Texto: Pedro Borges / Foto: Pedro Borges / Áudio: Pedro Borges

Encontro de estudantes da Uneafro contou com a presença do ator Lázaro Ramos

Mais de 600 jovens se reuniram no Céu Jambeiro, Guaianazes, zona leste de São Paulo, para participar da atividade organizada pela Uneafro, “Por uma Democracia de Verdade”. O evento tinha o intuito de discutir a conjuntura atual e o papel político da juventude negra.

A programação contou com uma série de atividades, desde apresentações musicais, roda de capoeira, sarau, conversa com as Mães de Maio e o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto, MTST, até a participação especial de Lázaro Ramos.

Sobre o evento, o ator pensa que “é importantíssimo conversar com a juventude, entender o que eles estão pensando, sentindo, quais são as novas propostas de mundo que eles trazem. Para mim, mais importante do que falar aqui, foi escutar”.

Ator Lázaro Ramos se emociona ao falar sobre o genocídio da juventude negra Ator Lázaro Ramos se emociona ao falar sobre o genocídio da juventude negra

Douglas Belchior, militante da Uneafro e um dos organizadores da atividade, explica que o debate serviu para conversar sobre o momento político vivido pelo país. Foi posta a necessidade de se opor ao golpe articulado pela direita, assim como criticar as decisões tomadas pelo governo do Partido dos Trabalhadores. “Infelizmente a gente não tem visto isso desse governo, que tem adotado a pauta da direita, a pauta dos inimigos. O golpe vai ser dos pretos contra os racistas, contra as elites, não o contrário. Os trabalhadores, as periferias, negros e negras, os LGBTs, todo esse povo que sofreu a margem tem que se organizar e promover um golpe contra a direita reacionária e racista”.

O trabalho do cursinho popular de formação permanente dos jovens de periferia foi destacado por todos que participaram do encontro, algo que parte da esquerda brasileira abandonou no último período, de acordo com Douglas. “Nosso trabalho é para que os jovens de periferia entrem na universidade e se mantenham periféricos, se mantenham negros. Que mudem a universidade e a tornem o que ela deveria ser por natureza, um lugar diverso, que coloque a sua estrutura para mudar a sociedade e não manter a estrutura”.

A Uneafro tem 42 núcleos espalhados pelo país, com a sua grande maioria localizado na Grande São Paulo. Destes, mais de 30 deles estiveram presentes na atividade de sábado. Sobre isso, Carol Fonseca, militante da organização, enaltece a oportunidade de conhecer melhor todos que fazem parte da organização. “Foi um espaço onde eu tive a oportunidade de olhar para cada pessoa que faz parte desse movimento, de ouvir, de abraçar, de expor aquilo que penso e de ver que não sou só eu, Carol, jovem negra e periférica, que acredita numa nova organização de sociedade”.

Evento3Gabriela Martins, estudante da Uneafro do núcleo Rosa Parks em São Matheus, reforçou o papel da formação de base e de momentos de união e troca de saberes entre a juventude negra. “Foi bacana, porque foi uma formação de base. Tem os núcleos e neles a gente já faz alguns debates nas formações, mas eu acredito que quando junta todo mundo, o pessoal acaba se conhecendo para fazer uma formação mais completa”.

Genocídio

Lázaro Ramos enfatizou o seu encanto com o posicionamento da juventude negra e dos movimentos autônomos de periferia. Ele acredita que a entrada na universidade e a vontade de falar por si têm construído momentos únicos, protagonizados por esse grupo social. “Quanto mais o tempo passa, mais as vozes tentam buscar o seu microfone para serem escutadas. E a periferia tem sido responsável por um movimento que me encanta muito. Quando eu vejo o movimento gay, o movimento negro, os movimentos sociais e com novo depoimento".

O seu grande porém a ser evidenciado foi o genocídio da juventude negra. De acordo com o Mapa da Violência 2015 – Mortes Matadas por Armas de Fogo, 5.058 jovens brancos e 17.120 jovens negros foram assinados por armas de fogo no país. Para ele, “a gente regride é na quantidade de assassinatos que tem acontecido com jovens de periferia. Isso é uma coisa que a gente tem que falar e denunciar o tempo todo. Esse é o grande pesar desse momento. Essa é a grande bandeira que a gente tem que levantar, manter o jovem negro vivo, manter o jovem da periferia vivo, porque o futuro está aí e eles têm muito a contribuir com o Brasil”.

O encontro foi construído desde o início de 2016 e contou com o apoio da Secretaria de Educação da cidade de São Paulo, do Céu Jambeiro e da Secretaria Municipal de Igualdade Racial, SMPIR-SP.

Confira na íntegra a entrevista com Lázaro Ramos:

Texto: Pedro Borges / Edição de Áudio: Pedro Borges / Foto: Vanderlei Yui e Marcelo Cavanha

Debate na USP ressalta a importância de entender o atual momento brasileiro como uma crise de cunho político e a necessidade de vislumbrar a saída pela esquerda preta

Professores, pesquisadores e militantes do movimento negro se reuniram na noite de 30 de março na Escola de Comunicação e Artes, ECA-USP, para discutir a atual crise política vivida no país. A atividade foi transmitida ao vivo pela IPTV USP e contou com a presença de grande público.

Tatiana de Oliveira, doutoranda pelo Programa Integração da América Latina, PROLAM, e integrante da rede Quilombação, foi a responsável por mediar a mesa, que contou com a presença de Rosane Borges, pós-doutoranda da ECA e colunista do Blog da Boitempo, Dennis de Oliveira, chefe do departamento de jornalismo da USP e membro da rede Quilombação, e Silvio de Almeida, professor do Mackenzie, da Universidade São Judas Tadeu e presidente do Instituto Luiz Gama.

O debate foi convocado com os seguintes intuitos: discutir o conturbado momento político brasileiro, entender quais os mecanismos têm sido utilizados para tentar legitimar o golpe de Estado e as consequências dele para a população brasileira, em especial ao povo negro.

Auditório da ECA ficou lotado para acompanhar o debate Auditório da ECA ficou lotado para acompanhar o debate

Dennis de Oliveira explica a confusão proposital que a mídia tem feito ao tentar associar o pedido de impeachment à operação Lava Jato. “Não tem nada a ver. O pedido está fundamentado na pedalada fiscal, que não é uma base jurídica para o impeachment. Só que da maneira que a mídia está cobrindo, essa confusão está sendo feita”.

O chefe do departamento de jornalismo da USP afirma que o projeto político lançado pelo PMDB “Uma Ponte para o Futuro” é o real interesse político em jogo. Nele, há inclusive uma proposta econômica neoliberal de corte de todos os benefícios sociais. “O projeto que vai ser implementado caso haja impeachment e o PMDB assuma o poder está sendo escondido por parte da mídia”.

É coisa de preta e preto sim!

O envolvimento político de negras e negros no atual debate é fundamental, porque o acirramento de uma investida neoliberal afetará de modo direto a população negra, de acordo com Silvio de Almeida. “Nós temos que nos envolver mais do que nunca, acho que talvez historicamente poucas vezes nós tenhamos tido primeiro a condição e segundo a urgência de participar de um debate como esse. É central a nossa participação”.

IMG_20160330_211144596 Da esquerda para a direita: Dennis de Oliveira, Silvio de Almeida, Tatiana Oliveira e Rosane Borges

A estrutura desigual da sociedade brasileira faz Rosane Borges ressaltar que, qualquer crise política com interferência na economia, recaia de maneira mais intensa sobre a comunidade negra e, em especial, as mulheres negras. “Do ponto de vista estrutural, tem uma extrema diferença. A desigualdade que vem afetando a população negra, as mulheres negras, é a crise que a gente tem que discutir e a gente tem que enfrentar”.

E a esquerda preta?

O posicionamento da esquerda negra é estratégico na medida em que os próprios movimentos de esquerda também excluíram o povo preto dos espaços de poder. Para Tatiana de Oliveira, em nome da desigualdade social, refutou-se as disparidades de raça. “O movimento negro foi muito importante para pautar essas políticas e para dizer sim, existe racismo. Na abertura democrática, o movimento negro participa do processo de constituinte e com muita força o movimento de mulheres negras vem lutando por políticas públicas que como a professora Rosane disse, não só fortalece a população negra, mas toda a população pobre”.

Muitos jovens participaram da atividade Muitos jovens participaram da atividade

Maria Carolina Farnezi, integrante da campanha #15contra16, acompanhou o debate e o classificou como excelente. “Ter uma mesa composta por militantes negros, pautando nossa vivência no meio desta crise é visibilizar uma esquerda que ainda tem as suas narrativas silenciadas”.

Tatiana pensa que a discussão acerca do tema é fundamental para que o debate não se limite a quem é contra ou favor do impeachment. “Essa discussão é extremamente importante neste momento, em que é colocada uma espécie de Fla-Flu, quem é contra, quem é a favor. Todo momento de crise é também uma oportunidade de reflexão”.

Confira as entrevistas em áudio com todos os membros da mesa:

 

 

 

Texto: Pedro Borges / Edição de Imagem: Pedro Borges

Nomes consagrados da luta anti-racista têm presença confirmada no EECUN

O Encontro nacional de Estudantes e Coletivos Universitários Negros, EECUN, será realizado entre os dias 13, 14 e 15 de maio, na Universidade Federal do Rio de Janeiro, UFRJ. A programação completa está definida e os interessados podem conferir as mesas e as atividades culturais no site oficial do encontro. Nele também é possível fazer a inscrição para o evento e para a apresentação de trabalhos acadêmicos.

Marcell Machado, estudante de Ciências Sociais da UFRJ, pensa que confirmar a programação do EECUN é caminhar para a consolidação de um momento frutífero para a juventude negra. “O cronograma do evento afasta qualquer receio que ainda possa existir na cabeça de irmãs e irmãos de que o evento possa não acontecer. A divulgação da programação é o resultado visível de um processo de construção que já se desenrola há um longo tempo”.

Os convidados a compor as mesas serão divulgados aos poucos na página do Encontro no Facebook. De momento, referências nacionais no combate ao racismo já estão confirmadas, como Mãe Beata, Silvio de Almeida, Jaqueline Gomes, Frei David e Juarez Xavier.

Professor David - eecun Os princípios do EECUN foram construídos a partir de um longo processo de discussão

Todas as atividades foram pensadas a partir dos princípios que definem o EECUN, que são a afrocentricidade, a suprapartidariedade e a autonomia política e financeira, além do enfrentamento a todas as opressões, racismo, machismo, LGBTfobia, entre outras. Danilo Lima, estudante de Ciências Sociais da Universidade Federal de São Carlos, UFSCar, pontua que os “princípios são o resultado da construção coletiva a partir do acúmulo das experiências vivenciadas pela juventude negra brasileira na luta contra o racismo”.

A violência latente e estrutural contra o povo negro faz Mirts Sants, estudante de letras da Universidade Federal do Espírito Santo, UFES, ressaltar a sua expectativa sobre o encontro. “O EECUN é um momento de extrema importância para a participação autônoma da juventude negra, que deseja uma verdadeira transformação social para a nossa geração, e que se faz necessária e urgente, enaltecendo acima de tudo a pauta do povo negro, em especial da juventude negra e suas subjetividades”.

Mais do que o histórico genocídio contra a comunidade negra, o encontro acontece em um momento de debate sobre a política de cotas no país. Miriam Alves, estudante de pedagogia da Universidade Federal de Minas Gerais, UFMG, questiona a eficácia da lei 12.711/2012. Para ela, a legislação tem caráter restritivo, gera maior competição entre os grupos historicamente marginalizados e tem beneficiado alunos de institutos técnicos e federais, onde a qualidade do ensino é superior.

De qualquer maneira, Miriam reconhece a importância das cotas e a necessidade de rediscutir o seu formato. “Não significa que a política de cotas em si é um retrocesso, pelo contrário, é uma importante pauta política para reparação sócio/racial no Brasil. São inegáveis as conquistas nos últimos 10 anos, na inserção de negros nas universidades, que saltaram de 1,2% para 7,6% dos alunos”.

São Carlos - histórico Reunião em São Carlos reuniu coletivos negros de diferentes regiões do país

A autodeclaração tem sido outro problema existente acerca das cotas. Diversas denúncias têm sido feitas nos vestibulares e em concursos públicos devido à possibilidade de utilizar a autodeclaração como direito incontestável. No Brasil, são muitos os casos de vestibulandos brancos que se definem enquanto pardos ou pretos para ingressar na universidade via sistema de cotas.

Em 2015, o Ministério Público do Distrito Federal fez uma ação civil pública contra o adultério na autodeclaração para um concurso do Ministério das Relações Exteriores. De acordo com a nota emitida sobre o caso, o Supremo Tribunal Federal considerou como constitucional a análise de traços físicos dos concorrentes como forma de garantir o ingresso de afrodescendentes nesses espaços.

Neste ano, o Coletivo Negrada do Espírito Santo fez uma denúncia ao Ministério Público sobre as fraudes no vestibular da UFES. Para Mirts Sants, o EECUN será um excelente espaço para a discussão sobre como superar esse problema. “Por conta do racismo estrutural e social, muitas vezes irmãs e irmãos não estão se declarando negros para fazer jus ao direito às cotas. Enquanto isso, não-negros veem nesse critério a abertura para se autodeclarar e também ocupar as vagas destinadas aos PPI - pretos, pardos e indígenas”.

Movimento Negro

A maior entrada de estudantes negros na universidade é reflexo da luta histórica do movimento negro. É a partir dessa realidade que surgem os coletivos e as diferentes organizações dentro do espaço universitário.

O Encontro seria então uma forma de potencializar a atuação política do movimento dentro da universidade. Danilo Lima pensa que “são necessários momentos como o do EECUN de contato, reflexão, debate e convergência de ideias para formar novas lideranças sintonizadas com o momento histórico que vivemos, capazes de responder às demandas que temos”.

Coletivos negros2 O EECUN propõe um novo formato de militância negra dentro das universidades

Miriam Alves destaca a diferente atuação política proposta pela executiva nacional, algo distinto do formato consolidado pelo movimento estudantil. “O EECUN, para além de uma entidade estudantil, é composto por militantes e coletivos negros, que dialoga de forma intrínseca às demandas de nosso povo. Somos um entre os vários movimentos negros, que tem por objetivo comum o combate ao racismo, ao espistemicidio e genocídio, visando um projeto político preto, a partir de diálogos multi-setoriais”.

Histórico

No início dos anos 1990, aconteceu o Seminário Nacional de Universitários Negros, SENUN. Em homenagem e como forma de reconhecer a trajetória do movimento, o EECUN faz questão de recordar o SENUN como um importante acontecimento para a juventude negra.

A partir dessa lembrança e do maior ingresso de estudantes negros na Universidade, começaram as discussões acerca da construção de um Encontro nacional, autônomo e disposto a debater as necessidades da população negra, em especial da juventude, dentro e fora do espaço universitário.

A primeira proposta foi de construir o encontro, em maio de 2014, na Universidade Federal de São Carlos devido à condição da UFSCar de vanguarda no debate sobre as políticas afirmativas no Brasil.

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As inúmeras barreiras impostas pela entidade fizeram com que outras saídas fossem tomadas. “As instituições, assim como as pessoas, infelizmente, podem ser incoerentes e cometer retrocessos. Desde quando iniciamos o dialogo em 2013 pudemos verificar isso”, lembra Danilo Lima.

Em outubro de 2015, uma nova reunião foi realizada em Belo Horizonte, na Ocupação Izidora. Lá, ficou decidido que o EECUN acontecerá no Rio de Janeiro, na UFRJ, entre os dias 13, 14 e 15 de maio.

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Site

A executiva nacional contou com o apoio do Kilombagem, organização do movimento negro de São Paulo, para a construção do seu portal. Nele, estão todas as informações sobre o encontro, o seu histórico e os procedimentos para participar.

No endereço virtual do EECUN estão disponíveis todos os manifestos e princípios da executiva nacional. A comissão organizadora também divulgará no espaço textos opinativos sobre a conjuntura do país a partir dos seus fundamentos.

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