Texto: João Victor Belline / Ilustração: Moska Santana

A saga dos Pretos Novos explora o cenário escravagista brasileiro

No bairro da Gamboa, Rio de Janeiro, o casal Guimarães teve a sua rotina alterada naquele dia. Há tempos Petrúcio e Ana Maria queriam reformar sua casa e naquele ano de 1996 eles finalmente conseguiram. Eles não imaginavam o tamanho da descoberta que aconteceria naquele espaço.

Entre enxadas e pás, os pedreiros encontraram mais que o esperado ao preparar o solo para a concretagem. Algo mais do que o chão era quebrado, apareciam ossos humanos juntos à terra revolvida, cada vez que uma pá atingia o solo. Os Guimarães se assustaram e acionaram a Prefeitura do Rio.

Foi um rebuliço quando as autoridades foram conferir o que estava acontecendo ali na Rua Pedro Ernesto, número 36. Após diversas análises de arqueólogos e historiadores já não restavam mais dúvidas: aquele era o Cemitério dos Pretos Novos, do qual há muito se havia perdido a localização.

O Cemitério foi criado originalmente em 1722 e remonta ao histórico de sepultamentos de escravos no Rio de Janeiro. Naquele momento, havia uma demanda de enterros de escravos que não conseguia ser cumprida, tendo em vista o incremento do tráfico negreiro, cada vez mais intenso. Para solucionar o problema, foi criado um cemitério somente de pretos novos, alcunha utilizada para caracterizar os escravos recém chegados.

A necrópole foi instalada no Largo da Igreja de Santa Rita a princípio e depois tranferido em 1769 para o Valongo, no antigo Caminho do Cemitério. Tal local era destinado ao sepultamento de escravos africanos recém-chegados no porto do Rio de Janeiro, do século XVIII ao século XIX. Os sepultamentos eram precariamente realizados, amontoavam-se os corpos no centro do terreno e por lá eles permaneciam até que fossem enterrados e, posteriormente, queimados. De acordo com o Livro de Óbitos de Santa Rita, no Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro, no período de 1824 a 1830, últimos seis anos de funcionamento do cemitério, foram sepultados 6.122 pretos novos, sendo 60% homens, 30% mulheres e 10% jovens e crianças.

tumbeiro info cemiterio dos pretos novos INFO *O termo ladino se refere ao escravo já adaptado ao Brasil (Fonte: Museu dos Pretos Novos)

Depois do achado, o local foi estabelecido como sítio arqueológico e histórico e várias pesquisas foram realizadas para tentar encontrar mais informações sobre os escravos recém chegados ao Brasil. Foram encontrados diversos artefatos de ferro, comprovando a capacidade dos africanos com relação à produção de metalurgia. Além destes, contas de vidro, artefatos de barro, argolas, colares, porcelanas e conchas também foram encontrados.

Não só aspectos da vida material africana foram desvelados, mas os próprios ossos dos escravos analisados a fim de que se pudesse verificar quem eram os sepultados ali. Foi realizado o salvamento de 28 ossadas, a maioria de jovens do sexo masculino com idade estimada entre 18 e 25 anos, assim como adolescentes entre 12 e 18 anos e crianças entre 3 e 10 anos. A análise do universo de 5.563 fragmentos indicou que muitos ossos apresentavam marcas de queimação, ou seja, foram queimados após a descarnação. O que confirma o relato.

No local que fora descoberto o Cemitério dos Pretos Novos foi criado no dia 13 de maio de 2005 o Instituto de Pesquisa e Memória Pretos Novos. O instituto tem por finalidade propor reflexões e estimular projetos educativos e de pesquisa para a preservação da memória interligada aos acontecimentos relacionados ao período da escravidão legal, com seus desdobramentos nos dias atuais.

No IPN são confeccionadas publicações impressas e em outras mídias para promover o entendimento das circunstâncias e das questões sociais resultantes da escravidão. Razão pela qual promove eventos diversos, tais como ciclos de palestras, cursos, simpósios, seminários, fóruns e exposições. Ele é mantido, em grande parte, pelo esforço do casal Guimarães auxiliado pelo trabalho de voluntários de diversos segmentos da sociedade civil identificados com os ideais da promoção da igualdade racial e social do Brasil.

tumbeiro linha do tempo
O Rio de Janeiro é um dos mais importantes cenários para contextualizar a maior diáspora humana conhecida. Em âmbito nacional, o Rio foi a capital da empresa escravagista, já que seus portos receberam cerca de metade dos escravos trazidos para a América portuguesa. Foram cerca de 10 milhões de negros escravizados chegando às Américas e, destes, aproximadamente 6 milhões vieram ao Brasil. Dos africanos que vieram, 60% foram enviados para a Região Sudeste.

Com a Organização das Nações Unidas proclamando o período de 2015 a 2024 como a Década Internacional do Afrodescendente, a necessidade de resgate desta história é ainda mais evidenciado. É preciso apoiar-se nos pilares “reconhecimento, justiça e desenvolvimento”, propostos pela ONU, e reconhecer todo o trabalho realizado pelos afrodescendentes nas sociedades e propor medidas para promover a sua inclusão social e erradicar o racismo ou qualquer intolerância relacionada.

Texto: Pedro Borges / Edição de Imagem: Vinicius Martins

Edgar Nascimento teve a melhor nota média no curso de Engenharia Mecânica

“O percurso até minha formação foi muito difícil, mas eu sempre me dedicava em todas as matérias. Trabalhar de dia e estudar a noite realmente não é fácil”. Edgar Nascimento, 23 anos, morador do Jardim Helena, Zona Leste de São Paulo, é agora engenheiro mecânico formado pela Universidade Cruzeiro do Sul.

Edgar tinha o sonho de entrar na Escola Preparatória de Cadetes do Exército. E foi durante os estudos para seguir carreira militar, que o jovem descobriu algo novo, o carinho e a aptidão com os números. O grande tempo dedicado foi a medida necessária para o estudante ingressar no curso de Engenharia Mecânica pelo sistema de cotas via ProUni, na Universidade Cruzeiro do Sul no ano de 2010.

Apesar das dificuldades durante o curso, como a necessidade de trabalhar, Edgar se sobressaiu na turma desde o início. “No meu primeiro ano me destaquei e fui convidado pelos professores a ministrar monitorias para os alunos que tinham dificuldades. E assim foram os cinco anos de estudos, finais de semana estudando para as provas e noites em claros fazendo trabalhos”.

Mesmo com o Prouni e o sistema de cotas, a quantidade de estudantes negros na sala de aula e mesmo nos demais cursos era ínfima. “Na minha turma no início éramos em quatro negros porém infelizmente apenas eu e mais um colega concluímos o curso”. Mesmo sem números exatos, o jovem engenheiro ressalta. “É visível que o número de negros estudantes na minha universidade é pequeno”.

IMG-20160228-WA0035Cotas e Fraudes
As cotas raciais nas universidades brasileiras entraram em vigor em 2003, com a iniciativa da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, UERJ. Desde então, uma luta é travada para que outras instituições de ensino superior adotem o sistema e aumentem a presença de afrodescendentes nas salas de aula.

A implementação da lei 12.711 no ano de 2012 obrigou todas as universidades e institutos federais a adotar o sistema. De acordo com os dados da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, SEPPIR, cerca de 150 mil jovens negros entraram nas universidades federais via cotas raciais. A medida vige também no Programa Universidade para Todos, ProUni, e no Fundo de Financiamento Estudantil, FIES, fatores que propiciaram o aumento significativo de pretos e pardos nas instituições de ensino superior. O Ministério da Educação, MEC, apresenta também que tanto no FIES, (50,07%), quanto no ProUni (52,10%), a maior parcela dos beneficiários é composta por negros.

Para Edgar, as cotas são fundamentais para um país como o Brasil, marcado pelo racismo desde a criação do seu Estado. “A política de cotas é muito importante. O país tem uma extensão territorial gigantesca e existem muitos negros que não têm a oportunidade de ingressar em diversas carreiras”. Ele ainda completa que, “se a cota existe é porque de certa forma não tem igualdade”.

Em universidades elitistas, como as estaduais paulistas, a porcentagem de estudantes negros é ínfima. Dos 10 cursos mais disputados para o vestibular da USP de 2015, enquanto 74,7% dos ingressantes eram brancos, 18,3% eram negros. Destes, somente 3,5% eram pretos.

Mesmo diante dessa realidade e da importância das cotas para que mais negros ocupem os espaços públicos, muitas são as denúncias de fraude no Brasil. No Espírito Santo, o Coletivo Negrada fez denúncia ao Ministério Público Federal por conta da falsa autodeclaração de estudantes brancos.

Sobre isso, Edgar pensa que a maior fiscalização é uma possível saída. “A definição de cor ainda é por autodeclaração e isso abre margem para muitas fraudes. Pessoas que se sentem no direito de tirar uma vaga, que por uma dívida histórica pertence a uma pessoa negra. Esses casos devem ser mais investigados e divulgados. Não só fraudes em universidades, mas também em concursos públicos”.

Texto: Pedro Borges / Foto: Pedro Borges

Evento teve a presença de representantes da prefeitura, moradores da região e militantes do movimento negro


No dia 5 de março, sábado, a sede de Itaquera do Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo, APEOESP, recebeu grande público para discutir, “Negrxs, Política e Poder no país da tal democracia racial: o que fazer?”.

Os convidados para incitar a conversa foram o professor da USP, Dennis de Oliveira, e a articuladora da campanha contra a redução da maioridade penal #15contra16, Gabriela Vallim. A mediadora da conversa foi a professora de História, Cidinha Freitas, e o organizador do evento, o blogueiro da Carta Capital e militante da UneAfro, Douglas Belchior.

A primeira etapa foi avaliada como um sucesso. Douglas recorda a presença massiva de negras e negros e o alto número de pessoas que foram ao encontro, mesmo em um sábado à tarde. Ele também destaca a participação de Dennis de Oliveira e Gabriela Vallim. “Os convidados foram incríveis. O professor Dennis fazendo um recorte mais histórico e trazendo à tona a importância do avanço da organização política da população negra. Por outro lado, a Gabriela trazendo todas as demandas próprias da juventude, próprias desse momento maluco que a gente vive por causa da confusão ideológica, da disputa das mentalidades”.

Dennis de Oliveira trouxe uma importante perspectiva histórica para explicar o porquê da população negra estar distante dos espaços de poder. Para ele, é impossível discutir racismo, um sofisticado mecanismo de opressão, e mudança social sem o entendimento da história, economia e política.

Para o professor da USP, o Estado brasileiro se constrói a partir de três grandes pilares. “É um Estado que se conforma com o processo de concentração de renda e patrimônio. O segundo pilar é a concepção restrita de cidadania. E o terceiro pilar é um Estado que se conforma com a violência como prática política central. O racismo surge então como ideologia para definir quem tem e quem não tem o patrimônio, quem é cidadão e quem não é cidadão e quem é o autor e a vítima da violência”.

Gabriela Vallim, também articuladora do programa Juventude Viva do governo federal, trouxe para a roda as experiências e dificuldades enfrentadas pela juventude negra no dia-a-dia. Mais do que isso, a jovem ressalta a importância do debate acontecer na periferia e destaca como o encontro foi recebido pela comunidade local. “Foi muito emocionante participar da atividade por ver o quão sedenta as pessoas estavam por um espaço onde elas se sentissem representadas, onde elas tivessem voz e onde elas pudessem compartilhar as suas ideias. Eu recebi muitas mensagens, das pessoas felizes por esse tipo de iniciativa aqui, no local onde elas moram”.

Neomisia Silvestre, organizadora da Marcha do Orgulho Crespo, é também moradora da Zona Leste e reforça a tese de que momentos como esse são fundamentais. “Encontros que partem de nós para nós são fundamentais para que possamos nos fortalecer. Saio dessas trocas/discussões muito esperançosa de que não estamos sozinhos e/ou estagnados, mas sim avançando na luta, ainda que diante de muitos episódios de retrocesso no que diz respeito ao negro no Brasil”.

Para o organizador da atividade, Douglas Belchior, o primeiro objetivo do projeto foi atingido no sábado, que é o de mobilizar as pessoas para debater formas de atuação coletiva contra o racismo estrutural. A segunda meta é a publicação, ao final do ano, de um livro com os artigos dos integrantes de cada mesa. “Com os nossos convidados escrevendo as suas impressões, transformaremos isso em texto e ao final desse ciclo de rodas de conversa, daqui 8, 10 meses, temos a meta de lançar uma publicação que traga esse registro para a eternidade”.

A próxima etapa deve acontecer no mês seguinte, na Zona Norte de São Paulo. O tema será o mesmo: Negrxs, Política e Poder no país da tal democracia racial: O que fazer?

Confira as entrevistas em áudio:

 Douglas Belchior

 

Dennis de Oliveira:


Gabriela Vallim:

 

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