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Texto: Solon Neto / Edição de Imagem: Solon Neto

Casal de cineastas de Itaquaquecetuba-SP colocam curta com temática negra e periférica entre os finalistas; filme teve orçamento zero

O 44º Festival de Cinema de Gramado terá entre seus finalistas o curta “Lúcida”, dirigido por Caroline Neves e Fábio Rodrigo. O filme dos cineastas paulistas está entre os 9 finalistas de uma seleção com quase 600 inscritos. Com orçamento zero e ativismo social, os cineastas que formam a produtora Ira Negra, são os únicos representantes negros e periféricos na seleção final do Festival, que ocorre entre 26 de agosto e 3 de setembro.

“Esse ano havia Jeferson De na curadoria de curtas e quando passamos, pensamos que uma referência nossa viu o filme e isso já era sensacional, nossa linguagem é muito diferente de tudo que está lá e era muito difícil, foram quase 600 curtas pra uma seleção de 9, batemos de frente com grandes produtoras e invadimos”, afirma Fábio Rodrigo.

O curta tem 16 minutos e mescla documentário e ficção ao contar a história de uma mãe que é abandonada pelo companheiro com um filho recém nascido. A história começa quando ela recebe a visita de sua amiga Jéssica, que aos poucos vai desvelando os problemas sentimentais e financeiros que vive mãe, interpretada pela própria Caroline Neves. Um drama típico das mães da periferia. Várias das cenas do bebê no filme são reais, gravadas com celular, e trocadas entre o casal de diretores enquanto o filho crescia.

Além de Gramado, considerado o festival de cinema mais importante da América Latina, o curta já rodou mostras em 6 estados diferentes, parte da força do movimento de cinema periférico em plena ascensão no Brasil, como apontam os cineastas. Preocupados em retratar a realidade brasileira, esses grupos vêm ganhando espaço em mostras e festivais.

“Nós acreditamos que há um movimento de cinema periférico em todo o país e que está tomando os espaços em festivais importantes de cinema. Uns coletivos, o pessoal da Ceilândia em Brasília com o Adirley Queiroz, a Astúcia filmes daqui de São Paulo, o Lentes Periféricas, o Cinecampinho, o Cinefavela, um pessoal preocupado em produzir e exibir pro povo das comunidades e discutir cinema, ver cinema com um olhar que não é o do centro, o da elite, isso é importante.”

 

O movimento de cineastas negros preocupados em retratar o racismo e a desigualdade social é antigo. Desde nomes consagrados como Zózimo Bulbul e Joel Zito Araújo a talentos recentes como os de Viviane Ferreira, Yasmin Thayná, Everlane Moraes, Taís Amordivino, Edileuza Penha, Thamires Vieira e Larissa Fulana de Tal. Em 2015, Alma Pretaentrevistou a cineasta baiana Larissa Fulana de Tal, que contou um pouco sobre seu celebrado “Cinzas”, e as ações de seu coletivo de cinema, o Tela Preta. A última produção do coletivo foi o filme “O Som do Silêncio”, de David Anyan.

Assim como os cineastas de Lúcida, muitos desses artistas e produtores têm dificuldades para realizar suas produções. O cinema é caro, o que torna o improviso uma opção muitas vezes necessária. Caroline e Fábio contam que o filme que vai ao Festival de Gramado foi feito sem nenhum financiamento externo e que usaram a criatividade para construir e utilizar muitos dos equipamentos necessários às filmagens.

“Não houve qualquer financiamento, foi ao estilo ‘Nós por nós’. Ele foi filmado com orçamento zero, iluminado com lâmpadas caseiras e equipamentos improvisados à base de materiais recicláveis, com uma câmera fotográfica e uma única lente, a do kit básico. Não esperamos um edital nem patrocínio, pensamos em mostrar o que podemos fazer com o mínimo que temos e quem sabe com essa visibilidade encontrar quem acredite no trabalho e apoie”.

Os atores do curta são todos convidados. Ambos os diretores atuam, além dos primos, Jéssica e Willian, e do filho de Caroline e Fábio, Vinicius. “[…] o grande astro é nosso filho Vinícius que hoje está com dois anos, mas começou a atuar com seis meses e é um ponto que chama atenção no curta”.

O grupo de amigos faz parte da produtora do casal, a “Ira Negra”, cujo slogan, “do gueto para o gueto”, sintetiza a temática de seus filmes. O projeto que o casal considera uma “ideologia” conta com a ajuda de amigos, além da equipe fixa que se completa com o produtor Renato Santos.

“A IRA NEGRA não é uma produtora, nem um coletivo ainda, é mais uma ideologia, um projeto pensado na intenção de fazer filmes na periferia e para as pessoas da periferia desde o início de 2015. Começamos a mobilizar gente que acredita no trabalho e que tá a fim de participar mas temos a ideia de expandir pra mais bairros, encontrar talentos, novos profissionais para colocar o jogo pra frente já que apoio financeiro não temos, mantemos a intenção de produzir e acreditamos que com o sucesso do primeiro curta mais pessoas vão se unir a luta.”

O novo curta da Ira Negra já foi filmado, e trará a temática do genocídio da população negra no Brasil.

Teaser Lúcida from Fabio Rodrigo on Vimeo.

Texto: Solon Neto / Edição de Imagem: Solon Neto

Programa do pré candidato do PSDB à prefeitura da capital paulista gera constrangimento ao citar regime segregacionista e nenhuma política para a população negra

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) divulgou o programa de governo do pré-candidato à prefeitura de São Paulo, João Doria Jr (PSDB) com um dos cinco eixos da proposta para a Cultura nomeado de “Apartheid”. O programa de 22 páginas não se aprofunda ao explicar o que é a proposta, que surge acompanhada da frase “rompendo as barreiras existentes para unir a Cidade”, sem dizer quais barreiras nem que tipo de ação será realizada.

Apesar de mais de 300 pessoas trabalharem no programa há meses em cerca de 30 grupos temáticos diferentes, o plano provisório de governo cita um dos mais notórios regimes segregacionistas da histórica recente. Ao mesmo tempo, não faz nenhuma menção à população negra, cerca de 40% dos paulistanos.

O programa cita políticas para mulheres, população LGBT, transexuais e indígenas. No caso dos indígenas, única menção à raça ou etnia ao longo do texto, não há proposta para o grupo social.

Alma Preta entrou em contato com a campanha de João Doria, que explicou: “O termo ‘apartheid’ foi utilizado na versão provisória do nosso programa de governo com a intenção de denunciar a segregação de oportunidades que existe entre as diversas regiões da cidade naquilo que diz respeito ao acesso aos bens e equipamentos culturais”.

Questionados sobre o porquê de não haver nenhuma menção à população negra ao longo do plano, apesar de usar o termo Apartheid, a campanha de Doria afirmou que o documento definitivo do programa de governo conterá políticas voltadas à comunidade negra, sem informar se o nome será mantido.

A cidade de São Paulo é uma das cidades com a maior população negra do país, com 40% de cidadãos auto-declarados pretos ou pardos. Dados de 2010 da prefeitura apontam que há mais de 4 milhões de negros na cidade. A população é também a maior vítima de violência policial, como apontam dados de 2015, que mostram que 72% das mortes causadas por policiais atingem pessoas negras.

A proposta apresenta cinco eixos para a Cultura: Choque de cultura – modificando os paradigmas existentes; Apartheid – rompendo as barreiras existentes para unir a Cidade; Parceria – fortalecimento e ampliação das parcerias (Setores Público e Privado); Ética – cultura como valor de natureza ética; Esperança – como instrumento da paz e perspectiva de vida (Juventude e Horizonte).

Além de João Doria, apenas a pré-candidatura de Celso Russomano (PRB) está listada no site do TSE, mas o programa do tucano permanece o único divulgado.

O Apartheid foi um regime de separação racial entre negros e brancos que vigorou entre 1948 e 1992 na África do Sul. Rechaçado internacionalmente, o regime negava o direito ao voto à maioria negra, segregava espacialmente as populações com base em critérios raciais e proibia casamentos e relações entre raças e etnias. Um dos maiores símbolos do regime foi a prisão de Nelson Mandela em 1960. Liberto em 1990, liderou a luta pelo fim do regime e tornou-se presidente do país em 1994.

A proposta completa do pré-candidato João Doria Jr. para a prefeitura de São Paulo pode ser acessada no portal “Divulga Candidato”, no site do TSE.

Texto: João Victor Belline / Edição de Imagem: Vinicius de Almeida

“Treinei muito depois de Londres porque não queria repetir o sofrimento. Depois da minha derrota, muita gente me criticou, disse que eu era uma vergonha para minha família, para meus pais. E agora sou campeã olímpica”.

“Já passou, tem quatro anos. Eu só posso falar: o macaco que tinha que estar na jaula em Londres hoje é campeão olímpico em casa. Hoje eu não sou a vergonha para a minha família”.

Essas duas falas, concedidas ao canal SporTV e à Rede Globo, respectivamente, são apenas uma pequena parte de uma história que começa bem longe dos holofotes, bem longe das vitórias, bem longe das luzes, mas que, nesse momento, recebem uma luz dourada que ninguém pode apagar.

As irmãs Rafaela e Raquel decidiram pequenas que queriam praticar judô. A Dona Zenilda e o Seu Luiz moravam na Cidade de Deus, Rio de Janeiro, e tinham pouco tempo disponível para ficar olhando as filhas, já que trabalhavam como entregador de pizza e vendedora de botijões de gás. A saída foi colocar as meninas em alguma atividade para gastarem toda aquela energia que elas tinham. A turma de arte era muito avançada. Raquel desanimou. A turma do futebol era só para meninos. Rafaela não pôde jogar. A segunda opção foi uma luta que não entendiam direito, mas que poderia acabar com as brigas que as meninas vira e mexe tinham nas ruas.

O Instituto Reação, recém montado no bairro carioca, abrigou a pequena Rafaela, com então 8 anos, e a irmã Raquel, com 11, e mostrou o caminho para o tatame e os quimonos. As duas destacaram-se rapidamente mas com perfis diferentes: a mais nova preferia mais brincar na rua, enquanto a mais velha não largava os treinos. Nos resultados, não havia muita diferença. O técnico Geraldo Bernardes reparou logo no talento das irmãs e prontificou-se a ajuda-las a seguir treinando judô.

Com o incentivo do técnico Geraldo, por muitas vezes até financeiro, Raquel despontava na modalidade, inclusive começando a participar de competições internacionais. Isso fez com que Rafaela, com 11 anos na época, também começa-se a se dedicar mais nos treinos. Vencer, ela já vencia, mas os três anos de diferença faziam com que a irmã estivesse um estágio à frente. Entretanto, uma gravidez na juventude fez com que a irmã tivesse que afastar-se do esporte. Ao voltar, Raquel enfrentou uma série de lesões.

Dois anos depois, em 2008, o primeiro momento de destaque de Rafaela Silva no judô: ela ganhou uma das etapas da Copa do Mundo e tornou-se campeã mundial sub-20. Apenas três anos depois, em 2011, a carioca conquistou a medalha de prata no Pan-americano de Guadalajara, no México, e também foi vice-campeã no mundial adulto, na França, ambos lutando na categoria até 57 Kg. Uma carreira com uma ascensão muito rápida e em momento oportuno, já que o ano seguinte seria o olímpico.

O caminho para a Inglaterra parecia traçado para Rafaela Silva. Na época, ela era quarta colocada no ranking mundial. A participação da brasileira nos jogos, entretanto, não foi como o esperado: ela foi eliminada nas oitavas de final, frente à húngara Hedvig Karakas, por aplicar um golpe ilegal. Rafaela levava vantagem na luta, mas um golpe nas pernas, coisa que havia sido proibido três anos antes, fez com que os juízes retirassem a atleta da competição. A atleta mais jovem da equipe de judô da delegação em Londres, 2012, desabava em choro.

Pior do que perder uma competição, ainda mais sabendo que tinha todo o potencial para ganhar, é sofrer na pele uma das piores mazelas sociais que o Brasil mantém: racismo. Rafaela foi vítima de diversos ataques, em especial pelas redes sociais, e respondeu. Sem apoio das entidades responsáveis, nenhuma ação foi adiante. Ninguém foi responsabilizado. Uma jovem de 20 anos vê quatro anos, se não todos os outros também, de treino se perderem em poucos minutos. Mais do que isso, ainda sofre racismo. O resultado não seria outro que não a depressão.

Foram meses de dificuldade em que a judoca afastou-se do esporte e passava dias a fio. Nesse momento, uma personagem muito importante aparece: a psicóloga Alessandra Salgado, a Nell. Indicada pela irmã Raquel, Nell começou a acompanhar Rafaela e isso não pararia mais. Salgado foi a responsável por motivar a atleta a retornar ao esporte. Com o tempo parada, Rafaela voltou a competir na categoria até 63 Kg. Isso foi aceito apenas no começo para a atleta, que logo quis retornar à categoria habitual, até 57 kg.

Alguns passos à frente na história, no ano de 2013, começa a redenção de Rafaela Silva: medalha de ouro no Campeonato Pan-americano de Judô, em San José, na Costa Rica, e também no Campeonato Mundial, no Rio de Janeiro. O resultado, inclusive, fez de Rafaela a primeira brasileira a sagrar-se campeã mundial na modalidade.

Os anos seguintes não foram tão brilhantes como de costume, mas o trabalho com Nell continuava intenso. Se 2014 foi um ano discreto, 2015 trazia esperanças, com um título de Grand Prix, em Dusseldorf, na Alemanha, e um bronze no Pan-americano de Toronto, no Canadá. Agora, ela teria outra chance, em 2016, no mesmo Rio de Janeiro, sua terra natal, para exorcizar qualquer fantasma da última participação olímpica.

Uma segunda-feira, dia de trabalho inesgotável para os brasileiros, fez com que tantas/os Silvas se levantassem cedinho e fossem ao batente. No Parque Olímpico da Barra, em especial na Arena Carioca 2, uma representante de tantos/as desses também foi ao trabalho. Negra, mulher, favelada, mais uma Silva foi brigar pelo pão de cada dia. O que a judoca da Mongólia Sumiya Dorjsuren não poderia esperar, era que ela era apenas mais uma barreira para Rafaela. Não porque a brasileira já havia vencido quatro atletas antes dela, mas porque as barreiras que a vida tentou impor foram muito maiores.

Numa festa tão elitistas e que pouco oferece espaços como a Zona Oeste do Rio, a Cidade de Deus foi mais Brasil. Se todo o escarcéu de fogos e luzes pouco faz a tantos brasileiros, pra não dizer que nada faz à avassaladora maioria deles, hoje esse brilho dourado no peito de Rafaela Silva faz muito. Não porque agora vão cuidar das comunidades; não vão. Não porque agora vão respeitar o direito dos marginalizados; não vão. Mas Rafaela deixa uma coisa escancarada que ninguém pode apagar: a certeza de que essa medalha não é das tevês e do “plim plim”.

Obrigado, Rafaela Silva, por dar voz aos que pouco podem falar, mas que agora gritam em seu nome.

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