Texto: Pedro Borges / Edição de Imagem: Vinicius de Araújo

Universitários organizam encontro nacional e contam com o Governo Federal para superar o racismo institucional. SEPPIR destaca a importância de um evento autônomo de estudantes pretos

A Executiva Nacional do Encontro de Estudantes e Coletivos Universitários Negros, EECUN, se reuniu em Brasília nesta última quarta-feira, 15 de julho, com a Secretária de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, SEPPIR, com o intuito de discutir parcerias para a realização do Encontro. Estavam presentes os estudantes Pedro Borges (Coletivo Negro Kimpa), Mirt’s Sants (Coletivo Negrada), Miriam Alves (Coletivo Negro da UFMG), além dos representantes da SEPPIR, Larissa Borges (Diretora de Programa), Luiz Barcelos (Gerente de Projetos) e Douglas Santos (Assessor Técnico).

A Executiva Nacional apresentou à SEPPIR as dificuldades enfrentadas até o momento para a realização do evento. Como já fora exposto em reportagem do Alma Preta, os estudantes têm sofrido do racismo institucional imposto pela UFSCar. Enquanto outras atividades receberam o apoio da universidade, ao EECUN tem sido negado alojamento e alimentação.

A SEPPIR se colocou a disposição para ajudar no diálogo com as reitorias para que o evento venha a acontecer. A Secretaria apresentou também as suas limitações financeiras, mas se ofereceu a contribuir na realização do evento por meio de parcerias. Larissa expôs como os recursos para o ano de 2015 estão escassos, pois o governo vive numa conjuntura de corte de verbas.  Ela salientou, porém, que para alcançar qualquer investimento, o EECUN  precisa de um projeto consistente.

Deste modo, Luiz Barcelos indicou a possibilidade de uma aproximação com outros ministérios afim de buscar mais recursos, entre eles o da Educação e do Desenvolvimento Social. Douglas Costa propôs também a parceria com outras instituições estudantis como apoio estratégico para o momento, desde que a Executiva Nacional não perca a sua autonomia.

Como forma de contribuição imediata, Larissa solicitou uma reunião com Nilma Lino Gomes para que a Ministra fique ciente da situação, afinal, Larissa enxerga o Encontro como de extrema importância.

O apoio da SEPPIR é fundamental para a realização do EECUN, evento negro e autônomo cujos objetivos são pautar a questão étnico/racial de modo contundente dentro do espaço universitário e promover o protagonismo do povo preto na luta pela superação do racismo.

Texto: Alane Reis / Edição de Imagem: Vinicius de Almeida

Filme baiano será lançado em Festival Internacional em Brasília

Como todo preto favelado, Toni é um universo em crise, e ele não vive um bom dia: ônibus lotado, salário atrasado, exploração no trabalho, descrença nos estudos, falta de grana, contas vencidas, polícia e solidão. As angústias de Toni, semelhantes com as de tantos outros personagens da vida real, são contadas em Cinzas, segundo filme da diretora baiana Larissa Fulana de Tal (Lápis de Cor, 2014), que será lançado no próximo dia 24 de julho, durante a programação do Festival da Mulher Afro-latino-americana e caribenha, em Brasília.

O curta-metragem, adaptado do conto homônimo do escritor Davi Nunes, tem como personagem principal o jovem Toni: estudante universitário, que trabalha como operador telemarketing na empresa Tumbeiro, na cidade de Salvador. As imagens de Cinzas fogem dos tradicionais planos alegres de propagandas do verão soteropolitano, e poderiam ser bem ambientadas em qualquer cenário urbano do Brasil. “Toni tem o corpo escravizado pela lógica trabalhista contemporânea que quase todos nós estamos submetidos. Ele já não agüenta mais o emprego no Call Center, sabe que é explorado e que precisa sobreviver sem perder a dignidade, e sem surtar. Sua consciência é livre”, comenta a diretora Fulana de Tal.

Cinzas é um filme sobre cotidianos comuns e universos crises, a trama apresenta imposições obvias da vida de tantos jovens brasileiros, e por isso mesmo não surpreende e emociona. Toni é a imagem do espelho de uma multidão acostumada com a negação, mas que não abriu mão da resistência.

O filme é mais uma produção do coletivo de cinema negro Tela Preta, organização que pauta a representatividade negra no audiovisual. Para a Tela Preta, cinema e engajamento político se fundem. “Acreditamos que a temática racial no filme é tão importante quanto a autonomia da voz. Sabemos falar por nós mesmos, e isso é Cinzas. É uma felicidade muito grande para toda equipe lançarmos no Festival Latinidades”, comenta a diretora Larissa Fulana de Tal.

O lançamento oficial de Cinzas acontece no próximo dia 24 de julho, no Festival da Mulher Afro-latino-americana e caribenha, no Cine Brasília (DF), às 14h. O Latinidades é o maior festival de mulheres negras da América Latina, e há oito anos marca a agenda internacional de lutas do movimento de mulheres negras. Este ano o festival tem como tema Mulheres Negras Realizadoras de Cinema.

Uma Tal Fulana Diretora

Larissa, a diretora de Cinzas, decidiu-se pelo pseudônimo artístico “Fulana de Tal” em referência aos inúmeros sujeitos comuns da história. Ela é realizadora no coletivo de cineastas negros Tela Preta e bacharel em Cinema e Audiovisual na UFRB. Em 2013 ela recebeu o prêmio de Mensão Honrosa do videoclipe, no 3º FestClip - São Paulo/ SP, com a direção do videoclipe Axé (2012), do grupo de Rap Conceito Articulado. Em 2014 lançou seu primeiro filme, Lápis de Cor (2014), projeto contemplado pela I Chamada de Curtas Universitários do Canal Futura, e trata sobre racismo na infância.

A Fulana carrega no corpo e transpõe para a sua arte o “fardo da representação” enquanto mulher e negra, identidades por tantas vezes estereotipadas, marginalizadas e folclorizadas no campo cinematográfico. E é daí que ela olha, propõe, dirige e produz.

Texto Vinicius Martins / Ilustração Vinicius de Araujo

A negação da tensão racial no Brasil é sistemática a despeito de suas diferentes formas de opressão

O racismo no Brasil permeia o espaço social e atinge o povo preto de forma inquestionável. Está em todo lugar, e mesmo que disfarçado pela inexistente democracia racial brasileira, é capaz de distorcer a visão objetiva da realidade tanto de negros quanto de brancos, ainda que de formas distintas. Oprimido e opressor são afetados de diversas maneiras pelo mesmo problema. Mas, afinal, o que é racismo?

Trata-­se de um sistema de opressão contra um povo ou etnia apoiado em um aspecto biológico, capaz de estabelecer uma hierarquia social. É a partir dessa definição que o livro “O que é Racismo?”, de Joel Rufino dos Santos, aborda didaticamente a temática do racismo.

Longe da linguagem extremamente científica, e de forma coloquial em alguns momentos, o texto contém exemplos simples e objetivos para explorar o problema e suas consequências. Ele mostra diferentes faces do racismo em situações que vão desde o dia-a-dia até questões históricas. Joel Rufino também faz sua analise pela ótica das populações negras provenientes da diáspora africana no colonialismo europeu.

A principal motivação do racismo é o medo. Um grupo teme aqueles que são diferentes de seus semelhantes. O autor classifica como “uma ideia negativa a respeito do outro, nascida de uma dupla necessidade: se defender e justificar a agressão”.

O quadro mais latente na obra é o racismo no Brasil. A estrutura social brasileira é predominantemente racista e excludente. As condições financeiras e materiais estão intimamente ligadas com a questão da cor. No livro, a perspectiva histórica oferece recursos para compreender a relação do racismo com o sistema econômico atual, o capitalismo.

“Outra coisa que compreendemos melhor hoje: a divisão mundial do trabalho condenou uns países a produzirem artigos caros: objetos, tecnologia, ciência…; outros, a produzirem artigos baratos, matérias primas, alimentos, seres humanos… A cor encaixou-­se nesta divisão como luva: os primeiros eram brancos, os segundos, de cor”, aponta Joel Rufino dos Santos em seu livro.

O fim da escravatura no Brasil foi um processo controlado. Obedeceu às condições da elite branca, controladora do processo de formação do Estado brasileiro. Ao fim da transição, a população negra foi liberta da escravidão mas não do racismo e da diferença de classe. Sem nenhuma reparação ou auxílio, os negros foram soltos à revelia e marginalizados pelos valores sociais da época.

Justificados pelo pensamento científico daquele tempo, esses valores racistas desenharam a imagem de inferioridade do negro. Ao mesmo tempo, afirmaram a suposta superioridade branca enquanto ser humano.

O Estado brasileiro, recém transformado em República, passava pelo processo de construção da identidade nacional. Os negros eram vistos nesse plano como a raça inferior, capazes de prejudicar o progresso da nação. Dá-se início às políticas de branqueamento no país. Milhões de imigrantes europeus são trazido ao Brasil para branquear a população.

Esquecidos pelo Estado e sob o discurso da democracia Racial (Gilberto Freyre), a população negra foi marginalizada enquanto portadora de direitos. Criou-­se a falsa ideia de que as diferentes raças que formam o país conviviam harmoniosamente, sem conflitos ou diferenças. Soma-se a esse quadro a apropriação cultural do Estado sob a cultura negra, de forma que valores, costumes e práticas culturais oriundas dos povos negros brasileiros fossem usadas para construir uma falsa participação do negro no espaço democrático nacional.

De acordo com Joel dos Santos, “o brasileiro acha que falar no problema [do racismo] é subversão. (...) O mito da “Democracia Racial”, é uma forma brasileiríssima, bastante eficaz, de controle social”. Tão grande é esse controle que apenas em 1988, cem anos após o fim da escravidão, o crime de racismo foi incluído na Constituição Federal.

Nesse sentido, podemos observar a sistemática negação da ótica estrutural do problema dentro dos meios de comunicação, por exemplo. Apesar de subjulgar metade da população do país, os monopólios de mídia da elite abordam o racismo de forma pontual e descolada da realidade social brasileira.

O autor destaca que esse comportamento cria dois mundos. Um imaginário, que nega a questão racial e seus desdobramentos. E outro real, diretamente ligado ao cotidiano da população negra no país.

Peça importante para entender a questão e suas variadas formas, “O que é racismo?” consegue mostrar o racismo enquanto sistema, configurado com mecanismos distintos, mas que têm o mesmo fim: manter uma hierarquia desigual entre negros e brancos no país, seja com uma prática banal – como uma piada de mal gosto – até sua forma mais evidente, a morte.

O Brasil abriga a maior população negra fora da África. No entanto, ainda não foi capaz de oferecer cidadania plena a essas pessoas. Nesse contexto, o Estado tem dificuldades em reconhecer o desequilíbrio racial brasileiro. Políticas públicas de ação­ afirmativa ­ como as cotas em universidade, por exemplo ­ demoraram para aparecer. Portanto, “O que é Racismo?” mostra­-se fundamental para introduzir o racismo enquanto debate atual e necessário ao país que ainda acredita na democracia racial.

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