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Ato em Ribeirão Preto-SP lembra a morte de Luana Barbosa e exige que policiais enfrentem a justiça comum

Texto: Solon Neto / Fotos: Pedro Borges e Solon Neto

Neste sábado, 18/06, o ato “Nenhuma Luana a Menos” cruzou o centro de Ribeirão Preto-SP e bloqueou uma de suas principais vias, a Avenida Independência. O ato foi promovido por movimentos sociais da cidade para lembrar a morte de Luana Barbosa, em decorrência de um espancamento pela Polícia Militar. O caso gerou clamor nacional, e teve larga repercussão nas redes sociais no Brasil e no mundo. Luana era uma mulher negra, mãe, lésbica e moradora de periferia. Cerca de 300 pessoas, em maioria mulheres negras, acompanharam a marcha.

Com o processo de investigação ainda correndo na justiça, as manifestantes querem que os acusados venham a júri popular, e não militar, como é de praxe em julgamento de policiais. O Alma Preta participou do ato e realizou uma cobertura fotográfica.

Corpo a Corpo nas ruas de Ribeirão Preto e Mídia Radical

A organização da marcha distribuiu panfletos em diversos pontos da cidade para dialogar com a população local acerca da violência vivida por Luana. A panfletagem serviu também para levar mais pessoas ao ato, e foi marcada pela solidariedade das pessoas abordadas com a causa. Boa parte das pessoas paradas pela panfletagem conheciam o caso, uma demonstração da repercussão do crime.

Em muitos lugares na cidade era possível encontrar cartazes colados em muros e postes chamando atenção para o caso e o ato. Os ‘lambes’ foram colados próximos às universidades e pontos de ônibus.
A organização também produziu camisetas com uma ilustração do rosto de Luana junto à frase: “Nenhuma Luana a Menos”. A maior parte dos presentes no ato estava utilizando a camiseta.

Nenhuma Luana a Menos

A concentração para a Marcha começou às 9h na Praça Sete de Setembro, de onde partiu duas horas depois em direção à Avenida Independência. Já nela, a marcha seguiu até o cruzamento com a Avenida Nove de Julho.

A concentração que se iniciou às 9h contou com intervenções artísticas teatrais e poéticas, além de falas de diversos membros dos movimentos sociais presentes. Uma das falas foi a de Laissa Sobral, da Secretaria Estadual da Mulher Catadora (SEMUC). Moradora do Grajaú, em São Paulo, Laissa ressaltou o medo diário vivido pela população negra ao sair de casa, além de chamar a atenção para a seriedade necessária para combater a violência sistêmica contra a população negra.

 

O grupo Levante Mulher realizou duas intervenções teatrais durante a marcha que levaram muitos dos presentes às lágrimas. Ainda na concentração a apresentação do grupo, levada ao som do Canto das Três Raças, focou no drama pessoal da mãe negra, que se desespera ao se deparar com a perda de seus filhos.

Ao subir a Avenida Independência, o grupo deparou-se com uma base da Polícia Militar e ali protestou por alguns minutos contra a violência sofrida por Luana. Nenhum policial foi visto enquanto o grupo passava e protestava à porta da base.

O ato despertou a curiosidade de inúmeros transeuntes, que paravam para observar e fotografar a manifestação. O carro de som que acompanhava a marcha foi utilizado para entoar palavras de ordem pedindo, por exemplo, o fim da polícia militar e o fim do preconceito contra a população LGBT. Entre as faixas pedindo que o caso fosse levado à Justiça Comum, estavam as bandeiras LGBT e do Panafricanismo.

O fim do ato se se deu com a chegada à Avenida Nove de Julho, onde o grupo formou uma roda para assistir a segunda apresentação do Levante Mulher.

O caso Luana

No dia 08/04, Luana Barbosa dos Reis Santos, mulher negra, mãe e lésbica, foi espancada pela Polícia Militar. Passados cinco dias, ela faleceu, aos 34 anos, devido à isquemia cerebral causada por traumatismo craniano. A morte gerou revolta na família e em diversos movimentos sociais que denunciaram o excesso de violência do Estado. O crime foi denunciado e os movimentos sociais da cidade agora exigem que haja julgamento via justiça comum.

“Seria muito cruel da minha parte dizer que eu passei por esse período sem clube por causa disso, e também não posso dizer que não foi por causa disso”, afirma o goleiro

Texto: Divulgação / Edição de Imagem: Solon Neto

O Esporte Fantástico deste sábado, 18/06, às 10h15, exibe reportagem exclusiva com o goleiro Aranha. O jogador, que foi vítima de racismo em um jogo entre Grêmio e Santos, em 2014, estava desempregado há seis meses e revelou ao programa que encontrou dificuldades para se recolocar no mercado por conta da polêmica e repercussão que o episódio causou:“Seria muito cruel da minha parte dizer que eu passei por esse período sem clube por causa disso, e também não posso dizer que não foi por causa disso”.

Após passagem pelo Palmeiras e um semestre inteiro sem atuar, Aranha agora defende as cores do Joinville. Apesar de toda a dificuldade para encontrar um novo time, ele não se incomoda em falar sobre racismo e desabafa ao esportivo sobre o assunto: “É um assunto que eu creio ter um bom conhecimento e não tenho problema algum, mas é algo que me acompanha desde a infância. Não só o Aranha, mas muitos outros brasileiros negros também.  Só que como eu era uma pessoa pública, repercutiu.  Isso acaba parecendo que é um fato isolado, mas não, isso é uma coisa normal no nosso País. Depois daquela era que tentavam embranquecer o País, achando que um País mais branco seria mais chique, mais bonito, a gente ainda pena um pouco com esse tipo de sentimento. Mas comparado com o tempo que ficou na escravidão, a gente precisa batalhar bastante ainda.”

Aranha também revela que, em momento algum, tentou prejudicar o clube gaúcho, mas sim quis fazer justiça perante às pessoas que o atacaram. “Fiz valer os meus direitos naquele jogo do Grêmio. Não fiz nada mais do que isso, de maneira alguma eu quis prejudicar o Grêmio. Eu não fiz nada contra o Grêmio, nada. O que eu fiz foi contra as pessoas que cometeram um crime, que cometeram injúrias.  Se eu tivesse cometido aquele tipo de crime eu também pagaria, e talvez pagaria mais caro, com dinheiro, sei lá, seria muito mais pesado do que isso, mas eu só exigi os meus direitos, nada mais do que isso”.

Texto: Pedro Borges / Edição de Imagem: Pedro Borges

Caminhada tem o objetivo de transferir investigação da Justiça Militar para Comum

Militantes negros, LGBTs e feministas organizam para o dia 18/06, sábado, na cidade de Ribeirão Preto a “I° Caminhada de Lésbicas e Bissexuais Negras por Nenhuma Luana a Menos”. A concentração para o ato se inicia às 9h na Praça Sete de Setembro.

Luana Barbosa dos Reis Santos, mulher negra LGBT, foi espancada pela polícia militar no dia 8 de Abril. Depois de cinco dias, ela faleceu, aos 34 anos, devido à isquemia cerebral causada por traumatismo craniano. A morte gerou revolta na família e em diversos movimentos sociais que denunciaram o excesso de violência do Estado.

Poliana Kamalu, estudante de direito da USP-Ribeirão Preto, é uma das organizadoras do protesto e afirma a necessidade do julgamento de Luana Barbosa ser transferido da Justiça Militar para a Comum. “Nosso principal objetivo é exigir do judiciário brasileiro que os policiais envolvidos na morte de Luana sejam julgados na Justiça Comum, e não pela Justiça Militar, por seus pares; o que nos transmite menos imparcialidade. Exigimos que um homicídio doloso seja julgado pelo Tribunal do Juri, conforme determina nosso ordenamento jurídico. Nós não vamos deixar mais uma mulher lésbica, negra e periférica entrar nas estatísticas sem que a Polícia Militar responda por mais este crime”.

A grande mobilização em torno do caso, protagonizada pela família e por movimentos sociais, gerou uma série de ameaças às pessoas mais próximas de Luana. O ato então é também uma forma de demonstrar solidariedade à família e uma maneira da morte não ser esquecida pela cidade, de acordo com Poliana. “Para que não exista nenhuma Luana a menos é fundamental tornar público a Ribeirão Preto a história de uma morte não natural, embora naturalizada, de Luana Barbosa e o direito de justiça que nos resta”.

Além do protesto, o sábado também será marcado por atividades culturais, como rodas de sambas e saraus. Todas as apresentações farão reflexões sobre a questão de raça, gênero e orientação sexual.

Alma Preta fará a cobertura do ato.

Veja o evento no Facebook.

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