Texto: Pedro Borges / Edição de Imagem: Pedro Borges


Malcolm X, será que você estava no Harlem? Fiquei confuso. Você disse que lá, para sobreviver, teve que vender drogas. Lá, você disse ter visto a prostituição de muito perto. Tem certeza que foi lá onde você viu jovens negros serem assassinados pela polícia?

Você deve ter se confundido. Ou eu estou lá? Ou você esteve, ou ainda está aqui? Pensei que você me contaria uma história passada, de um país distante. Mas você disse que lá, a polícia também para e humilha os jovens negros. E que lá, a desculpa é a mesma, a da guerra às drogas. Será que você me viu? Talvez nos conheçamos.

É que eu já vi coisas parecidas com as quais você diz ter visto. Já vi as drogas aniquilarem, muito mais do que alguém da minha idade merecia ter visto. Já senti também, amigo Malcolm X, as armas matarem. Dói, né? Malcolm X, estou confuso. Será que você está aqui? Ou será que se foi, como um dos 83 jovens negros que se vão todos os dias? Será que somos amigos? Não sei. Talvez sim. Mas vou seguir seu caminho. Quem sabe não nos encontremos.

Texto:Pedro Borges / Edição de Imagem:Pedro Borges / Foto:Taba Benedicto/FuturaPress/EstadãoConteúdo

De acordo com a nota, estudantes brancos se autodeclararam negros para obter vantagens no vestibular da UFES

O Coletivo Negrada, grupo de estudantes negros da Universidade Federal do Espírito Santo, UFES, apresentou denúncia ao Ministério Público Federal e ao Ministério Público do Espírito Santo com relação a estudantes que teriam fraudado o sistema de cotas para o vestibular de 2016.

Mirtes Santos, militante do movimento negro, estudante de posgraduação da UFES e integrante do Negrada explica a acusação. “Tendo em vista os casos recorrentes de racismo na UFES, o Negrada criou um Centro de Apoio para Denúncias de Racismo, que funciona no NPJ - Núcleo de Práticas Jurídicas, e que desde o ano passado vem recebendo denúncias de fraudes nas cotas raciais, porém, nesse ano com a divulgação do resultado final do vestibular 2016, chegaram muitas denúncias, principalmente entre os cursos mais concorridos e resolvemos mandar direto para o Ministerio Público, afim de impedir que essas pessoas ocupem vagas que não são suas por direito”. O documento publicado ainda destaca que as farsas aconteceram nos cursos mais elitizados, onde há uma infíma quantidade de negras e negros, como medicina, odontologia e psicologia.

“Enquanto pessoas não negras estão se autodeclarando e usurpando o direito alheio, muitos estudantes negros estão perdendo suas vagas nas universidades para brancos”, destaca Mirtes.

O Ministério Público do Distrito Federal fez uma ação civil contra o adultério na autodeclaração para o concurso do Ministério das Relações Exteriores, assim como agiu o Supremo Tribunal Federal (STF) para avaliar o julgamento do sistema de cotas na Universidade de Brasília (UnB). Em ambos os casos, ficou entendido ser constitucional a análise de traços físicos como forma de identificar negros e não negros.

Segundo o texto da ação divulgado na época, “Nota-se, da simples análise das fotos, que esses candidatos não têm a aparência física das pessoas negras. Não se imagina que possam, na interação social, considerado o comportamento habitual da sociedade brasileira, ser alvos de preconceito e discriminação raciais em razão da cor da pele que ostentam”.

Fora racismo Cotas Ja
Patrícia Silveira, advogada e presidente da Comissão da Igualdade Racial da OAB-ES, pensa que o entrave reside na falta de fiscalização do processo. “A fraude no sistema de cotas é um problema existente por força da ausência dessa fiscalização e/ou acompanhamento por parte das instituições de ensino. Por tal razão, achamos necessário que as faculdades e universidades criem uma forma de fiscalizar, principalmente por ser, a declaração falsa, crime previsto na legislação penal no artigo 299”.

Burlar a autodeclaração e o sistema de cotas é visto pela lei como crime de falsidade ideológica. O artigo 299 do Código Penal prevê pena de um a cinco anos e multa ao criminoso. Para a legislação, falsidade ideológica é: “Omitir, em documento público ou particular, declaração que dele devia constar, ou nele inserir ou fazer inserir declaração falsa ou diversa da que devia ser escrita, com o fim de prejudicar direito, criar obrigação ou alterar a verdade sobre fato juridicamente relevante”.

O Coletivo Negrada fez então uma série de exigências à Universidade Federal do Espírito Santo, como o recebimento das denúncias, a suspensão do resultado final do vestibular até os devidos cotistas ingressarem, bem como a responsabilização civil e criminal dos fraudadores. Para Mirts Sants, há a expectativa “de que o Ministério Público faça as devidas apurações das denuncias e dê andamento ao caso, que a UFES crie a Comissão Permanente de Análise dos cotistas pois faz-se necessária de maneira urgente a fiscalização da lei de cotas para evitar as fraudes que tem ocorrido cada vez mais”.

A militante do movimento negro entende que essa é uma realidade de todas as universidades brasileiras que adotaram o sistema de cotas, por isso, faz um apelo para que todos os estudantes negros no país fiscalizem quem está ingressando nessas instituições de ensino. “Nosso receio é que com a brecha da lei de cotas os verdadeiros estudantes negros continuem sendo impedidos de acessar o ensino superior, enquanto que pessoas não negras estão se autodeclarando e fraudando a garantia desse direito”

Veja o documento completo exposto pelo Coletivo Negrada.

Texto: Feira Preta / Imagem: Feira Preta

 Em sua terceira edição, bloco leva cultura negra para as ruas com marchinha homenageando o multi-artista e produtor negro Paqüera, presidente do Samba da Vela

O bloco Rolezinho das Crioulas está pronto para ocupar mais uma vez as ruas da Vila Madalena com muito samba de exaltação à cultura negra. Em sua terceira edição, no dia 31 de janeiro, o bloco vai homenagear José Alfredo Gonçalves, conhecido como Paqüera, multi-artista e produtor que tem sua história marcada por passagens em diferentes atividades artísticas e militantes. A concentração do bloco será a partir das 12h, no Jongo Reverendo, na Rua Inácio Pereira da Rocha, 170, esquina com a Rua Fradique Coutinho. A saída está prevista para 14h.

“A Vila Madalena se tornou um importante pólo cultural paulistano e tem aberto cada vez mais espaço para manifestações carnavalescas. O Rolezinho das Crioulas surgiu para ocupar as ruas com a estética e cultura negra, inspirado nos movimentos de ocupação da juventude negra em espaços privados”, comenta Adriana Barbosa, uma das idealizadoras do bloco e também da Feira Preta, considerado o maior evento de cultura negra da América Latina.

O bloco, que será puxado por diversos músicos e percussionistas, inclusive de grupos consagrados como sambistas do Samba da Vela, Samba da Laje e do grupo Samba D’Elas, vai entoar pelas ruas da Vila o samba “Do Zé Alfredo aos Paqüeras”, vencedor do primeiro concurso de marchinhas realizado pela Comunidade Samba da Vela. Diversos autores atenderam ao chamado da organização do bloco para homenagear José Alfredo Gonçalves, o Paqüera, multi-artista que dedicou a vida ao samba, à exaltação e fortalecimento da cultura negra em diferentes iniciativas, como o Samba da Vela, a Feira Preta, a Primavera Preta, Kultafro, entre outras.

“Cada compositor tem um infinito dentro de si e, neste caso, todos os participantes foram influenciados pelo Paqüera. Recebemos belas homenagens a ele”, comenta Caio Prado, um dos colaboradores do concurso de marchinhas. Luiz Paulo, da Kultafro e que conviveu com o homenageado, comenta que o bloco, idealizado também por Paqüera, foi uma conquista. “Seja pela ocupação das ruas com cultura negra, seja pelo ‘espírito original’ dos blocos de rua, que é brincar o carnaval num clima descontraído, alegre e familiar. Exatamente como desejava Paqüera”, complementa.

Mais uma vez, o Rolezinho das Crioulas tem a parceria do Jongo Reverendo, casa de espetáculos cravada no coração da Vila Madalena e que apresenta uma grande variedade de shows e atrações como o Samba de Roda, o Jongo, entre outras manifestações artísticas. “O bloco tem tudo a ver com o Jongo Reverendo, que abriga e realiza diversas atividades que fortaleçam a ancestralidade negra dialogando com um público negro plural, jovem, feliz e afirmativo”, afirma Adriana Carvalhaes, proprietária do Jongo Reverendo.

Serviço:

Bloco Rolezinho das Crioulas

Quando: 31 de janeiro de 2016
Onde: Rua Inácio Pereira da Rocha, 170, esquina com a rua Fradique Coutinho, Vila Madalena, em frente ao Jongo Reverendo
Horário: Concentração a partir das 12h. Saída às 14h.
Preço: Gratuito

Sobre o Alma Preta

O Alma Preta é uma agência de jornalismo especializado na temática racial do Brasil. Em nosso conteúdo você encontra reportagens, coberturas, colunas, análises, produções audiovisuais, ilustrações e divulgação de eventos da comunidade afro-brasileira. Nosso objetivo é construir um novo formato de gestão de processos, pessoas e recursos através do jornalismo qualificado e independente.

Contato

E-mail
jornalismoalmapreta(@)gmail.com

Mais Lidos