fbpx

Texto: Pedro Borges / Edição de Imagem: Pedro Borges

Pensamento panafricanista e as lutas pela libertação no continente africano são os temas principais das aulas

O Coletivo Cultural Dijejê apresenta o curso de formação sobre o panafricanismo e as lutas por libertação em África. O curso acontece entre os dias 20 de setembro e 30 de outubro e as inscrições são aceitas até o dia 18 de setembro. As aulas podem ser vistas pelos participantes na plataforma e-learning Moodle, ferramenta aberta, gratuita e de simples manejo.

O curso está dividido em seis módulos. Panorama histórico-analítico da formação da África contemporânea; Conhecimento colonial e estudos africanos; Negritude, Panafricanismo, Socialismo e Lutas de libertação nacional; Interpretações sociológicas contemporâneas sobre África; Modernidade, democracia, vida urbana na África contemporânea; Relações entre o Brasil e África.

Entre os autores a serem utilizados como base para o curso, estão Kwami Anthony Appiah, Mia Couto, Achile Mbembe, J Kizerbo e Russel G. Hamilton. Jaqueline Conceição, organizadora da atividade, destaca Achile Mbembe como a principal referência para os encontros. Nascido em Camarões, ele é professor de História, Ciências Políticas e diretor de Pesquisa Social e Econômica do Instituto Witwatersrand, em Joanesburgo. O seu livro On the Postcolony o fez emergir como um dos pensadores mais férteis na história, sociologia e filosofia política.

Jaqueline Conceição ressalta a importância de conhecer o panafricanismo e as lutas por libertação no continente africano. “Acho que a proposta do conteúdo é um chamativo. Além de discutir o panafricanismo, o curso quer discutir também um pouco sobre a África, como uma tentativa de superar a África idealizada pelo ocidente”.

Serviço:

Valor: 80 reais (inscrição aqui).

Inicio: 20 de Setembro de 2016

Término: 30 de Outubro

Carga horária: 30 horas (com certificação)

Programação:

Módulo 1. Panorama histórico-analítico da formação da África contemporânea.

Módulo 2. Conhecimento colonial e estudos africanos.

Módulo 3. Negritude, Pan-Africanismo, Socialismo e Lutas de libertação nacional.

Módulo 4. Interpretações sociológicas contemporâneas sobre África.

Módulo 5. Modernidade, democracia, vida urbana na África contemporânea.

Módulo 6. Relações entre o Brasil e África

Bibliografia básica:

APPIAH, Kwami Anthony (1997). Na casa de meu pai: a África na filosofia da cultura. Rio de Janeiro: Contraponto.

CABAÇO, José Luis. (2009). Moçambique: identidade, colonialismo e libertação. São Paulo, UNESP.

COUTO, Mia (2008) – Um passado ainda por nascer.

HAMILTON, Russel G. (1999). A literatura dos PALOP e a teoria pós-colonial. Via Atlântica, 3, p. 12-23. Disponível em: KI-ZERBO. História Geral da África: Metodologia e pré-história. V. 1. São Paulo, Ática.

MUTZENBERG, Remo e E.V. SOARES (2009). Democratização, sociedade civil e cultura política: aproximações entre o Brasil e a África lusófona. Estudos de Sociologia, 15 (2): 49-68.

Mais informações:

Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

(11) 9 44681000

Texto: João Victor Belline
Edição de Imagem: Pedro Borges


O olhar distante e reflexivo. As lágrimas que começam a correr pelo rosto já desgastado pela força do tempo. As mãos vão aos olhos e é impossível conter a emoção. “É muito triste, muito duro, gente. Muita maldade que o Brasil fez comigo…o Brasil não. Os dirigentes da época’. Essas são as palavras de Aida ao retornar em 2012 ao Estádio Nacional, em Tóquio, no Japão. Esse retorno, proporcionado pela produção do documentário “Aida dos Santos, uma mulher de garra”, do Diretor André Pupo e Quintela e em parceria com a ESPN Brasil, transmite um pouco do que foi a luta e a emoção dessa guerreira que foi a única mulher represente do Brasil nos Jogos Olímpicos de 1964.

A história da infância de Aida representa um pouco da população mais vulnerável do Brasil. Preta, pobre, mulher. Nascida no primeiro dia de março de 1937 e moradora do Morro do Arroz, em Niterói, ela sempre teve que ajudar nos afazeres domésticos e, como pudesse, também no sustento da casa. Os primeiros contatos esportivos de Ainda foram com o vôlei, esporte que ela praticava, desde que cumprisse todas as tarefas da casa antes. E foi através do vôlei que ela também conheceu o atletismo. Uma amiga fornecia carona do morro até o clube do Botafogo, onde ela praticava salto em altura e Aida jogava voleibol.

Nem sempre o treino de vôlei acontecia, pois nem sempre havia quórum. Aida tinha que esperar a amiga terminar seu treinamento no salto para então poder ir para a casa. Numa dessas vezes em que tinha que ficar esperando a amiga, após muita insistência, Aida aceitou participar das atividades do salto em altura. Logo na primeira vez em que praticou o esporte, conseguiu a marca de 1,40m. Detalhe, o recorde do estado do Rio de Janeiro era apenas cinco centímetros mais alto. Isso fez com que os técnicos e atletas que ali estavam se animassem e incentivassem para que ela começasse a treinar atletismo.

Quando a jovem comunica em casa que gostaria de participar de uma competição, ela é prontamente repreendida pelo pai que não vê naquilo algum futuro. Ele afirma que ela precisa é ganhar dinheiro e ajudar na casa, não fazer esporte. Nesse momento mais uma vez é a amiga que consegue resolver a questão. Ela convence o pai a deixar Aida ir com ela à competição, apenas para vê-la participar. Claro que aquilo era apenas uma manobra, mas deu certo. O pai permitiu e Aida foi mais do que assistir ou participar. Em sua primeira competição, ela saltou 1,50m, vencendo e batendo o recorde de salto em altura do estado do Rio.

Ao chegar em casa, Aida mostra a medalha para o pai na esperança que aquilo mudasse sua opinião. Muito pelo contrário. Ele bate na jovem e sustenta seu pensamento: “Você ganhou algum dinheiro? Medalha não enche a barriga de ninguém!”, palavras da própria Aida contando sobre o episódio.

Aida dos Santos e o diploma de 4° lugar nos jogos olímpicos

Independente da represália, ela não se deixou abalar e continuou treinando como podia. É nesse momento, inclusive, que aparece o seu primeiro “treinador”. Aida praticava no complexo Célio de Barros, sozinha, muitas vezes no escuro, já que a estrutura era deficiente e ela não tinha o apoio de uma equipe. Um menino de dez anos que praticava atletismo, Francisco Manoel de Carvalho, costuma brincar no local e começou a ajudar Aida. Ele ajeitava a caixa de areia, o sarrafo e dava alguns pitacos. Esse menino, hoje, é conhecido como Chiquinho da Mangueira.

Em 1964, ano tão marcante na história brasileira devido ao golpe e ao início da Ditadura Militar, aconteceram os jogos Olímpicos em Tóquio. Foi às vésperas dos jogos, na última oportunidade, que Aida conseguiu sua vaga para competir. Ela se tornou a única mulher na delegação brasileira que iria ao Japão. Mesmo assim, nenhuma estrutura esportiva lhe foi oferecida. Ela foi ao Oriente sem técnico, material de competição, tradutor e, nem mesmo, a roupa para vestir na cerimônia de abertura. O episódio da abertura é também um retrato da estadia de Aida nas Olimpíadas. Como a única mulher entre os 68 atletas brasileiros, ela desfilou como um pelotão único atrás dos porta bandeiras e distante também do restante de mais de sessenta homens. Aquela cena expressa um pouco a solidão que foi a passagem dela em Tóquio.

Logo nos primeiros dias, ela descobre que o seu nome não está inscrito na competição. Com muitas dificuldades, já que não havia um técnico ou equipe para apoiá-la, não falava japonês ou qualquer outra língua que não o português, Aida conseguiu se inscrever. Afastada das acomodações da delegação do Brasil, ela passava os dias treinando sozinha e andando de bicicleta. Até para treinar, por exemplo, ela tinha que improvisar. Enquanto as demais competidoras tinham calçados adequados e trena para medir os saltos, ela usava os pés para ter uma noção das distâncias e conseguiu emprestado uma sapatilha de corredor de 100m, depois de muito chorar para a organização.

Para seguir seus afazeres, a atleta olhava as outras competidoras e copiava o que elas faziam, assim ela não perderia nenhum compromisso mesmo sem conseguir entender ou ler nada que estava acontecendo.

Nas eliminatórias, Aida precisava saltar 1,70m para chegar às finais. Ela nunca havia conseguido saltar nem 1,68m até então. Além disso, dessa vez, a brasileira competiria em condições diferentes das que costumava: ela cairia em colchões e espuma, diferente da areia em que estava acostumava. Apesar disso parecer vantajoso, é sabido que, para melhor ou para pior, a mudança na rotina de um atleta sempre prejudica seu desempenho.

Independente das adversidades, Aida conseguiu a marca, mesmo que para isso, um alto preço fora pago. Na queda, ela torceu o tornozelo.

Mancando, ela se joga no gramado do Estádio Nacional e retira a sapatilha. O médico da delegação de Cuba se aproxima e auxilia Aida naquele momento de dificuldade. Ele aplica analgésico no pé dela, a fornece um comprimido e ainda faz a “botinha” de ataduras para que a atleta possa continuar a competição e ir à final. Mesmo lesionada, ela consegue saltar 1,74m, marca que garantiu o quarto lugar naquele ano. Esse desempenho, inclusive, foi o melhor de uma brasileira até as Olimpíadas de 1996, em Atlanta, nos Estados Unidos, quando a dupla Jaqueline e Sandra conquistou a medalha de ouro no vôlei de areia.

Texto: João Victor Belline / Edição de Imagem: Pedro Borges

“O homem, quando vem ao mundo, não sabe para o que vem ou para onde vai. Graças ao esporte, eu fui longe. Escapei das drogas e da violência”. Muito mais do que escapar de um caminho, ele também deixou um rastro para que o Brasil tivesse outros nomes notáveis no salto triplo. Se Nelson Prudência foi prata e bronze, se João Carlos Oliveira, o João do Pulo, foi duas vezes bronze, se Jadel Gregório detém o recorde brasileiro de 17,9 metros, muito se deve ao homem que achou a palavra atleta bonita e resolveu que seria um: Adhemar Ferreira da Silva.

No dia 29 de setembro de 1927, a cozinheira Augusta Nóbrega da Silva e o ferroviário Antônio Ferreira da Silva trouxeram ao mundo o seu primeiro e único filho. No bairro da Casa Verde, em São Paulo, Adhemar cresceu e se transformou um menino magro e de pernas longas. Como podia, ajudava a família nas contas da casa, já que o dinheiro nunca foi muito. Seus primeiros contatos com a prática esportiva foram com o futebol. No Grêmio Esportivo Centenário, ele atuava como meio-campista no futebol de várzea em seu bairro. Mesmo estudando e trabalhando, Adhemar também via o esporte como algo essencial para a sua vida.

Em 1947, logo na primeira vez em que pisou numa pista de atletismo, Adhemar se entusiasmou com o salto triplo e começou a se dedicar à modalidade. Vestindo a camisa do São Paulo Futebol Clube, ele conseguia treinar apenas no horário de almoço e duas ou três vezes por semana. A prioridade, afinal, eram os estudos e o serviço. Logo em sua primeira competição, o Troféu Brasil daquele mesmo ano, o atleta saltou 13,05 metros e conquistou o primeiro lugar. A evolução em tempo tão curto fez com que o técnico Dietrich Gerner já falasse em carreira internacional.

No ano seguinte, 1948, aconteceriam os Jogos Olímpicos em Londres, Inglaterra. Apesar do pouco tempo de prática esportiva, Adhemar já era campeão paulista e detinha o recorde brasileiro no salto triplo. Ele chegou naquela edição do Troféu Brasil precisando saltar 14,8 metros para se classificar às Olimpíadas. Fê-lo com tranquilidade, saltando 23 centímetros a mais do que o necessário, e garantindo passagem a Londres. Sua primeira experiência olímpica terminou com um modesto 14º lugar, sendo que a modalidade contou com 29 competidores. O treino reduzido apenas a alguns períodos de almoço e a pouca idade pesaram naquela competição.

Adhemar Ferreira, medalhista olimpíco no atletismo

Apesar do resultado adverso, os anos seguintes foram de consolidação para Adhemar Ferreira da Silva. Vitórias e recordes se tornaram quase rotina na carreira do atleta. Em 1949, ele saltou 15,51 metros e estabeleceu um novo recorde sul-americano. A marca anterior datava de 25 anos antes, feitos pelo argentino Angel Bruneto nas Olimpíadas de Paris. Em 1950, Adhemar cravou 16 metros e igualou o recorde mundial do japonês Naoto Tajima, que perdurava desde 1936. No ano seguinte, aumentaria a sua marca em um centímetro e se tornaria o recordista mundial isolado. O ano de 1951 também marcou a primeira conquista Pan-americana de Ferreira da Silva, nos jogos realizados em Buenos Aires. A caminhada do paulistano não poderia ser para outro destino que não as Olimpíadas de 1952, em Helsinque, na Finlândia.

O atleta brasileiro não só competiu mas deixou o mundo estarrecido naquele dia 23 de julho. Nas seis tentativas previstas na competição, Adhemar melhorou a sua marca quatro vezes. Ele saltou, naquele intervalo de tempo, 16,05m; 16,09m; 16,12m; e 16,22 m, vencendo a sua primeira medalha de ouro olímpica para assim estipular o novo recorde mundial no salto triplo. O Estádio Olímpico de Helsinque, em coro uníssono de 70 mil pessoas, entoava o nome do Brasil. “DA SILVA! DA SILVA!”. Com a medalha dourada no peito, Adhemar deu uma volta completa na pista e iniciou uma prática hoje corriqueira em equipes campeãs: a volta olímpica.

Nas Olimpíadas de 1952, Adhemar garantiu não só a medalha dourada mas também a atenção do mundo e, consequentemente, dos adversários.  Apesar do desempenho formidável nos Jogos, o soviético Leonid Sherbakov e o venezuelano Arnoldo Devonish foram competidores complicados. Nos anos seguintes, outro soviético, Oleg Ryakhovsky, o islandês Vilhjalmur Einarsson e o russo Vitold Kreyer, também dariam muito trabalho ao atleta brasileiro. Tanto é que Sherbakov conseguiu saltar 16,23 metros e tirar o recorde mundial do brasileiro. Nos Jogos Pan-Americanos de 1955, na Cidade do México, Adhemar saltou 16,56 metros e retomou o seu posto de melhor do mundo. A competição continental também garantiu o bicampeonato ao brasileiro, medalha de ouro mais uma vez. Essa marca, inclusive, só seria batida no final de 1957, por Ryakhovsky, que saltaria três centímetros a mais.

Naturalmente, Melbourne aparecia como o palco para o grande ato da carreira de Adhemar Ferreira da Silva. As Olimpíadas de 1956 poderiam selar a primeira vez em que um brasileiro seria bicampeão olímpico. Tudo aparecia favorável até aparecer um adversário inusitado: uma dor de dente. Uma obturação mal feita causava inchaço e uma dor terrível no atleta paulistano, que desde o ano anterior vestia as cores do Vasco Gama e realizara seu sonho de morar no Rio de Janeiro. Uma pulsão a poucos dias dos jogos ajudou a aliviar as dores e colocou Adhemar em condições de disputar o salto triplo. Naquele dia 27 de novembro, Adhemar venceu a dor de dente, os duros rivais Kreyer e Einarsson, e garantiu o inédito bicampeonato olímpico saltando 16,35 metros, novo recorde olímpico. Só tivemos novos bicampeões olímpicos brasileiros em 2004, nos Jogos em Atenas, quando os iatistas Torben Grael, Robert Scheidt, Marcelo Ferreira e os jogadores de vôlei Maurício e Giovanni conseguiram suas medalhas douradas pela segunda vez.

O último grande ato esportivo de Adhemar Ferreira da Silva aconteceu em 1959, nos Jogos Pan-americanos em Chicago, Estados Unidos, quando ele conquistou seu terceiro ouro consecutivo no salto triplo e se tornou o primeiro brasileiro tricampeão na modalidade. Além dos títulos já citados, Da Silva foi também 5 vezes campeão sul-americano e 10 vezes campeão brasileiro. A brilhante carreira é homenageada até hoje pelo São Paulo Futebol Clube. Acima do escudo da agremiação, há duas estrelas douradas que representam os recordes mundiais e as conquistas olímpicas de Adhemar em 1952 e 1956. Ele encerra a sua carreira de forma discreta em 1960, nas Olímpiadas em Roma, na Itália, não se classificando à final.

Após as conquistas esportivas, Adhemar Ferreira da Silva adicionou outros títulos à sua coleção. Além do curso de escultor, formado em 1948 pela Escola Técnica Federal de São Paulo, ele graduou-se em Educação Física, na Escola do Exército, Direito, na Universidade do Brasil, e Relações Pública, na Cásper Líbero. Principalmente por ser poliglota, entre 1964 e 1967, foi adido cultural na Embaixada Brasileira em Lagos, na Nigéria. Adhemar também foi ator, locutor e jornalista. Ele faleceu no dia 12 de janeiro de 2001 em São Paulo.

Sobre o Alma Preta

O Alma Preta é uma agência de jornalismo especializado na temática racial do Brasil. Em nosso conteúdo você encontra reportagens, coberturas, colunas, análises, produções audiovisuais, ilustrações e divulgação de eventos da comunidade afro-brasileira. Nosso objetivo é construir um novo formato de gestão de processos, pessoas e recursos através do jornalismo qualificado e independente.

Contato

E-mail
jornalismoalmapreta(@)gmail.com