Texto: Pedro Borges / Ilustração: Vinicius de Araújo

Encarceramento em massa da juventude negra é encarado como mais um mecanismo de extermínio de pretas e pretos

A segunda nação mais negra do mundo, atrás somente da Nigéria, tem a sua história construída através do sofrimento do povo preto. O Brasil foi o maior destino de escravos durante a diáspora africana e é aqui onde negras e negros, depois de 388 anos de escravidão, continuam marginalizados. Ao invés de empregos, o convite a imigrantes europeus afim de embranquecer o país e trabalhar no período pós abolição da escravatura. Ao invés de educação e cultura, o povo preto recebeu estigmas, presídios e repressão. Enedina Alves, mestra em Direito pela PUC-São Paulo e militante da UNEafro, é enfática e explica como “desde a chegada do povo negro nessa terra sentimos a presença do Estado Penal como produtor do terror corpo-psíquico.”.

Os números são evidentes. Temos um Estado que prende e mata de modo contundente e agressivo negras e negros. Em 2012, 173.536 dos presos no país eram brancos e 295.242, negros. Neste mesmo ano, enquanto 9.667 brancos morreram por armas de fogo, outros 27.638 negros perderam a vida da mesma forma. O Estado brasileiro tem então uma postura violenta e paradoxal com relação à população preta. Silvio de Almeida destaca como “temos um Estado que prende cada vez mais pessoas jovens e negros e, ao mesmo tempo, tolera a morte de indivíduos deste mesmo grupo.”.

Trata-se de uma política genocida completa, eficiente e cujo alvo é de conhecimento público. Para Samira Bastos, especialista no debate sobre jovens em situação de conflito com a lei no Brasil e professora da Universidade Federal de Santa Catarina, UFSC, “você mata uma parte, prende a outra, e aqueles que seguem a regra do Estado capitalista são oprimidos. Você vai ser oprimido de qualquer jeito. É isso que sobra pra juventude negra.”.

Mais do que dados alarmantes que comprovam esse genocídio, temos tendências desastrosas. A Secretária de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, SEPPIR, demonstra como há uma crescente nos últimos anos com relação ao encarceramento da população negra. A Secretaria destaca os dados publicados em junho de 2014 pelo Ministério da Justiça por meio do Sistema Integrado de Informações Penitenciárias, Infopen. Há “um hiperencarceramento no Brasil, um crescimento de 161% no total de presos desde 2000 e um número absoluto de 607.731 pessoas presas. O perfil majoritário é o mesmo apontado pelo Mapa do Encarceramento, 56% jovens entre 18 e 29 anos e dois em cada três detentos são negros.”.

Redução Maioridade2Redução da Maioridade Penal

O ódio racial e o instinto assassino do Estado se retroalimentam. Mesmo frente uma situação caótica, o legislativo nacional, encabeçado pela figura de Eduardo Cunha, PMDB, deseja implementar a PEC 171 e reduzir a maioridade penal de 18 para 16 anos. A SEPPIR enxerga tal medida como “mais uma alavanca dessa violência, que terá como efeito o aumento do encarceramento no país e, dessa forma, se sofisticará este que é mais um dos vários mecanismos de execução do racismo no Brasil.”.

O cerne da política genocida da PEC 171 está na ampliação do alvo. A juventude negra, com a aprovação da medida, passaria a sofrer a mesma violência imposta a homens e mulheres de pele preta. Silvio de Almeida explica como a redução da maioridade penal “apenas tornará lícito aplicar aos jovens negros o mesmo tratamento e os estigmas que já eram dispensados aos adultos negros inseridos no sistema prisional. Trata-se de um alargamento e de uma nova organização do racismo institucional.”.

Gabriela Vallim, jornalista e articuladora de Itaquera, São Paulo, do programa Juventude Viva da Secretaria Nacional de Juventude, completa a visão de Silvio de Almeida e enxerga a redução da maioridade penal como “legalizar o que a polícia já faz”, que é cercear a liberdade e a vida do jovem negro, seja por meio da prisão, ou da morte".

Sistema Carcerário

O sistema carcerário brasileiro não tem como receber essa juventude de modo devido. Para Silvio de Almeida, os presídios “não têm condições sequer de receber a demanda atual.”. Mais do que isso, Gabriela Vallim detalha a situação e apresenta como em São Paulo, Estado com maior número de presos, há “250 mil foragidos e as cadeias já estão superlotadas. Se prendesse todos os foragidos, já não teria lugar para prender todas essas pessoas. Reduzindo e prendendo mais gente, onde vai se colocar?”.

Mais do que uma série de foragidos, o Estado brasileiro têm um grande contingente de pessoas que estão presas sem julgamento. Tâmara Terso, Secretária-Executiva do Conselho Nacional de Juventude, explica como “cerca de 38% dos que estão encarcerados hoje nas cadeias tradicionais, eles são presos provisórios. Não tem nenhuma perspectiva de que o seu caso seja apurado pela polícia e pelo sistema judiciário. Então, nós temos um conjunto grande de presos que não sabem porque estão presos.”.

A lógica é a seguinte. Temos um sistema carcerário sem qualquer condição para receber um grande contingente, assim como uma justiça ineficiente e seletiva, pois, como já fora apontado por Silvio de Almeida, esse Estado é mais severo quando o negro comete o crime e omisso quando o negro é a vítima.

Genocídio

Deste modo, é impossível não relacionar e não enxergar o encarceramento em massa como mais uma das faces do genocídio da população negra. Enedina Alves explica como “tanto as penitenciárias, quanto cadeias ou Fundação Casa aparecem, neste contexto, não apenas como espaço de enclausuramento, mas também como a reiteração de uma ideologia de desumanização, exploração e morte física e simbólica do corpo negro.”. Samira Bastos completa e expõe como não há uma intenção de ressocializar o jovem, mas sim o exterminar. “A medida de privação de liberdade não tem a mínima intenção de reeducação, muito menos o sistema prisional. Lá sim, se concretizará a completude do genocídio da juventude negra. É terminar mesmo o serviço.”.

E a política genocida do Estado brasileiro não tem fim. Para Tâmara Terso, “parece que, parece não, é certeza que a intenção dessa bancada conservadora que está dominando hoje o congresso não é de arrumar a casa e reajustar os mecanismos para que a gente consiga dar um freio nessa política de segurança pública do Estado que é genocida. A verdade que está colocada é um aprofundamento disso se depender da opinião dos deputados e das deputadas da câmara federal”. Além da redução da maioridade penal, Tâmara Terso cita outras duas decisões tomadas pela câmera federal que intensificam a política genocida brasileira. Não revogar os autos de resistência, artifício utilizado pela polícia para legitimar a morte de jovens negros, assim como pleitear a revogação do estatuto do desarmamento. “A revogação do estatuto do desarmamento é uma pauta forte no congresso.”.

Desdobramentos para a população negra

Essa política genocida já apresenta inclusive significativos desdobramentos na composição da população brasileira. Samira Bastos compara a nossa situação a de países em guerra e conclui. “O número do genocídio da juventude negra já tem déficit populacional, em especial os jovens das classes mais pobres. Na próxima geração, haverá uma defasagem muito maior de homens. Em termos estatísticos tende a uma extinção dessa juventude a cada dia com um agravante mais significante. Essa geração já tem um déficit de homens.”.

Dentro desse quadro genocida, a redução da maioridade penal promete tirar mais cedo a vida do jovem negro. Gabriela Vallim aponta como “pesquisas mostram que é aos 19 anos, um ano depois do jovem atingir a maioridade penal, que ele é morto. Então, ao reduzir a maioridade penal, ele só vai morrer mais cedo. Se ele morria aos 19, agora ele vai morrer aos 17”.

A SEPPIR amplia a visão sobre as consequências. Mais do que exterminar negras e negros, a redução da maioridade penal deve atingir a juventude negra dos mais diferentes modos. A Secretária destaca como a redução pode permitir um precoce contato por parte dos jovens com bebidas alcóolicas e armas, assim como entrar mais cedo no mercado de trabalho. Todas essas medidas podem vir a “gerar um impacto sobre a saúde e a previdência”. A SEPPIR elenca inclusive como os jovens poderão adquirir mais cedo a habilitação e assim se tornarem aptos a dirigir, o que pode gerar um aumento no número de acidentes de trânsito. Há também o medo de, nos esportes, aumentar a “fuga” precoce de craques para outros países. Isso sem contar que a redução descaracterizará o que definimos hoje como abuso e exploração sexual.

Gabriela Vallim acredita que a redução da maioridade penal pode expor mais o corpo da mulher, afinal, o que acontece com uma menina de 18 anos estuprada e responsabilizada pela violência que sofrera deve passar a acontecer com maior intensidade com a menina aos 16 anos. A redução é encarada como a tentativa do Estado de responsabilizar as adolescentes pela situação vulnerável a que estão expostas.

Por isso, Gabriela Vallim destaca a importância da união do movimento negro e dos movimentos sociais para barrar a PEC 171. “Papel dos movimentos sociais e do movimento negro é de unificar por aqui essa pauta da direita, essa pauta totalmente fascista para que não nos destrua enquanto povo, principalmente nós enquanto comunidade negra que já vem sofrendo com histórico de morte, histórico de negação de direitos, com histórico de abuso de poder por parte da supremacia branca.”.

Texto: Solon Neto  / Edição de Imagens: Vinicius de Araujo

Após uso de blackface em quadro, protestos e indignação de brasileiros e africanos, programa é denunciado pela OAB à SEPPIR

Com trilha sonora de tambores tribais surge em cena um ator branco com o corpo pintado de preto, um “blackface”. Ele balança os braços, mistura ingredientes com desprezo, e bebe água da torneira como um ser primitivo. De repente, dialoga com o sobrenatural, em alusão às religiões de matriz africana. Sua forma de agir exalta gestos tão ininteligíveis quanto sua fala, que se resume a um encadeamento de grunhidos sem sentido. Uma série inacreditável de estereótipos e desrespeito em rede nacional.

É preciso ter estômago para assistir ao personagem “Africano”, do Pânico na Band. Parte do “Pânico’s Chef”, sátira do sucesso de audiência “MasterChef”, o racismo na perfomance do ator Eduardo Sterblitch é intragável. Além do mais, racismo é crime inafiançável e imprescritível.

A televisão parece não ter limites, mesmo com pesado aporte de investimentos públicos feitos nela. Dados de 2012 mostram que a Rede Bandeirantes é o quarto canal de televisão em recebimento de verba federal de publicidade, dinheiro de impostos. Ela faz parte de um seleto grupo que concentra 70% dessas verbas. Assim como outros canais de televisão, usufrui de uma concessão pública para transmissão de seu sinal, utilizando do espaço público para exibir sua programação.

>Alma Preta tentou contato com a produção do programa, e apesar das perguntas recebeu como resposta a mesma nota enviada à Imprensa na semana passada. Na nota, o programa “pede desculpas ao público que se ofendeu com o personagem” e se justifica dizendo que o “Africano” faz parte de um quadro em que “há caracterizações de mexicanos, chineses, árabes, entre outros”. A reportagem questionou a assessoria de imprensa sobre a naturalização de xenofobia e racismo nessa resposta, porém não houve retorno. Alguns sites divulgaram junto com a nota a informação de que o personagem sairá do ar.

OAB denuncia racismo do programa à SEPPIR

No dia 10 de Agosto, o advogado representante da OAB e presidente da Comissão Nacional da Verdade Sobre a Escravidão Negra, Humberto Adami, enviou à Ouvidoria da Igualdade Racial da SEPPIR,Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, denúncia de racismo sobre o personagem. No documento, ele pontua que “esse tipo de afronta racial atinge toda uma etnia” e critica o uso do “black face”, pois contribui para “perpetuar os efeitos e resquícios da escravidão negra”.

Humberto informa que a denúncia não tipifica crime, porém constata que houve “uma humilhação, um dano, um menosprezo, uma forma de baixar a auto estima de toda uma população, e não de apenas um indivíduo. […] tendo sido contra uma coletividade, eu entendo que, se ficar caracterizado o crime, o crime é de racismo e não de injúria racial”.

O advogado, que também foi Ouvidor da SEPPIR por três anos, acredita que a reação contrária do público ao quadro montado pelo Pânico foi muito positiva, assim como o recuo imediato da emissora. Humberto acredita que a mobilização imediata mostra uma mudança de postura da população: “Até pouco tempo atrás isso passaria despercebido, como passou despercebido por uma grande maioria da mídia brasileira. Precisou um jornal do Senegal reclamar para que os grandes jornais brasileiros pudessem acordar e enxergar que não é natural esse tipo de deboche, esse tipo de programa. O próprio programa já tinha saído aqui duas vezes, e não se tem registro de que a grande imprensa brasileira tenha feito essa anotação de racismo nesse caso. Somente quando viram os africanos reclamando no Senegal e as reclamações na internet é que a mídia passa dar uma atenção. É preciso ter um olhar mais atento e mais imediato para esse tipo de questão que não pode ser naturalizado, não pode se achar que isso é uma coisa normal”.

O atual Ouvidor da SEPPIR, Carlos Alberto de Souza, pediu explicações à Rede Bandeirantes, além de encaminhar a denúncia ao Ministério Público Federal e Estadual, Ministério da Justiça e Ministério das Comunicações. O Ouvidor informou ao Alma Preta que a emissora ainda não enviou resposta, e as denúncias estão tramitando nos Ministérios.

Sobre a denúncia, ele declara: “Esperamos que eles possam tomar a providência da lei, que é o mais correto” e também “que as instituições possam adotar providências de não permitir que programas como esse venha disseminar o ódio e disseminar a discriminação e o preconceito”.

“Eu só consegui assistir aos primeiros doze segundos. É um absurdo”

Sandy Lara dos Anjos organizou no dia nove de agosto um evento no facebook em repúdio ao personagem. Em poucos dias milhares de pessoas aderiram à sua iniciativa, e multiplicaram-se as manifestações. Sandy tem 22 anos, é negra, trabalha como professora e vive na baixada fluminense, no Rio de Janeiro. Seus pais são militantes negros, e desde criança incentivam a filha a lutar pela causa. Ela soube do caso através de uma amiga e conta que mal conseguiu assistir ao vídeo: “Eu só consegui assistir aos primeiros doze segundos. É um absurdo”.

A militante diz ter recebido mensagens com tentativas de intimidação após criar o evento, o que é visto por ela como consequência do racismo da sociedade brasileira: “O que eu vejo e sinto é que estamos inseridos numa sociedade tão racista, que atos que nitidamente querem fazer chacota com uma raça, em público e sem pudores, são considerados coisas normais. E quem reclama é tido como louco e vitimista, tentam intimidar.”

Ela recorda que não é a primeira vez que há uso do “blackface” no próprio Pânico, que já cometeu o erro ao representar o lutador Anderson Silva. A televisão brasileira tem um histórico no assunto. O caso mais emblemático talvez seja o da novela “A Cabana do Pai Tomás”, exibida em 1969, na qual o ator Sérgio Cardoso fazia uso da técnica racista. À época o movimento negro protestou e o personagem saiu do ar.

“Não é o primeiro caso de Blackface no programa pânico, e longe de ser na TV. A mídia, que é constituída por pessoas que consideram isso normal, dá para a sociedade o conteúdo que ela acha legal rir. Quase todo programa de humor tem uma negra que é empregada doméstica e fala tudo errado, ou um cara negro que representa um safado, vagabundo que trai a esposa pra todo mundo rir. Todos julgam engraçado coisas que perpetuam estereótipos sobre pessoas negras.”

Recentemente, o programa “Zorra Total”, da Rede Globo, principal televisão beneficiária de verbas públicas de publicidade no Brasil, também foi acusado de racismo pelo uso de Black Face. A personagem “Adelaide”, interpretada pelo ator Rodrigo Sant’anna, é o exemplo típico do tipo de escárnio descrito por Sandy como corriqueiro na televisão brasileira. Em 2012, a personagem foi denunciada por racismo pela Ouvidoria da Igualdade Racial, orgão da SEPPIR, e passou a ser investigada pelo crime.

“A tendência é que esses casos venham cada vez mais à tona, porque cada vez mais estamos menos tolerantes com os racistas”. Sandy acredita que o quadro possa mudar conforme haja maior visibilidade para o povo negro brasileiro, que para ela deve “sair do cantinho”, apesar de não considerar isso uma tarefa fácil. Porém, ela enxerga que o episódio do “Africano” demonstra a necessidade de união, visto que os protestos geraram repercussão negativa para o programa.“Quanto mais negras e negros conscientizados mais diferença fazemos. O problema é que o racismo é tão cruel que faz com que pessoas negras julguem isso como normal e caiam no mito de que já não há mais racismo no Brasil.  Quanto mais negras e negros empoderados, mais avançamos pra cima dos racistas.”

“Brasil, um país racista?” Para africanos, a resposta é sim

O “Africano” repercutiu internacionalmente. Diversos veículos de comunicação mostraram incredulidade diante do uso do “blackface” e da forma como o programa “Pânico na Band” representou negros e africanos. Quem também deu espaço para a discussão foi o “Washington Post”, dos Estados Unidos, país marcado pelos conflitos raciais. Sandy Lara conta ter sido procurada pelo “News Day”, do “Zimbábue” e pelo “Lusaka Voice”, de Zâmbia. Já o site Senegalês “Seneweb” divulgou um vídeo com quadro com a pergunta “Brasil, um país racista?”. Os dados sobre violência no Brasil não deixam dúvida, assim como casos recentes de ataques a haitianos negros no Brasil também dão indícios da comportamento brasileiro no assunto.

Baw Artur, jovem angolano e estudante universitário, vive há cinco anos no Brasil, e afirma que percebeu o racismo no país desde sua passagem pela imigração. Ele diz ser testado todos os dias devido à sua cor e origem. Algo novo em sua vida, já que diz não ter vivenciado isso antes em Angola. Baw também recebeu com grave incômodo a notícia da existência do personagem do Pânico: “Além de ser um ato racista é uma forma como esses racistas e desumanos ferem a nossa integridade. É uma total falta de respeito e desconsideração pelos africanos que foram arrancados dos seus lares há muito tempo atrás e trazidos em péssimas condições para dar vida a esse lugar que todos os brasileiros chamam de pátria amada”.

Já Ozias La Blessed, nascida em Benin, também cursando universidade no Brasil, se sentiu indignada com o personagem: “Ao me deparar com esse vídeo, eu surtei. É como se eu fosse pegar os criminosos no flagra. Aí está a prova de que a mídia está transmitindo uma imagem da África que nós africanos não merecemos”. A estudante exige retratação por parte do programa, além da retirada do vídeo do ar. “Esse video da Band deve ser censurado. Para nós africanos perdoarmos isso, deveria ter outros números do pânico apresentando a verdadeira África. A África rica naturalmente, culturalmente e economicamente.”

Ozias conta que ao chegar aqui não tinha dimensão da herança cultural que a África deixou aos brasileiros, mas se sente decepcionada com a conotação ruim imprimida à essa herança: “Sempre soube que o Brasil tinha uma forte herança africana pelo fato de que tem descendentes brasileiros no meu país. Mas não sabia que ela era tão forte. Pensava que ela tivesse esquecida. Mas ao vir aqui, percebi que tem e bastante. Mas mais uma vez me decepcionei quando eu soube que essa herança é ligada ao mal, a tudo que é negativo.” Ela também se sentiu surpresa com a ignorância que muitos brasileiros demonstram sobre o continente africano mesmo tendo tanto da África em sua cultura. Ela, no entanto, acredita que há muita culpa da mídia nesse aspecto, e estranha as perguntas que já ouviu sobre sua casa:

“Desde que eu cheguei no Brasil, me deparei com a ignorância do pessoal sobre as realidades africanas. Eu já ouvi perguntas do tipo: você veio estudar aqui por que não tem faculdade no seu país? Lá você tem casa? Tem muita guerra e miséria no seu país?”. Ozias diz acreditar que o Brasil tem um racismo velado, presente em pequenas atitudes. Apesar de ser negra, ela afirma que aqui se enxerga principalmente como estrangeira em um país que não é seu: “um dia, voltarei pra casa, e lá , não verei mais o africano sendo humilhado”.

Por sua vez, Baw confirma a visão ao contar que ser africano no Brasil é ser visto como sobrevivente de guerra e de fome, e diz sentir duplo preconceito, um por ser negro e outro por ser africano. Baw atribui esses problemas à mídia brasileira, excessivamente voltada para a Europa e Estados Unidos, e que trata a África com estereotipação: “A mídia brasileira é voltada para o ocidente. Ela  não passa nada de África, a mídia brasileira é retrógrada e defasada. Quando se fala de África, a mídia brasileira apresenta fome, guerra e animais selvagens, e não enxerga ou mostra a sua própria herança, que contribuiu para esse Brasil e para o mundo. Enquanto isso não acontece, nós africanos e descendentes de África continuaremos a nos orgulhar da nossa mãe África”.

Texto Vinicius Martins / Ilustração Vinicius de Araújo

As representações raciais estereotipadas, criadas no fim do século XIX, persistem na imprensa até hoje

A escravidão permeou toda a colonização brasileira e mais meio século da independência. Inicialmente restrita aos indígenas, teve a participação dos povos africanos aproximadamente 50 anos após a chegada europeia às terras brasileiras. Estima-se que cerca de 3,5 milhões de negros tenham sido trazidos forçadamente da África ao Brasil.

A dominação de classe e de cor de brancos contra negros durou cerca de três séculos. Foi construída em cima da exploração e apropriação violenta do imperialismo europeu. Apenas em 1822 o Brasil daria fim ao regime escravocrata. Último país da América a deixar o modelo.

Nesse contexto de transição que trazia o fim da escravidão e a transformação do Brasil império em Brasil república, inúmeras representações e estereótipos a respeito dos afrobrasileiros foram criadas.

O livro “Retrato em Branco e Negro” da antropóloga Lilia Moritz retoma algumas ideias e representações da época. A partir do estudo dos primeiros jornais da cidade de São Paulo. A análise faz um recorte d’A Província de São Paulo (atual Estadão), do Correio Paulistano e A Redempção (jornal abolicionista).

Datados do meio do século XIX ao início do século XX, as notícias e anúncios publicitários estudados fornecem um retrato das relações raciais durante o processo de abolição. A cidade de São Paulo vivia um intenso momento de desenvolvimento. Construiu-se a primeira Faculdade, as primeiras ferrovias e a população cresceu exponencialmente.

Diante da aproximação da inevitável abolição da escravidão, a população negra passa a figurar cada vez mais nos jornais. Um emaranhado de representações vem à tona. Embasadas pelo discurso científico-positivista da época, o negro é retratado de forma inferior, como uma sub-raça humana. Essas ideias também foram responsáveis por motivar as políticas de branqueamento da sociedade brasileira no mesmo período.

O jornal conservador Correio Paulistano, alinhado aos interesses do Império, se portava de forma mais agressiva à questão negra. Haviam constantes afirmações dos negros como um problema para a sociedade, como raça que inferiorizaria a sociedade e marcada por estigmas como a violência animal e o vício.

A Província de São Paulo próximo aos repúblicanos se colocava como um jornal “imparcial” e moderno. Fazia constante uso do discurso do progresso e da ciência. Essas visões se expressavam na forma de retratar a realidade paulista daquela época. O negro era visto como inferior por um discurso científico hegemônico que hierarquizava as qualidades de cada povo humano e tinha como modelo de raça evoluída os brancos europeus e seus descendentes.

O terceiro jornal analisado foi A Redempção. O veículo era pró-abolicionista radical dentro do debate da escravidão. Entretanto, cabe ressaltar, era um veículo dirigido por brancos pertencentes à elite paulista. Ou seja, era um olhar ainda distante das reais necessidades que a população negra cativa tinha na época.

Dentre as diversas representações dos afrobrasileiros nesses jornais podemos identificar ideias presentes até hoje no imaginário social. O negro foi representado como ser violento e bárbaro, incapaz, imoral, sexualizado (sobretudo as mulheres). Sempre elogiado quando assumia os papéis sociais que lhe impunham (docilidade). Suas manifestações culturais eram vistas ora como bárbarie, ora como exóticas. Tal fato marcou profundamente o Samba, a Capoeira e as atividades religiosas (vistas como feitiçaria ou magia impura). Por outro lado, a elite branca era vista como exemplo de ser humano a ser seguido, sempre acompanhadas de elogios e exaltações às qualidades dos senhores de escravos.

Lilia Moritz faz um ótimo recorte ao evidenciar que a imprensa daquele período histórico era um grupo restrito de brancos pensando sobre negras e negros objetificados. Cabe reforçar que nunca havia espaço para a voz e a figura negra a partir de seu próprio olhar. Tal fato está ligado às origens e composições da atividade jornalística, uma profissão liberal em sua essência e ligada às classes médias altas.

As representações e estigmas propagados pelos jornais daquela época se difundiram ao passar dos anos. Ou seja, mantiveram-se vivos, entretanto, implícitos nas entrelinhas dos jornais até hoje. A profissão de jornalista ainda é branca (cerca de 22% dos profisssionais é afrobrasileira). O negro ainda figura restrito em determinadas seções dos jornais, como as páginas policiais, de cultura ou esporte. Quase sempre reafirmando antigos estereótipos negativos.

Se os jornais são capazes de construir uma representação de mundo ética e estética nas sociedades em que estão inseridas, pode-se dizer que o racismo e o preconceito à cor negra estiveram presentes na mídia burguesa do século XIX. O racismo se construiu e se difundiu a partir das páginas dos periódicos de ontem e de hoje.

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