Texto: Solon Neto / Fotos: Solon Neto

Comunicadoras negras e negros discutem “Novas Mídias e Financiamento” em São Paulo

No dia 24/11, em São Paulo, na sede da Secretaria Municipal de Promoção da Igualdade Racial, a SMPIR, a Frente de Mídias Negras, iniciativa de comunicadores negros para debater a democratização da mídia sob a perspectiva racial, reuniu diversos membros de sites de mídia e movimento negro. O Seminário “Novas Mídias e Questão Racial” teve à mesa de debate o secretário da SMPIR, Maurício Pestana, assim como seu Secretário Adjunto, Elizeu Soares; a comunicadora Aline Ramos, do Que nega é essa?; o editor do blog Negro Belchior, Douglas Belchior; a jornalista Cinthia Gomes, do Cojira SP; além de Pedro Borges, do Alma Preta.

As pautas giraram em torno de temas históricos e de reivindicação. A mídia negra no Brasil, que data da primeira metade do século XIX, sempre teve dificuldades de se manter em decorrência do racismo e da manutenção de um sistema de comunicação exclusivista. No entanto, é de costume que haja financiamento público do jornalismo realizado por meios de comunicação tradicionais, e aos alternativos restam poucos recursos. Mesmo os meios considerados alternativos e progressistas, são separados por sua temática, e a Mídia Negra é posta à parte.

A Frente de Mídias Negras serve para manter uma pauta política conjunta na luta contra o racismo através dos meios de comunicação. As pessoas passaram a auto-declarar-se negras negras no Brasil, que voltou a ter maioria afrodescendente na última década. Segundo o IBGE, na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios de 2010, os negros já somam 53% da população brasileira. No entanto, não é de cunho geral a pauta política sobre o assunto. Os partidos, e mesmo os governos ditos progressistas, não põem a questão racial como prioridade, e ignoram, apesar de avanços, que a questão seja de importância primeira.

“Precisamos ser sujeito e não só objeto da notícia”

A unânimidade do encontro girou em torno da luta contra o racismo enquanto sistema e da necessidade de meios de comunicação que se dediquem às pautas negras, importantes para a maioria da população brasileira, que é negra. O poder público presente manteve sua simpatia às pautas de comunicação, e se comprometeu a levar adiante as pautas discutidas e as exigências da Frente.

Elizeu Soares, Secretário Adjunto da SMPIR, declarou que a Frente de Mídias Negras tem “importância grandiosa”, e valorizou a união entre os negros, devido ao inerente fortalecimento. Para ele, “uma frente como essa pode ajudar a secretaria a formular políticas públicas” e introduzir a pauta da democratização do financiamento de mídias, em especial a negra, dentro da administração municipal. “É um inicio de diálogo que a nossa secretaria tem interesse de fazer”.

Para Cinthia Gomes, da rádio CBN e do coletivo COJIRA-SP, é necessário que o negro saia da posição de coadjuvante da notícia e passe a incidir sobre ela. Dessa maneira as pautas que faltam na grande mídia podem começar a aparecer com mais frequência.

“Precisamos ser sujeito e não só objeto da notícia, porque o que acontece hoje na grande mídia é que a gente aparece na notícia, mas a presença de negros nas redações é pequena. Então a gente precisa criar as nossas próprias mídias, as mídias negras, é importante para a gente conseguir ser sujeito, e para a gente conseguir selecionar a nossa agenda”.

Para Cinthia, a agenda negra necessita de mídias negras para poder se disseminar, e acredita que não se deve esquecer de pressionar a grande mídia ao mesmo tempo, pois a maioria da população é negra e é papel da mídia questionar o racismo. “Não dá pra pensar num país democrático que seja racista.”, afirma.

Cinthia concluiu com o raciocínio de que as mídias negras necessitam de financiamento público da mesma forma que os meios tradicionais. Afinal, os negros são também cidadãos, e tem como direito, a aplicação dos impostos em razão de suas pautas e necessidades.

“Nós, comunicadores negros, somos também cidadãos que pagam impostos, e a se a gente paga imposto a gente está gerando essa demanda de utilização desses impostos. A gente quer que esse dinheiro público, e o dinheiro público não é um dinheiro sem dono, é um dinheiro do povo brasileiro, a gente quer que esse dinheiro seja voltado também para o financiamento dos nossos meios de comunicação.”

“Não existe mudança social sem comunicação”

Aline Ramos, criadora do blog “Que Nega é Essa?”, defendeu a qualificação do discurso jornalístico sobre racismo, apontando sua crítica para as pautas rasas encontradas nos meios tradicionais que insistiriam em manter discussões superadas como “Existe racismo no Brasil?”. Para ela é necessário avançar e fortalecer os discursos.

“A gente precisa fortalecer as mídias que já existem para que a gente possa fazer uma pressão dentro da sociedade. Não existe mudança social sem comunicação, e em diversos níveis. Só que a gente sempre esbarra na dificuldade de permanência desses veículos de mídia negra”.

A mídia negra sempre existiu no país e sofreu com o empecilho da falta de apoio para que se pudesse manter meios por longos períodos. A internet, com suas possibilidades de democratização, tem criado oportunidades para o surgimento de novas mídias, inclusive a negra. E é necessário aporte financeiro para sua continuidade.

“É importante que o poder público participe do fortalecimento dessas mídias e do seu financiamento, justamente porque se a gente para pra pensar que quem pauta as questões raciais são essas mídias, e se o racismo é um problema estrutural na sociedade, tem que ser uma preocupação do poder público”, pontua Aline.

Já Douglas Belchior foi enfático em vários momentos quanto à proposta política da Frente em relação ao poder público. Para ele, a Frente é um espaço de elaboração importante, e que ao longo do tempo, fortalecida, pode ampliar seu campo de ação.

“Eu penso que a nossa pauta é a pauta da democratização dos meios de comunicação. Falta uma elaboração negra sobre esse assunto, um recorte e uma leitura a partir do lugar negro na democratização dos meios de comunicação, e acho que a Frente de Mídias Negras é um espaço privilegiado para elaborar essa ideia, para elaborar intervenções políticas do movimento negro para o debate das comunicações no Brasil. Claro, num primeiro momento para fortalecer os grupos que tem produzido conteúdo negro, mas num segundo momento, talvez até em paralelo, fazer luta política.”

A página de comunicação da Frente de Mídias Negras fica no Facebook, e você pode conferi-la aqui.

Texto: Miriam Alves / Imagem: Vinícius de Araújo


Não saber de onde veio; quem ou que deixou para trás; qual era o seu nome; como era o rosto de sua mãe e de seus familiares, das músicas que cantava para velar seu sono ou dizer sobre seus antepassados; a primeira cicatriz e o afago que recebeu da pessoa amada para lhe acalmar; do primeiro beijo; os primeiros sabores e tudo aquilo que faz você ser quem é hoje. Então, já imaginou?

Provavelmente a primeira pergunta que se faria seria: QUEM SOU EU?

Sabe por quê? Porque a memória é a nossa IDENTIDADE. Somos fruto de uma construção histórica, social e cultural que nos define. Ninguém nasce sendo João ou Maria, assim como não há um único modo de ser João ou Maria. Os dois não necessariamente precisam ser caçadores de bruxas ou gostar de doces. Maria pode gostar de meninas, assim como João pode gostar de rapazes; João pode ser uma mulher trans e Maria um homem trans; ou os dois podem ser um casal. Maria pode gostar de rock e João de pagode; Maria pode ter 60 anos e João pode ser um adolescente.

Independente da orientação sexual, gostos ou faixa etária, cada um de nós é um ser único. Já imaginou pedir para uma mãe que acabara de velar seu filho fazer outro idêntico? Então, sabemos que uma vida não é igual à outra. Não somos um produto comprado no supermercado, com código de barras, que se estragou ou veio com defeito e que você pode trocar, assim como nosso encéfalo não foi formatado para pensarmos uns iguais aos outros. Aprendemos constantemente coisas novas e, a partir das nossas relações sociais, vamos construindo e desconstruindo nossos conceitos. Isso é o que faz cada ser um indivíduo com subjetividade própria.

Sem identidade não somos ninguém. É como se fizesse um reset da nossa cabeça, tornando-nos apenas uma casca vazia, sujeita a uma chuva de idéias produzidas pelo senso comum, que não diz nada sobre você, suas vivências ou ancestralidade. Informações que entram como uma enxurrada de lama tóxica, aniquilando qualquer vestígio de humanidade que possa existir em você; que assim o mantém manipulável e dócil.

Você já imaginou o quanto você é manipulável?

Talvez não, mas o tempo todo você reproduz pensamentos do senso comum. Talvez você pense que somos todos iguais, que temos as mesmas oportunidades, que é um absurdo uma mulher abortar, que bandido bom é bandido morto, que existe racismo reverso, que cotas é uma política pra inferiorizar os negros, ou que se uma vaca cair em cima da cabeça de um chinês é culpa da Dilma!

Como Paulo Freire diria: “Quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser opressor”. Mas você não se importa com isso, por que Paulo Freire é um comunista, que quer implantar a ditadura venezuelana no Brasil. Talvez você pense em muitas coisas que não são reais, talvez até acredite no coelhinho da páscoa. Se sim, é porque faltou um bom livro de História na sua vida, pois quem conhece o passado, dificilmente “paga” de louco.

Informações desconexas vão lhe dizer o tempo todo que você tem que ser duas vezes melhor, caso você queira ser alguém na vida. Provavelmente você tentará ser duas vezes melhor, pois faz parte de uma lógica competitiva e individualista, pois o problema não é seu se as pessoas não atingem o mesmo patamar que você. Você se esquece, ou nega a todo o momento, que faz parte de um conjunto de indivíduos que não tem as mesmas oportunidades que você, quaisquer que sejam elas, de ter uma casa própria, um carro na garagem, uma família estruturada, ou uma educação de qualidade, fatores que fazem com que você chegue sempre em primeiro lugar.

Esse conjunto de indivíduos que você nega o tempo todo faz parte de uma sociedade, e na sociedade, cada um tem sua função social. Muitas vezes as pessoas não escolhem a função social que vão cumprir, pois isso depende em grande medida da origem social ou classe econômica a que pertence. Se você não possui um capital econômico, cultural e social, dificilmente receberá titulo de Doutor. A maioria desses sujeitos que ocupam as camadas subalternizadas foram historicamente negligenciados pelas políticas de Estado, principalmente no que se refere à garantia de seus direitos. Por meio dos estigmas que foram criados, a única política de Estado que funcionou para esse grupo de indivíduos é a repressão.

Você não vê muitos médicos, engenheiro, dentistas, advogados ou professes universitários negros. Por quê? Será que as teorias eugenistas do inicio do século XX te convenceram que somos menos capazes do que os brancos.

Você nunca reparou que os negros não ocupam os cargos de representatividade? Se nunca, pergunto: você tem problemas!?!?

Com certeza você está inserido em uma lógica cosmológica chamada de RACISMO INSTITUCIONAL. O racismo é aquilo que a sociedade pratica o tempo todo, mas ninguém reconhece. É aquilo que nos puxa para baixo, impedindo de concorrer igualmente com alguém socialmente reconhecido enquanto branco, seja para uma vaga no ensino superior ou no mercado de trabalho.

Se o racismo impede de nos mantermos em igualdade, sempre nos relegando a cargos de limpeza, são necessárias políticas de caráter discriminatórias, ou seja, de ações afirmativas. As políticas diferenciadas servem para que alguém que não tem oportunidade sócio-cultural de atingir o mesmo patamar que você, concorra de forma igual a uma vaga, de forma EQUITATIVA.

Se eu não enxergo meus privilégios sobre o outro dificilmente irei deixar que ele ocupe os mesmos cargos que eu, ou que sente ao meu lado na sala de aula da universidade. Se eu for racista, eu vou continuar afirmado que somos iguais, por que é mais fácil negar as diferenças do que admitir que elas existam. A questão é que se houver um pingo de alteridade para se colocar no lugar do outro e enxergá-lo enquanto parte da mesma humanidade que você, você então será capaz de abrir mão de seus privilégios! Mas o que ocorre não é isso. É mais fácil negar o outro, apagando seu passado, ou afirmando que cotas raciais são um mecanismo injusto.

Admitir os privilégios é admitir que em alguma medida você também foi racista, porque se omitiu diante da exclusão de uma serie de indivíduos, em sua grande maioria negros e indígenas. Não por menos, esses grupos étnicos vêm sendo exterminados, pois desde a colonização, eles foram obrigados a esquecer sua origem, identidade e cultura. Foram incorporados à linguagem e à cultura do colonizador, pois assim era mais fácil de mantê-los domesticados e subalternizados. Sendo assim, o modo mais eficaz de manter a atual servidão moderna, é por meio da aculturação e da alienação cultural.

Negação que se mantém graças à criação de um modelo de identidade nacional no início do século XX, com a dita república “democrática”, pois era necessário apagar qualquer traço da memória dos ditos “cidadãos livres”. O mito da igualdade racial de Gilberto Freyre é refletido nos discurso: somos todos humanos, ou somos todos iguais. Ideal que também apaga a nossa identidade e a possibilidade de enxergarmos que as causas dos conflitos e desigualdades sociais no Brasil são de origem racial, situações que permitem a mais perversa forma de exclusão, o racismo velado!

Todos esses fatores nos levam ao nosso auto-extermínio, pois o que pode querer um sujeito sem memória?

Você até pode não saber, mais o capitalismo sabe! De acordo com Freud, o homem é um “ser de desejos”. Deste modo, se o individuo faz parte de um grupo sócio-cultural especifico, com memória resguardada, o desejo humano se traduz na criação de mecanismos que garantam sua própria subsistência e a do coletivo de forma sustentável. Já o individuo sem identidade acatará aquilo que lhe será imposto enquanto necessidade. Em um mundo cada vez mais midiático e consumista, esse desejo se traduzirá em coisas supérfluas. Os exemplos são inúmeros: compras no shopping, o carro do ano, a loira que você vê na propaganda de cerveja, afinal, sujeitos vazios são gananciosos e individualistas.

Esse sujeito dificilmente conseguirá manter-se em uma relação afetiva estável, pois como o objeto de seu desejo é manipulável, as coisas e as pessoas se tornam obsoletas e descartáveis. Será mais cômodo não enxergar o passado, pois isso recuperaria sua essência e o faria entender que há uma relação maior do que a que ele acredita entre o cosmo e o seu umbigo. Seguirá em frente, sem olhar pra trás, passando em cima de tudo e de todos em nome do progresso.

A vida então se torna banal, a ponto de você apontar uma arma para cabeça de seu próprio irmão, pois agora usa as fardas do opressor, pensa como o opressor e esteticamente quer ser o opressor. O indivíduo aceita se embranquecer e logo vomita as mesmas palavras do opressor (pois não existe neutralidade nas nossas ações, tudo é parte de uma construção histórica), como um papagaio que apenas reproduz, nos seus iguais, por que uma alma vazia torna-se o espelho para o diabo. Diria que não existe diferença entre Hitler e aquele que prega a igualdade sobre a diversidade. O discurso é o mesmo, pois o FACISMO se mantém na ausência de IDENTIDADE.

*Miriam Alves, graduanda de Pedagogia, pela FaE-UFMG, participa do Núcleo de Estudos Sobre Educação de Jovens e Adultos, através do Programa Fórum METRO EJA, educadora social,  membra do coletivo de mulheres negras, Bloco das Pretas.

Texto: Pedro Borges / Ilustração: Vinicius de Araújo

O evento encerra as atividades de novembro da Consciência Negra na cidade

As novas plataformas midiáticas e a questão racial são os temas do debate de amanhã (24/11), na sede da SMPIR, Secretaria Municipal de Promoção da Igualdade Racial, em São Paulo. A atividade é fruto de reivindicação histórica das mídias negras da capital em busca por reconhecimento e pela maior democratização dos meios de comunicação.

Douglas Belchior, gerenciador do blog Negro Belchior e um dos membros da Frente de Mídias Negras, pensa que a “SMPIR acerta ao encerrar a Semana da Consciência Negra com um debate tão importante e urgente. Vivemos em uma sociedade de informação”. Para ele, negras e negros precisam ter “espaços de ressonância de nossas vozes e nossas lutas. As mídias negras são fundamentais pra isso”.

O seminário de amanhã se propõe a discutir a importância da organização negra a partir dos meios de comunicação e a necessidade de democratização destes meios, inclusive sob a ótica do município de SP. Antônio Carlos Filho, membro do Geledés e da Frente de Mídias Negras, exemplifica o poder que a comunicação tem para ecoar a luta negra. “O papel mobilizador dos meios de comunicação na Marcha das Mulheres Negras e a sua repercussão, em parte, são respostas dessa luta no campo da internet”.

Frente de Mídias Negras

Em janeiro de 2015, organizações não governamentais, blogueiros negros independentes e portais de mídias negra, se uniram para criar a Frente de Mídias Negras e combater o racismo institucional estabelecido nos meios de comunicação do país, bem como debater o racismo no campo midiático sob o ponto de vista de negras e negros.

“Com os avanços das tecnologias e a força das redes sociais, esse espaço de produção tem se fortalecido. Agora é hora de organizar politicamente essas diversas iniciativas e cobrar do estado a democratização dos meios de comunicação também a partir de uma elaboração negra”, é o que pensa Douglas Belchior.

Para Antonio Carlos Filho, a Frente de Mídias Negras articula jornalistas, blogueiros e o movimento negro “no combate às violações de direitos e principalmente no combate e no enfrentamento ao racismo em São Paulo, como o genocídio de jovens negros”.

Serviço:

Local: Sede da SMPIR-SP, no Vale do Anhangabaú, 350, 6° andar,

Horário: 19h

Debatedores:

Cinthia Gomes – Jornalista, membro do Cojira e fundadora da Afroeducação;
Aline Ramos – Comunicadora e Criadora do blog “Que nega é essa”
Douglas Belchior – Editor do Blog NegroBelchior
Pedro Borges – Portal Alma Preta
Mauricio Pestana – Secretário da Igualdade Racial da Prefeitura de SP

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