Texto: Anastácia Contemporânea / Ilustração: Bianca Buteikis


É Tempo de Anastácia!

Quantas de nós, mulheres negras, ainda somos silenciadas nos dias de hoje?
A busca da identidade e afirmação enquanto mulher, mulher negra, é uma estrada de percurso diário, com histórias vividas, ouvidas e contadas, com poesias de preencher a alma, amores de construção e dessabores, machismo a ser combatido, e racismos como pauta de luta.

É lutar diariamente contra os lugares comuns destinados a nós, nossas mães, avós e bisavós.
Anastácia não se deixou escravizar. E nós não vamos nos calar!

Por isso convidamos todas a escrever sobre si, sobre a outra, para outra e com a outra, numa tentativa de suscitar novos caminhos, novos sonhos e novas perspectivas, para nós, mulheres negras.

Estamos copilando relatos, poesia (contestação, romântica, erótica, qualquer uma) romances, histórias reais, memórias de mulheres negras (mãe, avó), manifesto, contos e crônicas de Anastácias Contemporâneas para lançarmos um livro coletivo!

Serão selecionados 50 escritas livres de mulheres negras e catalogadas para que o mundo entenda a complexidade que habita nossos corpos.

Topam embarcar com a gente nesse desafio?!

Mande o seu texto até 20.12.2015 pelo link - http://migre.me/s4jGX
ou pelo email: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.
‪#‎anastaciascontemporaneas‬

Texto: Thiago Borges, do Periferia em Movimento / Imagem: Thiago Borges


Carine, uma menina negra de três anos, ficou triste porque uma coleguinha branca da escola disse que seu cabelo era feio.

Em muitos colégios esse caso poderia passar batido, mas não onde a professora Cristiane Palheta dá aula – o Centro de Educação Infantil (CEI) Parque Cocaia, localizado no Grajaú, Extremo Sul de São Paulo.

“A coleguinha não falou por implicância, e sim porque sentia mesmo isso. Não significa que é racismo, mas a reprodução das referências que se tem”, explica Cristiane.

A educadora mediou uma conversa entre as duas crianças sobre a beleza de cada uma e envolveu toda a turminha no assunto.

“É difícil desconstruir isso porque todo o modelo de beleza que se tem é de uma mulher branca, loira, de cabelos longos, e mesmo no ambiente educacional essas questões não são discutidas”, diz Cristiane.

A falta dessas referências em escolas onde até 80% dos estudantes são negros ou pardos incomodou Cristiane, que começou a confeccionar bonecas pretas e indígenas para gerar identificação entre seus alunos e combater o racismo desde a infância.

É sobre esse trabalho que vamos falar em mais uma reportagem do “Cultura ao Extremo”, projeto realizado com apoio do programa Agente Comunitário de Cultura da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo que tem o objetivo de mapear e visibilizar as manifestações culturais no Extremo Sul.

Quem sou eu?

Cristiane, 30 anos, nasceu em Castanhal (PA), município com 186 mil habitantes. Aos 10 anos, ela e as duas irmãs mais velhas foram trazidas para São Paulo pela mãe, que trabalhava como doméstica para juntar dinheiro e buscar os filhos deixados com parentes no Norte do País.

Apesar da origem, foi em São Paulo que Cristiane firmou sua identidade. Com antepassados negros e indígenas, aqui ela não era reconhecida como afrodescedente por conta dos cabelos e lábios finos.

“Porém, até então eu também não me reconhecia como indígena. Grande parte da minha família se parece comigo, mas ninguém sabia direito sobre nossas raízes nem admitia porque até hoje no Pará existe uma imagem ruim do índio. Ninguém quer ser indígena”, explica.

Também devido à conotação ruim que a imigração dos povos andinos ganhou na cidade, Cristiane muitas vezes era chamada de “boliviana” por conta de sua aparência.

Muitos questionamentos de Cristiane começaram a ser respondidos em 2004, quando ingressou na faculdade de Pedagogia.

A experiência nas salas de aula foi essencial para o conhecimento interior de Cristiane, que contou com outro fator importante: a vivência no Extremo Sul de São Paulo.

Criada na Vila Califórnia (zona Leste), durante a graduação ela encontrou o atual marido Robson Oliveira – mais conhecido como Robsoul, rapper e professor –, com quem se casou um ano antes da formatura e se mudou para o Jardim Shangrilá, no Grajaú.

O interesse por saber mais sobre a ancestralidade e a existência de terras indígenas tão próximas de casa motivaram uma visita de Cristiane à aldeia Tenondé Porã, em Parelheiros. Lá, foi acolhida, se integrou às atividades da comunidade e recebeu um nome guarani: Jaxuka Mirim.

Foram quase três décadas para Cristiane afirmar sua identidade.

De volta às salas de aula, onde muitos dos estudantes eram negros e pardos, ela queria diminuir esse processo de descoberta entre seus alunos.

Entretanto, como abordar assuntos tão complexos com crianças de até três anos idade em um sistema de ensino que prioriza as referências europeias?

“O currículo escolar é totalmente eurocentrista, os livros de formação tanto para professores quanto para alunos só trazem pessoas brancas, então não era possível que uma criança construísse uma identidade positiva de sua etnia com base nisso”, diz ela.

Quem somos nós?
 
O Brasil tem duas leis (a 10.639, de 2003, e a 11.645, de 2008), que determinam o ensino da História e Cultura Afro-brasileira e Indígena nas escolas.

Entretanto, na prática, a leis ainda não são cumpridas ou se resumem a atividades nos dias do Índio ou da Consciência Negra.

Segundo a ONG Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades (CEERT), que promove o Prêmio Educar pela Igualdade, os melhores resultados são obtidos em ações individuais de professores como Cristiane.

Com a falta de brinquedos de referências indígenas ou africanas, a educadora resolveu fazer ela mesma: foram meses assistindo vídeos na internet, pesquisando hábitos e símbolos, e desenhando croquis até confeccionar com retalhos de pano uma bonequinha guarani.

Quando a boneca ficou pronta, Cristiane levou à Tenondé Porã para receber a aprovação da Jerá Guarani, uma das lideranças femininas da aldeia.

“Eu não queria me apropriar indevidamente dessas referências. Também tomei cuidado em fazer bonecas indígenas com grafismos específicos de cada povo, nada genérico, porque buscamos justamente combater esses estereótipos”, diz.

Em 2012, Cristiane levou a boneca para o CEI pela primeira vez. Contou histórias, deixou que as crianças brincassem, mas ainda estava insatisfeita. Com o próprio dinheiro, comprou outros brinquedos guaranis e fez bonecas maiores e pretas, além das indígenas.

Em 2013, uma colega apresentou a Cristiane as bonecas Abayomi, feitas com pedaços de roupas pelas mães para acalmar os filhos nos navios negreiros durante o translado entre a África e o Brasil, onde serviriam como escravos.

Desde então, as bonecas passaram a acompanhar histórias sobre princesas e guerreiros africanos, apresentando outros parâmetros para os pequeninos.

Apesar da aceitação pelas crianças, a professora já enfrentou resistência de pais, responsáveis e educadores de outras escolas. Além disso, sem apoio do poder público, ela depende da doação de retalhos ou tira dinheiro do próprio bolso para comprar os materiais que precisa.

“Minha maior conquista é trazer uma outra referência para as crianças, que podem escolher uma boneca parecida com elas”, conclui. “As bonecas são um instrumento de luta contra o racismo”. Carine, a menina do começo da matéria, agradece.

Tudo sobre…
Cristiane Jaxuka e as bonecas Abayomi
Região de atuação:
Extremo Sul de São Paulo
Linguagens: Artesanato, Oficinas
Temas abordados: Arte e cultura, Educação, Culturas afrobrasileiras, Culturas indígenas
Público principal: crianças (nas escolas), jovens e adultos (nas oficinas externas)
Critérios para participação das oficinas: Nenhum
Com quem se articula: Artistas locais, Escolas públicas e particulares, Movimentos sociais
Como se mantém: Recursos próprios
Maiores dificuldades enfrentadas no dia a dia: Conhecimento sobre gestão e falta de tempo para dedicação ao trabalho
Contatos: pelo e-mail (Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.) ou Facebook

O Alma Preta trocou uma ideia com o rapper Di Função sobre a relação entre a militância negra no Brasil e a ascensão do Rap nos anos 90.

Entre outros temas, o músico deu sua visão sobre o genocídio da população negra: "o governador sabe quem está matando, a população sabe quem está matando, os meios de comunicação sabem que está matando. Todo mundo sabe quem está matando e quem está morrendo".

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