Texto: Pedro Borges / Edição de Imagem: Pedro Borges

Formação online sobre feminismo negro será dividida em quatro módulos

O Coletivo Di jejê oferece um curso online sobre o histórico do feminismo negro no Brasil. Os encontros virtuais começam a partir do dia 28 de junho e se estendem até 3 de julho. O número de vagas é de 30 pessoas e todos inscritos receberão um certificado ao final das aulas.

A programação está dividida em quatro módulos. Enquanto a primeira conversa propõe a reflexão “O que é ser mulher negra?”, o segundo debate coloca em pauta a pergunta “Por que um feminismo negro?”. O terceiro questionamento suscita a discussão “Movimento Nacional de Mulheres Negras: as demandas das mulheres negras ou as mulheres negras demandam?”. O último momento apresenta os “princípios epistemológicos do feminismo negro no Brasil”.

Jaqueline Conceição é especialista em Angela Davis

Jaqueline Conceição, organizadora da atividade e integrante do Coletivo Di jejê, explica o porquê da escolha de oferecer uma formação online sobre o tema. “Nós estamos trabalhando com os cursos desde Dezembro do ano passado, e a demanda tem aumentado bastante. Desde a última edição do curso Capitalismo e Racismo, recebemos muitas mensagens de pessoas de vários lugares do país solicitando a possibilidade de acessar nossas aulas. Então, decidimos fazer uma versão online, estruturada numa plataforma e-learning”.

O Coletivo Di jejê apresenta cursos teóricos com regularidade na cidade de São Paulo. A primeira vez de maneira online não significa mudança no conteúdo compartilhado, apenas alteração na forma de apresenta-lo, explica Jaqueline. “A diferença é a metodologia utilizada. O ambiente virtual de aprendizagem requer estratégias de ensino adequadas para essa modalidade educativa”.

Ela ressalta a importância de discutir o feminismo negro no momento de abertura e debate acerca da demanda das mulheres negras, dentro e fora da universidade. “Quanto mais ele se preocupa em se voltar para seu objeto de estudo e analise (a mulher negra) em seu locus por excelência (a periferia), mais assertivo e combativo ele se torna, conseguindo apontar perspectivas de luta e libertação. Não temos dúvida que a revolução será preta, feminista e de quebrada”.

Serviço:

Inscrições e pagamento para a participação no curso.

Valor: 80,00

Evento no Facebook com mais detalhes.

Mais informações: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo. 11 9 44681000

Forma como seu país foi retratado em reportagem incomodou grupo de haitianos

Texto: Solon Neto / Edição de Imagem: Solon Neto

No último dia 08/06, durante a transmissão do jogo Brasil x Haiti, a Rede Globo exibiu reportagem de uma viagem de Luciano Huck ao Haiti. No vídeo, imagens de miséria e degradação são exibidas e retratam um cenário desolador.

Indignados com a forma que seu país fora retratado, um grupo de seis haitianos, moradores de Curitiba-PR, resolveu gravar uma resposta ao apresentador.

No vídeo, Alinx Daniel, Apollon Mardochée, Compére Jerson, Esdras Hector, Marthatias Barthelus e Sony Sylvelus dizem que a forma como seu país de origem foi retratada prejudica os haitianos e é uma visão parcial, pois mostra apenas uma bairro, o Cite Soleil. Na gravação, eles afirmam que o Haiti voltou a ser um dos destinos mais procurados do Caribe, e que material pode atrapalhar o país.

Sony Sylvelus vive há 3 anos no Brasil, e falou ao Alma Preta sobre o caso. Sony tem formação na área de Tecnologia da Informação, área em que trabalha no Brasil. Cursando sua segunda graduação, o haitiano está se formando em Análise de Sistemas. Sony afirmou que ele e seus amigos gravaram o vídeo “para poder deplorar a triste maneira de mostrar nosso país”. Segundo ele, as imagens do bairro mais pobre do Caribe, Cite Soleil, deturpam a imagem do Haiti, afinal “qualquer pais do mundo tem miséria , pobreza, insegurança”.

O profissional de TI ficou indignado ao ver como seu país fora diminuído. “Se no caso, uma imprensa estrangeira vir aqui e depois fazer uma reportagem sobre Brasil mostrando apenas o lado feio do Brasil, você concordaria com eles?”.

O racismo no Brasil costuma afetar também estrangeiros negros. Sony afirma que conhece muita gente que sofre com racismo no país, mas diz que nunca sofreu com o problema. Quando perguntado se o Brasil é racista, ele respondeu “Até o brasileiro sabe que o Brasil é racista”.

Assista o vídeo abaixo: 

Texto: Pedro Borges / Fotos: Pedro Borges e Thales de Lima

Para estudantes de medicina, a resposta é simples: a Casa Grande não se conforma em dividir o mesmo espaço com negras e negros

No dia 9 de junho, quinta-feira, no Hospital Universitário Pedro Ernesto, o evento “A Casa Grande surta quando a Senzala vira médica?” pintou de preto nas mais diferentes tonalidades o anfiteatro Ney Palmeiro. A programação coloriu a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), como em poucos momentos na história da instituição.

A atividade, organizada pelo Coletivo Negrex e a Frente pela Democracia da Faculdade de Medicina, colocou em pauta o racismo dentro da formação médica e na atuação do profissional de saúde.

O Negrex é uma organização nacional de estudantes negros de medicina que recebe denúncias de discriminação racial dentro das universidades e promove eventos para enfrentar o racismo dentro das faculdades médicas.

O evento

Às 9h, as movimentações tiveram início com apresentação musical da sambista Julia Rocha. As canções, com referências negras sobre o combate ao racismo, foram o aquecimento para a primeira mesa: “Racismo de Estado na Sociedade Brasileira e Estratégias de Resistência: as cotas raciais em questão”.

Thaise Matos, formada pela Universidade Federal Fluminense (UFF-RJ) e professora da UERJ, foi a mediadora da conversa. Foi ela a responsável por apresentar os dois convidados, Vantuil Pereira e Tarcilia do Nascimento. Thaise é também uma das poucas professoras negras de medicina no Brasil, fator muito representativo para todas e todos presentes.

Vantuil Pereira, professor do curso de Relações Internacionais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), destacou o racismo enquanto problema estrutural da sociedade brasileira e enfatizou o perigo do momento político atual do país. O avanço da agenda conservadora e a postura de Michel Temer são alertas, inclusive, à possibilidade de revogação das cotas.

Tarcilia do Nascimento, mestre em ciências sociais pela UERJ, tem uma pesquisa detalhada sobre a política de cotas dentro da universidade, a primeira a adotar o sistema no país, no ano de 2003. Tarcilia apresentou o perfil deste estudante, assim como o seu desempenho quando comparado àqueles e àquelas não cotistas. Os resultados são nítidos. Alunos cotistas evadem menos e têm resultados acadêmicos iguais e, às vezes, superiores aos não cotistas.

Depois da pausa para o almoço, nova intervenção cultural serviu de anúncio ao segundo debate. Jovens rappers do grupo UR Gueto envolveram o auditório com as suas músicas, experiências pessoais e reflexões acerca do racismo.

O fim da apresentação culminou com o início da segunda roda de conversa. Denise Herdy, professora de medicina da UERJ e coordenadora há 20 anos do Grupo Com Vida, especializado em lidar com pessoas com HIV, mediou a apresentação de Jurema Werneck. Formada em medicina pela UFF-RJ, Jurema representou o movimento negro no Conselho Nacional de Medicina (2007-2012) e é integrante do grupo da Sociedade Civil da ONU Mulheres Brasil.

Jurema Werneck atraiu o olhar de todos presentes no auditório

Os olhos atentos de todo o auditório viram uma explicação detalhada de Jurema sobre as relações existentes entre o racismo e a saúde no país. Uma das principais referências negras no campo da saúde, ela destacou a grande mortalidade de mulheres negras no sistema de saúde e as relações existentes entre esse fato e a formação médica.

A presença e colocação de Jurema Werneck foram inspiradoras a todas e todos estudantes presentes no anfiteatro Ney Palmeiro. Além de referência no meio acadêmico, ela é um dos nomes mais emblemáticos do movimento negro brasileiro.

Conclusão do evento

O fechamento da programação ficou a cargo das integrantes do Negrex. Chegava o momento de responder: “A Casa Grande pira quando a senzala vira médica?”. A plural identidade negra na mesa de encerramento transformou-se em um discurso coeso por parte das estudantes negras de medicina. Sim, a Casa Grande surta quando a senzala vira médica, assim como quando pretas e pretos se graduam em enfermagem, direito, psicologia, jornalismo, entre outras carreiras restritas de modo histórico aos brancos.

Todas as componentes da mesa fizeram questão de destacar as dificuldades de permanecer e ultrapassar as barreiras postas pelo racismo dentro da universidade. Desde a exposição racista em “concursos de beleza”, até a indicação médica nas aulas de cirurgia de que o nariz negroide é caso cirúrgico, mesmo que não haja uma explicação médica para tal medida.

O fim do encontro deixou em evidência a necessidade de enegrecer a saúde, assim como a importância de redefinir as referências nos cursos de medicina e a urgência de alterar o olhar de médicos, para melhor cuidarmos do povo negro.

Alma Preta divulgará em breve uma reportagem em vídeo e o álbum de fotos completo sobre o evento.

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