o maior boxeador de todos os tempos. Rubin “Hurricane” Carter, das suas 27 vitórias, ganhou 19 por knockout. Em 1964, perdeu de modo injusto o título de campeão dos meio-pesados e em 1993, já aposentado, foi coroado com o título de campeão da sua categoria pelo Conselho Mundial do Boxe. Por conta das suas glórias, ganhou seu nome no hall da fama do boxe e ainda recebeu ao longo da vida uma homenagem de Bob Dylan com a música “The Hurricane”.

Todos, porém, ganharam repercussão internacional não só pela sua força, mas também pelo o que fizeram fora do ringue. O forte posicionamento político de Muhammad Ali e a sua proximidade com o temido Malcolm X fez com que a mídia e parte da sociedade se colocassem contra o mito do boxe.

Para ele, batizado pelos pais como Cassius Clay, o nome dado pela família carregava a marca daquele que escravizara a população negra, inclusive seus descendentes. Próximo ao islamismo, Cassius Clay muda seu nome para Muhammad Ali e passa a ter fortes posicionamentos políticos. Por conta da sua postura, das suas inúmeras vitórias e toda força mobilizadora em torno do seu nome, Ali foi intimado pelo governo dos EUA para lutar na guerra do Vietnã. O boxeador se recusou, pois para ele, nenhum vietcongue jamais o chamara de “nigger”. O maior boxeador de todos os tempos foi então preso, teve o seu título de campeão caçado e foi também contestado pela imprensa americana.

Rubin “Hurricane” Carter, apesar de tão brilhante quanto Ali, não costuma ser tão lembrado quanto seu colega. O seu sucesso nos meio-pesados começou a incomodar parte da polícia e da sociedade americana. Depois de perder de maneira injusta o título da sua categoria, policiais brancos acusaram Carter e seu colega, John Artis, de serem os assassinos de três pessoas brancas. Carter e Artis ficaram quase 20 anos presos de modo injusto para só depois de todo esse tempo conseguirem provar a inocência da dupla.

Rubin Carter foi preso algumas vezes durante a sua infância e quando a condenação de prisão perpétua para ele para John Artis foi sentenciada, a opinião pública também os condenaram. Carter, assim como o que aconteceu com outros boxeadores e com Muhammad Ali, foi animalizado e tido como uma ameaça para a sociedade. Para Dagoberto, “em qualquer lugar do mundo você tem uma relação muito complicada do ponto de vista da história e daquilo que se faz com a representação negra. Quando você deturpa alguém da comunidade negra, você pega mais pesado em diversos elementos”.

Dagoberto mostra que o modo como esses ícones negros foram tratados foi danoso para a população negra. “Não tenha dúvidas que você tem um impacto na população negra com a construção da negatividade por parte da própria mídia, nacional e internacional, com relação a esses homens e a ação deles”.

Por isso, é necessário se atentar ao que foi feito com essas figuras do esporte. Dagoberto retoma e expõe a sua reflexão sobre “o que aconteceu nos EUA, o que aconteceu no Brasil, o fato de você estabelecer uma ilegitimidade por parte de Cassius Clay, que depois virou Muhammad Ali, aquilo que se fez com Sugar Ray, que ainda é um mito do boxe norte americano”.Rubin Carter Muhamad Ali

Racismo e o Mercado


A representação na mídia dos ícones negros faz parte do sistema racista, na medida em que se animaliza o negro e o trata como perigoso para a sociedade. O sistema capitalista alimenta esse mecanismo para assim justificar o genocídio e a política de encarceramento do povo negro.

Dagoberto destrincha o problema e explica como e por que o racismo é necessário para o modo de produção atual. O capitalismo “precisa do racismo, precisa do machismo, para construir a ideia de oposição, para construir a ideia da competição. Então você, ao estruturar uma lógica racista numa sociedade de classe, você vincula, portanto, um sinal diacrítico, como a gente fala na antropologia. Um sinal diacrítico que estabelece outra identidade, uma identidade do perigoso, uma identidade do animal. Portanto, você retira a possibilidade do outro ser um humano pleno. O racismo faz isso, rebaixa a humanidade a alguém que é humano para transformá-lo em um não humano”.

Mais do que animalizar o negro, o modo como os ídolos negros foram representados e são até os dias atuais “faz parte de um regime racista de representação que sugere que o negro não pertence ao mundo do pensamento”, de acordo com Janaína.

Janaína, porém, mostra que, independente do que foi feito com os ídolos negros, eles ainda são vistos enquanto ícones para o mundo todo e, em especial, para a comunidade negra. Ela lembra como Muhammad Ali foi eleito o atleta do século XX e que ele “permanece como um exemplo para todos, principalmente, porque as pessoas reconhecem que houve uma campanha muito forte contra ele na mídia devido às suas convicções políticas. Ninguém se esquece de como foi emocionante ver Ali acendendo a pira das Olimpíadas de Atlanta em 1996”.

Densidade Psicológica

A presença de ídolos negros é fundamental para a construção da identidade dessa população, mas uma ressalva é válida. Para Janaína, “mais do que ídolos ou ícones negros, é importante que haja uma maior gama de representação e protagonismo negro para que a escolha sobre um ídolo não seja tão restritiva quanto é hoje”.

A antropóloga faz também uma ressalva sobre a restrição da representatividade às imagens dos ídolos. Para ela, isso pode ser perigoso, afinal, os ídolos também são seres humanos e, portanto, têm contradições e cometem erros. “Acho que é importante que haja ídolos e ícones, mas creio que no campo da produção audiovisual é mais importante que as personagens tenham densidade, história e família. Não podemos cair, como diz Stuart Hall, na ideia de que os personagens negros tem que ser um modelo de conduta e bondade. O que é necessário é mostrar uma complexidade, profundidade e que os personagens não sejam estereotipados. O ídolo, claro tem importância, modelos adultos de referência são importantes, sobretudo, para as crianças. Mas focar em ídolos pode se tornar uma armadilha”.

Malcolm X“Um negro não pode simplesmente apanhar de algum branco e retornar para o seu bairro com a cabeça erguida, especialmente nos dias de hoje, quando o esporte, e menos no show business, eram os únicos lugares abertos aos negros, e o ringue era o único lugar que um negro poderia bater num branco e não ser linchado”. Malcolm X

Texto: Plínio Camilo / Imagem: Divulgação

Leitura dramática dessa coletânea de contos sobre o negro escravizado no Brasil

"Madalena nasceu sem os braços, mas atinou que depois de abraçar as pessoas com as pernas, boca e ouvido, as criaturas ficavam felizes. A escrava ganhou fama. Frei João da Luz chegou a contar que no meio daquele abraço tinha visto a verdadeira face de Cristo.

Sua história e muitas outras estão em Outras Vozes – contos sobre o negro escravizado no Brasil, do autor Plínio Camillo.

A obra mistura ficção a fatos reais, em 33 contos, e dá ao negro do período escravocrata uma voz dissonante, situando-o como protagonista, ora o oprimido, ora o opressor. Temas sobre os quais pouco se fala na historiografia oficial, como a grande presença de negros muçulmanos na Bahia, são tratados de forma bastante original.

Em narrativas que muitas vezes flertam com a sonoridade do poema, Camillo transporta o leitor para variados cenários e enredos, desde a vinda nos navios negreiros e o trabalho nas fazendas, passando pelos “negros de estimação”, até os alforriados que trabalhavam nas cidades.

Zulmira, que teve os seus filhos vendidos, Ifigênia, a cozinheira desdentada, João Criolo, o escravo faiscador, Antônio, o negro alforriado são alguns dos personagens do livro, que traz também contos inspirados em fatos reais da história brasileira, como o que relata o flagelo do alufá Bilal Licutan, um dos líderes da Revolta dos malês de 1835, condenado a 24 dias de açoites.

O autor conta que pesquisou por cerca de vinte anos livros e documentos sobre a escravidão. Diz ter encontrado muitos textos importantes, mas nenhum deles trazia o negro como protagonista de sua própria história. “Era apenas a imagem estereotipada do vitimizado em busca de liberdade”, comenta. Há quatro anos, começou a rascunhar as primeiras histórias, mas não se agradou com os resultados. Em 2013, escreveu Minha Lorinha – texto que mostra relação de apego de uma escrava e sua senhora. Foi aí que encontrou a voz que buscava para os contos que se seguiram. “Dei personalidade, outras facetas, outros olhares, outras vozes, para levar aos leitores boas histórias”, comenta: “São páginas escritas com muita potência e capazes de tornar o autor Plinio Camillo porta-voz de uma etnia que matiza 52% dos brasileiros”, afirma a jornalista e escritora Nanete Neves (jornalista, também atuando também como ghostwriter, coordenadora editorial e preparadora para grandes editoras.), que assina a orelha da obra.

Plínio Camillo nasceu em Ribeirão Preto em 1960, reside em São Paulo desde 1984, tendo vivido em Campinas entre 1998 a 2001. Ator, educador social, atuou com crianças e adolescentes de rua e hoje trabalha na área de comunicação.

Plínio Camillo nasceu em Ribeirão Preto em 1960, reside em São Paulo desde 1984, tendo vivido em Campinas entre 1998 a 2001. Ator, educador social, atuou com crianças e adolescentes de rua e hoje trabalha na área de comunicação.

Serviço:

Livro: Outras Vozes – contos sobre o negro escravizado no Brasil

Autor: Plínio Camillo                  Prefácio: Zulu Araújo

Aba: Nanete Neves                    Editora: 11 Editora

Investimento: R$ 45,00

Lançamento:

Data: 16.01.2016

Local: Patuscada - Livraria, bar & café – Rua Luís Murat, 40 – Vila Madalena – São Paulo - Capital

Entrada Franca

Horário: Das 18 às 21hs

Sobre o Alma Preta

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