Texto: Roque Ferreira / Edição de Imagem: Pedro Borges

No dia 25 de outubro, os deputados aprovaram em 2º turno a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 241, que congela os gastos públicos por 20 anos. Foram 359 votos a favor, 116 contra e duas abstenções.

A primeira aprovação ocorreu, ironicamente, um dia depois de um banquete servido por Michel Temer para os deputados, pago com dinheiro público, para convencê-los a aprovar o corte de gastos públicos.

O novo governo precisa mostrar serviço para seus amos capitalistas. Editou a Medida Provisória 746/2016, da contrarreforma do Ensino Médio. Articulou a aprovação da PEC 241 na Câmara, e ainda prepara a Reforma da Previdência, que pretende instituir a idade mínima de 65 anos para homens e mulheres se aposentarem.

O conjunto dessas medidas tem um objetivo claro: aprofundar o ajuste fiscal iniciado pelo governo Dilma.

Em agosto deste ano, a dívida pública bruta atingiu o patamar inédito de 70,1% do Produto Interno Bruto (PIB). Para conter os temores do mercado e garantir o pagamento da fraudulenta dívida, o governo parte com tudo para o corte de despesas.

A PEC 241 impõe um teto nos gastos públicos da União, limitando-os ao gasto do ano anterior, acrescido apenas da inflação do período. No caso da saúde e educação, de acordo com a proposta, o limite passaria a valer a partir de 2018.

No caso do salário mínimo, a PEC prevê que, se o Estado não conseguir cumprir o teto, fica impedido de dar aumento acima da inflação. Será o congelamento do miserável salário mínimo, hoje em R$ 880,00. Em uma simulação, se essa regra estivesse valendo desde 1998, hoje o salário mínimo estaria em R$ 400,00!

Câmara dos deputados aprovou em 1° e 2° a PEC 241

Se o teto não for cumprido, o governo fica impedido de abrir concursos, criar cargos e contratar pessoal. É um ataque brutal aos servidores, que ficarão sobrecarregados, e aos serviços públicos, que ficarão ainda mais sucateados.

A população aumenta ano a ano. Há 20 anos, o Brasil tinha 164 milhões de habitantes, hoje está em 210 milhões. É impossível manter o mesmo atendimento, para uma demanda maior, com o mesmo dinheiro.

São deploráveis as condições da saúde e da educação pública no país. Sem falar do transporte, saneamento, cultura, esporte, moradia etc. Congelar os gastos nessas áreas por 20 anos não é apenas manter a má qualidade. É piorar ainda mais.

A educação precisa de mais dinheiro, agora. Melhores salários para os professores. Mais escolas. Menos alunos por sala de aula. Melhor estrutura. Universalização do ensino, da pré-escola até a universidade.

O mesmo para a saúde. A situação atual do SUS é caótica. Pessoas morrem nas filas dos hospitais, ou esperando o agendamento de uma consulta ou exame. Faltam remédios. Faltam médicos. Falta estrutura. Faltam hospitais.

Temer disse no jantar com os deputados que “nós estamos cortando na carne com essa proposta”. Estão cortando na carne do povo, obviamente. Mas três coisas não sofrem cortes:

O pagamento da dívida: apenas os juros da dívida chegam a R$ 500 bilhões;

O “bolsa empresário”: empréstimos a juros subsidiados e isenção de impostos que chegam a R$ 240 bilhões;

O aumento de capital para empresas estatais não dependentes: aí estão incluídas Petrobras, BB e também pessoas jurídicas utilizadas para alimentar o mercado financeiro privado com o dinheiro público. Elas vendem papéis (debêntures) para investidores privados com até 60% de desconto e pagando juros de mais de 20%. Quem garante o pagamento aos investidores privados são os entes públicos. Por isso a PEC deixa de fora dos cortes essas empresas, que são parte da engenharia financeira para favorecer os grandes investidores e podem simplesmente dobrar a dívida atual.

Em resumo, a PEC corta o que vai para o povo e preserva e aumenta o que vai para banqueiros e investidores. E por isso todos os jornais e TVs fazem campanha a favor dela.

Como a população negra é o maior estrato da classe trabalhadora, ela será a parte mais atacada por estas medidas. Seremos empurrados ainda mais para a miséria, desprovidos de serviços públicos de qualidade, vitimados pela violência policial que faz a assepsia racial e social da juventude negra e pobre.

Quando mais se aprofundam a destruição dos direitos conquistados com muitas lutas pela classe trabalhadora, mais se aprofundam os processos de exclusão da população negra e a violência. O Estado e todo seu aparato judiciário, legislativo estão se utilizando de todas as mediadas para fazer valer os interesses dos capitalistas e das grandes corporações. Em todas as frentes estão organizando suas matilhas para atacar, o que nesta esteira faz recrudescer o racismo, o preconceito e a violência.

Somada às outras medidas em andamento, o que podemos esperar são duros ataques aos direitos e conquistas do povo trabalhador. Mas a luta de classes não para. As greves e ocupações de escolas são o prenúncio das explosões que se preparam. Nós negros devemos compreender definitivamente que o racismo, os preconceitos a violência não poderão ser vencidos dentro do sistema capitalista. A luta contra o racismo implica necessariamente no combate ao sistema de exploração de classe. Por isso afirmo que nós negros temos que estar nas primeiras fileiras para construir a unidade e as lutas das massas trabalhadora e da juventude contra os ataques.

Texto: Pedro Borges / Ilustração: Vinicius de Almeida

Frase era o subtítulo do jornal “O Clarim d’Alvorada”, um dos mais memoráveis periódicos da imprensa negra paulista

 

A história da imprensa no Brasil se inicia em 1808 com a fuga da família real portuguesa para a América do Sul, depois de D. João VI ser pressionado pelo governo francês de Napoleão Bonaparte. A chegada da coroa no Rio de Janeiro é o aceite da liberdade de imprensa no país e o surgimento dos primeiros periódicos, como a “A Gazeta do Rio de Janeiro” e “O Correio Braziliense”.

“O Homem de Cor”, primeiro jornal da imprensa negra, surge anos mais tarde, em 14 de Setembro de 1833, na capital fluminense. Outros veículos de comunicação desta mesma natureza logo foram produzidos, caso do “Brasileiro Pardo” e “O Cabrito”. Desde o momento de sua criação, a imprensa negra se fez presente em quase todas as décadas da história brasileira.

Esses tabloides surgem com um caráter de denúncia. Em suas páginas, editores e redatores como Paula Brito, denunciavam prisões arbitrárias e casos de discriminação racial contra a comunidade negra. Para ele, o grande crime que poderia ser cometido seria o silêncio diante do desrespeito à igualdade de direitos. 

A imprensa negra assumiu um caráter bastante político de exigência de direitos e questionamento sobre o Estado. Ana Flávia Magalhães, em análise da primeira edição do “Brasileiro Pardo”, aponta em seu livro “Imprensa Negra no Brasil do Século XIX” que “as alianças entre liberais moderados e os brasileiros pardos” tinham perdido a validade em 1833, sendo vistas como farsa naquele momento. O redator do Brasileiro Pardo argumentava que, nas disputas entre corcundas (absolutistas portugueses) e liberais, os “brasileiros pardos” teriam se posicionado a favor das últimas, atribuindo ao domínio português as causas dos problemas pelos quais passavam. Porém o passar dos anos foram suficientes para entender que a sua “classe” teria sido incorporada às pelejas de 1831, não pelo reconhecimento de sua importância como membros efetivos da sociedade brasileira, mas apenas como instrumento eficaz e valioso para a derrubada do antigo imperador”. (Pág 43).

OHomemdeCor

Anos mais tarde, em 1876 há uma presença também significativa da imprensa negra em Recife, Pernambuco. Tanto no século XIX quanto no XX, os ideais iluministas foram em maior ou menor medida muito presentes nos periódicos da imprensa negra de todo o país. O jornal pernambucano “O Homem” tinha em seu subtítulo uma explicação para cada um dos princípios da revolução francesa: liberdade, igualdade e fraternidade.

O veículo de mídia também propunha uma reflexão sobre as decisões do Estado brasileiro. Para “O Homem”, o país gastou cerca de 600 mil contos de réis na Guerra do Paraguai, quando esse montante seria suficiente para libertar todos negros na condição de escravo no país. Mais do que isso, dos 100 mil mortos na Guerra do Paraguai, apontou-se que 93 mil eram pretos.

“O Homem” manteve vida no período pós-abolição da escravatura e a partir de 13 de Maio de 1888, passa a criticar o afastamento de negros da máquina administrativa e de cargos no campo militar. A tentativa de limitar qualquer influência política de negras e negros no caminhar da nação faz o jornal colocar em questão os avanços do fim da escravidão.

As críticas ao pós abolição também seguiram em São Paulo, com os jornais “A Pátria” (1889) e “O Progresso” (1899), ambos veículos de mídia anteriores ao Menelik. A Pátria adotou ideais iluministas e apoiou os republicanos. A partir desse olhar, criticavam as dificuldades pelas quais a comunidade negra passou no período pós 13 de Maio de 1888, com a adoção da Lei Áurea. Em um dos trechos, questiona-se: “Ontem deram liberdade ao escravizado, mas esqueceram-se de que o liberto, que se transformara em cidadão, tem direito e precisão de ter uma pátria. Sim, quem mais do que eles têm direito sobre o solo em que pisam?” (A Pátria, n. 2, p. 2).

O Progresso, que fazia forte lembrança a abolicionistas como Luiz Gama, saudava o coletivismo negro e colocava a educação como imprescindível para superar a posição do negro na sociedade. Com as mesmas oportunidades, negros e brancos desenvolveriam as mesmas aptidões.

Essa imprensa paulista também combateu o subsídio estatal para a vinda de imigrantes europeus para o Brasil. Se rebatia essa possibilidade em todas as esferas. A soma de fatores encontrava: o absurdo da vontade de embranquecer a nação, a ideia de que o trabalhador branco europeu saberia melhor para manejar as terras e a agricultura brasileira do que o negro, já acostumado com a colheita, e o alto investimento do Estado para trazer esse trabalhador em tempo de ajuste fiscal.

Mídia politizada?

Oswaldo de Camargo, escritor e um dos editores do Níger, periódico da imprensa negra, explica que essa mídia tinha um caráter de educação e reflexão política. “É uma imprensa que quer educar. Ela não quer apenas noticiar, ela quer educar. Ela quer fazer uma nova abolição. Essa palavra foi cunhada na época. Era necessário fazer uma nova abolição. A maior parte dos que estão fazendo essa imprensa perceberam que a abolição tal como foi feita não teve o resultado que devia ter. A maior parte dos negros continua marginalizada, continua analfabeta, as mulheres continuam a maior parte empregadas domésticas. Uma boa parte dos homens estão muitas vezes desempregados”.

Entre as folhas da maioria dos jornais da imprensa negra é possível ver notas de falecimento, datas de aniversário, divulgação de eventos sociais, além de espaço significativo para contos e poesias. Essa característica foi entendida como motivo para descrever a imprensa negra do século XIX e início do século XX como despolitizada. Giovana Xavier, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), discorda e acredita que “esses jornais tinham a pretensão de ser um espaço de aprendizado e formação pedagógica para a comunidade negra. Há uma série de textos contra o alcoolismo, sobre a importância da higiene pessoal, da importância do cuidado com as crianças, de denúncia da exploração no trabalho doméstico. Reduzir esses jornais à divulgação de festas e eventos é uma perspectiva muito influenciada por Roger Bastide”.

ClarimQuilombo

Roger Bastide participou de um momento importante da história brasileira de reflexão sobre a condição do negro no país. O pesquisador desenvolveu estudos sobre a imprensa negra no estado de São Paulo e se tornou referência na área. Para ele, esses eram jornais de integração da comunidade negra, reivindicação, mas sob a influência da ideologia dominante. Somente na segunda fase da imprensa negra, pós 1920, Bastide acredita que a imprensa negra ganharia o caráter político. Ele ainda pontuava que a imprensa negra era um jornalismo adicional, que poucas informações trazia e ainda superestimava os valores negros. 

Giovana Xavier critica essa posição e esse olhar para a comunicação negra. “Tudo depende de quem lê e de como se lê esses jornais negros. Se eles são lidos a partir de um ponto de vista de produção de conteúdo branco, de sistematização do conteúdo branco, eles vão ser interpretados assim, como jornais despolitizados e festivos no sentido pejorativo e racista de festa”.

A professora da UFRJ exalta a imprensa negra e a coloca como um ato de rebeldia diante da realidade racista. “A grande questão desse material é propor um projeto político para a população negra naquele momento que passasse pela centralidade da escrita. Independente dos conteúdos que têm ali dentro, só isso já é muito revolucionário e transgressor”. 

Movimento negro

Os jornais negros estavam muito vinculados às associações pretas nas diferentes cidades. Muitos eram os porta-vozes de organizações que promoviam eventos e encontros sociais. Diferente do que é posto, essas associações tiveram posicionamentos políticos para a comunidade negra. 

“A Voz da Raça”, um dos mais importantes jornais negros do país, é um ótimo exemplo. Canal de comunicação da Frente Negra Brasileira, o tabloide tinha uma função estratégica para as diretrizes do movimento, que acreditava na formação como essência para uma ação política eficiente.

Giovana Xavier recorda a existência do “O Quilimbo”, folhetim do Teatro Experimental do Negro, criado por Abdias Nascimento e apresenta algumas características dessa imprensa. “Então tinha essa interface. Tinham alguns jornais que eram autônomos, mas geralmente eram veículos de comunicação de associações. A história da imprensa negra é a história do associativismo negro”.

Na década de 1950, o jornal “Mundo Novo” denuncia a forma como o voto negro era manipulado e diz que era preciso lutar por uma verdadeira democracia racial no país. O periódico se colocou então a favor da candidatura de um negro, Geraldo Campos de Oliveira ao legislativo.

A pluralidade de opinião desse movimento negro era notória. Se “A Voz da Raça” apresentava a Frente Negra Brasileira, a mesma organização boicotava e se opunha aos jornais “O Clarim da Alvorada” e “Chibata”, que faziam críticas às ideias e aos valores da organização.

Giovana Xavier ressalta que a imprensa negra é mais do que a associação com o movimento negro. “Assumir uma imprensa adjetivada pelo negro é um tipo de ativismo muito forte, porque é de novo assumir um lugar que não é pensado para a gente, o lugar da produção e sistematização de conteúdo escrito, que na verdade é um fator que mais nos pretere do que nos inclui, da maneira que as coisas são criadas. A imprensa negra é uma modalidade de movimento negro”.

Ela ainda cita exemplos contemporâneos para ilustrar essa condição. “Você pensa na relevância que um portal como o das Blogueiras Negras tem, com a quantidade de textos e de mulheres se descobrindo autoras. Não consigo muito separar, eu prefiro pensar a imprensa negra dentro do movimento, com a centralidade da palavra escrita”.

Os jornais de mídia negra também possibilitaram uma série de contatos internacionais com o movimento e o pensamento preto. Em São Paulo, a imprensa negra deu destaque para os textos de Marcus Garvey e a explicação sobre o que seria o pensamento e a prática pan-africanista.

Mais do que isso, Amilcar Pereira em sua obra “Mundo Negro: Relações Raciais e a Constituição do Movimento Negro Contemporâneo” apresenta como os jornais negros de Chicago e Baltimore muito exaltavam, na primeira metade do século XX, o movimento negro brasileiro. Existia uma admiração notória à Frente Negra Brasileira, colocada como uma das organizações mais poderosas do país.

Machismo

Muitos dos jornais da imprensa negra carregavam em seus títulos a proposta de dialogar com os “homens de cor”. A exclusão da mulher negra deste espaço é objeto de estudo de Giovana Xavier, no artigo “Leitoras: Gênero, Raça, Imagem e Discurso em O Menelik”. Para ela, a resistência preta nos EUA e no Brasil coloca o homem como figura principal no processo.

OMenelick

O papel das mulheres nesses jornais foi importante, mas em muitos casos se resumiu aos bastidores. Os homens negros se valeram de identidades centradas na masculinidade para silenciar mulheres negras, inclusive assinando textos escritos por elas. Giovana enfatiza que o mundo da escrita não pertence às mulheres, muito menos às negras. “Ou seja, jornalistas negros alimentaram as políticas de silenciamento de mulheres negras. E no nosso caso isso é complicado porque produz uma sensação permanente de não lugar dentro da comunidade preta e fora com os grupos brancos”.

Em 1916, O Menelik abre as suas páginas com uma chamada para um concurso de beleza para mulheres negras. A vencedora estamparia a primeira página. Para vencer, não bastava ser bela. Era preciso ser recatada, simpática e estar de acordo com os padrões comportamentais das mulheres brancas.

Nesses concursos, organizados por homens negros, existiam dois tipos de mulher de acordo com as definições apresentadas, a “moça” ou a “senhorita”. As primeiras seriam as virgens, donzelas e recatadas, enquanto as segundas seriam as de classe baixa e solteiras. Para participar do concurso, era preciso ser uma “moça”.

Os homens e assinantes do jornal eram aqueles aptos a decidir quais mulheres eram as “moças” e as “senhoritas” para depois votar em qual seria a miss. Giovana Xavier recorda que na época existiam muitas revistas masculinas que davam dicas para o sexo e a vida doméstica para as mulheres. Para a pesquisadora, essas revistas podem ter influenciado o imaginário e direcionado a ação desses homens.

O machismo, o enfrentamento ao racismo e toda organização política negra compunham toda a esfera da comunidade negra da época. Oswaldo de Camargo, escritor e editor do Níger, diz que a imprensa negra é uma ótima maneira de entender o sujeito preto naquele período histórico. “Esse negro que está escrevendo está refletindo a sociedade negra na época, 40 ou 50 anos após a abolição. Eu chamo a imprensa negra de “o rosto escrito da sociedade negra da época”. Você quer saber como foi o negro naquele tempo? Você tem que conhecer aquilo que chamamos de imprensa negra”.

A história da imprensa no Brasil se inicia em 1808 com a fuga da família real portuguesa para a América do Sul, depois de D. João VI ser pressionado pelo governo francês de Napoleão Bonaparte. A chegada da coroa no Rio de Janeiro é o aceite da liberdade de imprensa no país e o surgimento dos primeiros periódicos, como a “A Gazeta do Rio de Janeiro” e “O Correio Braziliense”.

“O Homem de Cor”, primeiro jornal da imprensa negra, surge anos mais tarde, em 14 de Setembro de 1833, na capital fluminense. Outros veículos de comunicação desta mesma natureza logo foram produzidos, caso do “Brasileiro Pardo” e “O Cabrito”. Desde o momento de sua criação, a imprensa negra se fez presente em quase todas as décadas da história brasileira.

Esses tabloides surgem com um caráter de denúncia. Em suas páginas, editores e redatores como Paula Brito, denunciavam prisões arbitrárias e casos de discriminação racial contra a comunidade negra. Para ele, o grande crime que poderia ser cometido seria o silêncio diante do desrespeito à igualdade de direitos.

A imprensa negra assumiu um caráter bastante político de exigência de direitos e questionamento sobre o Estado. Ana Flávia Magalhães, em análise da primeira edição do “Brasileiro Pardo”, aponta em seu livro “Imprensa Negra no Brasil do Século XIX” que “as alianças entre liberais moderados e os brasileiros pardos” tinham perdido a validade em 1833, sendo vistas como farsa naquele momento. O redator do Brasileiro Pardo argumentava que, nas disputas entre corcundas (absolutistas portugueses) e liberais, os “brasileiros pardos” teriam se posicionado a favor das últimas, atribuindo ao domínio português as causas dos problemas pelos quais passavam. Porém o passar dos anos foram suficientes para entender que a sua “classe” teria sido incorporada às pelejas de 1831, não pelo reconhecimento de sua importância como membros efetivos da sociedade brasileira, mas apenas como instrumento eficaz e valioso para a derrubada do antigo imperador”. (Pág 43).

Anos mais tarde, em 1876 há uma presença também significativa da imprensa negra em Recife, Pernambuco. Tanto no século XIX quanto no XX, os ideais iluministas foram em maior ou menor medida muito presentes nos periódicos da imprensa negra de todo o país. O jornal pernambucano “O Homem” tinha em seu subtítulo uma explicação para cada um dos princípios da revolução francesa: liberdade, igualdade e fraternidade.

O veículo de mídia também propunha uma reflexão sobre as decisões do Estado brasileiro. Para “O Homem”, o país gastou cerca de 600 mil contos de réis na Guerra do Paraguai, quando esse montante seria suficiente para libertar todos negros na condição de escravo no país. Mais do que isso, dos 100 mil mortos na Guerra do Paraguai, apontou-se que 93 mil eram pretos.

“O Homem” manteve vida no período pós-abolição da escravatura e a partir de 13 de Maio de 1888, passa a criticar o afastamento de negros da máquina administrativa e de cargos no campo militar. A tentativa de limitar qualquer influência política de negras e negros no caminhar da nação faz o jornal colocar em questão os avanços do fim da escravidão.

As críticas ao pós abolição também seguiram em São Paulo, com os jornais “A Pátria” (1889) e “O Progresso” (1899), ambos veículos de mídia anteriores ao Menelik. A Pátria adotou ideais iluministas e apoiou os republicanos. A partir desse olhar, criticavam as dificuldades pelas quais a comunidade negra passou no período pós 13 de Maio de 1888, com a adoção da Lei Áurea. Em um dos trechos, questiona-se: “Ontem deram liberdade ao escravizado, mas esqueceram-se de que o liberto, que se transformara em cidadão, tem direito e precisão de ter uma pátria. Sim, quem mais do que eles têm direito sobre o solo em que pisam?” (A Pátria, n. 2, p. 2).

O Progresso, que fazia forte lembrança a abolicionistas como Luiz Gama, saudava o coletivismo negro e colocava a educação como imprescindível para superar a posição do negro na sociedade. Com as mesmas oportunidades, negros e brancos desenvolveriam as mesmas aptidões.

Essa imprensa paulista também combateu o subsídio estatal para a vinda de imigrantes europeus para o Brasil. Se rebatia essa possibilidade em todas as esferas. A soma de fatores encontrava: o absurdo da vontade de embranquecer a nação, a ideia de que o trabalhador branco europeu saberia melhor para manejar as terras e a agricultura brasileira do que o negro, já acostumado com a colheita, e o alto investimento do Estado para trazer esse trabalhador em tempo de ajuste fiscal.

Mídia politizada?

Oswaldo de Camargo, escritor e um dos editores do Níger, periódico da imprensa negra, explica que essa mídia tinha um caráter de educação e reflexão política. “É uma imprensa que quer educar. Ela não quer apenas noticiar, ela quer educar. Ela quer fazer uma nova abolição. Essa palavra foi cunhada na época. Era necessário fazer uma nova abolição. A maior parte dos que estão fazendo essa imprensa perceberam que a abolição tal como foi feita não teve o resultado que devia ter. A maior parte dos negros continua marginalizada, continua analfabeta, as mulheres continuam a maior parte empregadas domésticas. Uma boa parte dos homens estão muitas vezes desempregados”.

Entre as folhas da maioria dos jornais da imprensa negra é possível ver notas de falecimento, datas de aniversário, divulgação de eventos sociais, além de espaço significativo para contos e poesias. Essa característica foi entendida como motivo para descrever a imprensa negra do século XIX e início do século XX como despolitizada. Giovana Xavier, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), discorda e acredita que “esses jornais tinham a pretensão de ser um espaço de aprendizado e formação pedagógica para a comunidade negra. Há uma série de textos contra o alcoolismo, sobre a importância da higiene pessoal, da importância do cuidado com as crianças, de denúncia da exploração no trabalho doméstico. Reduzir esses jornais à divulgação de festas e eventos é uma perspectiva muito influenciada por Roger Bastide”.

Roger Bastide participou de um momento importante da história brasileira de reflexão sobre a condição do negro no país. O pesquisador desenvolveu estudos sobre a imprensa negra no estado de São Paulo e se transformou em referência na área. Para ele, esses eram jornais de integração da comunidade negra, reivindicação, mas sob a influência da ideologia dominante. Somente na segunda fase da imprensa negra, pós 1920, Bastide acredita que a imprensa negra ganharia o caráter político. Ele ainda pontuava que a imprensa negra era um jornalismo adicional, que poucas informações trazia e ainda superestimava os valores negros.

Giovana Xavier critica essa posição e esse olhar para a comunicação negra. “Tudo depende de quem lê e de como se lê esses jornais negros. Se eles são lidos a partir de um ponto de vista de produção de conteúdo branco, de sistematização do conteúdo branco, eles vão ser interpretados assim, como jornais despolitizados e festivos no sentido pejorativo e racista de festa”.

A professora da UFRJ exalta a imprensa negra e a coloca como um ato de rebeldia diante da realidade racista. “A grande questão desse material é propor um projeto político para a população negra naquele momento que passasse pela centralidade da escrita. Independente dos conteúdos que têm ali dentro, só isso já é muito revolucionário e transgressor”.

Movimento negro

Os jornais negros estavam muito vinculados às associações pretas nas diferentes cidades. Muitos eram os porta-vozes de organizações que promoviam eventos e encontros sociais. Diferente do que é posto, essas associações tiveram posicionamentos políticos para a comunidade negra.

“A Voz da Raça”, um dos mais importantes jornais negros do país, é um ótimo exemplo. Canal de comunicação da Frente Negra Brasileira, o tabloide tinha uma função estratégica para as diretrizes do movimento, que acreditava na formação como essência para uma ação política eficiente.

Giovana Xavier recorda a existência do “O Quilimbo”, folhetim do Teatro Experimental do Negro, criado por Abdias Nascimento e apresenta algumas características dessa imprensa. “Então tinha essa interface. Tinham alguns jornais que eram autônomos, mas geralmente eram veículos de comunicação de associações. A história da imprensa negra é a história do associativismo negro”.

Na década de 1950, o jornal “Mundo Novo” denuncia a forma como o voto negro era manipulado e diz que era preciso lutar por uma verdadeira democracia racial no país. O periódico se colocou então a favor da candidatura de um negro, Geraldo Campos de Oliveira ao legislativo.

A pluralidade de opinião desse movimento negro era notória. Se “A Voz da Raça” apresentava a Frente Negra Brasileira, a mesma organização boicotava e se opunha aos jornais “O Clarim da Alvorada” e “Chibata”, que faziam críticas às ideias e aos valores da organização.

Giovana Xavier ressalta que a imprensa negra é mais do que a associação com o movimento negro. “Assumir uma imprensa adjetivada pelo negro é um tipo de ativismo muito forte, porque é de novo assumir um lugar que não é pensado para a gente, o lugar da produção e sistematização de conteúdo escrito, que na verdade é um fator que mais nos pretere do que nos inclui, da maneira que as coisas são criadas. A imprensa negra é uma modalidade de movimento negro”.

Ela ainda cita exemplos contemporâneos para ilustrar essa condição. “Você pensa na relevância que um portal como o das Blogueiras Negras tem, com a quantidade de textos e de mulheres se descobrindo autoras. Não consigo muito separar, eu prefiro pensar a imprensa negra dentro do movimento, com a centralidade da palavra escrita”.

Os jornais de mídia negra também possibilitaram uma série de contatos internacionais com o movimento e o pensamento preto. Em São Paulo, a imprensa negra deu destaque para os textos de Marcus Garvey e a explicação sobre o que seria o pensamento e a prática pan-africanista.

Mais do que isso, Amilcar Pereira em sua obra “Mundo Negro: Relações Raciais e a Constituição do Movimento Negro Contemporâneo” apresenta como os jornais negros de Chicago e Baltimore muito exaltavam, na primeira metade do século XX, o movimento negro brasileiro. Existia uma admiração notória à Frente Negra Brasileira, colocada como uma das organizações mais poderosas do país.

Machismo

Muitos dos jornais da imprensa negra carregavam em seus títulos a proposta de dialogar com os “homens de cor”. A exclusão da mulher negra deste espaço é objeto de estudo de Giovana Xavier, no artigo “Leitoras: Gênero, Raça, Imagem e Discurso em O Menelik”. Para ela, a resistência preta nos EUA e no Brasil coloca o homem como figura principal no processo.

O papel das mulheres nesses jornais foi importante, mas em muitos casos se resumiu aos bastidores. Os homens negros se valeram de identidades centradas na masculinidade para silenciar mulheres negras, inclusive assinando textos escritos por elas. Giovana enfatiza que o mundo da escrita não pertence às mulheres, muito menos às negras. “Ou seja, jornalistas negros alimentaram as políticas de silenciamento de mulheres negras. E no nosso caso isso é complicado porque produz uma sensação permanente de não lugar dentro da comunidade preta e fora com os grupos brancos”.

Em 1916, O Menelik abre as suas páginas com uma chamada para um concurso de beleza para mulheres negras. A vencedora estamparia a primeira página. Para vencer, não bastava ser bela. Era preciso ser recatada, simpática e estar de acordo com os padrões comportamentais das mulheres brancas.

Nesses concursos, organizados por homens negros, existiam dois tipos de mulher de acordo com as definições apresentadas, a “moça” ou a “senhorita”. As primeiras seriam as virgens, donzelas e recatadas, enquanto as segundas seriam as de classe baixa e solteiras. Para participar do concurso, era preciso ser uma “moça”.

Os homens e assinantes do jornal eram aqueles aptos a decidir quais mulheres eram as “moças” e as “senhoritas” para depois votar em qual seria a miss. Giovana Xavier recorda que na época existiam muitas revistas masculinas que davam dicas para o sexo e a vida doméstica para as mulheres. Para a pesquisadora, essas revistas podem ter influenciado o imaginário e direcionado a ação desses homens.

O machismo, o enfrentamento ao racismo e toda organização política negra compunham toda a esfera da comunidade negra da época. Oswaldo de Camargo, escritor e editor do Níger, diz que a imprensa negra é uma ótima maneira de entender o sujeito preto naquele período histórico. “Esse negro que está escrevendo está refletindo a sociedade negra na época, 40 ou 50 anos após a abolição. Eu chamo a imprensa negra de “o rosto escrito da sociedade negra da época”. Você quer saber como foi o negro naquele tempo? Você tem que conhecer aquilo que chamamos de imprensa negra”.

Para saber mais:

Imprensa Negra no Brasil Século XIX - Ana Flávia Magalhães Pinto

"Leitoras": Gênero, Raça, Imagem e Discurso em O Menelik (São Paulo, 1915-1916) - Giovana Xavier da Conceição Côrtes

O Mundo Negro: Relações Raciais e a Constituição do Movimento Negro Contemporâneo no Brasil - Amilcar Araújo Pereira

Tinta Preta e Pele Escura: A necessidade de uma Imprensa Negra - Solon Neto

Texto: Pedro Borges / Edição de Imagem: Pedro Borges

O sarau acontece todo o último domingo do mês na região do Itaim Paulista

No dia 30 de Outubro, domingo, acontece a edição especial de aniversário do Pretas Peri. Das 14h às 21h, as poetas Jô Freitas, Juliana Jesus, Tayla Fernandes e Janaina Cintia coordenam as atividades na Rua Manuel Álvares Pimentel, no Itaim Paulista, Zona Leste de São Paulo.

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O Pretas Peri começou as suas atividades em 2014, no antigo terreno baldio do bairro, quando Jô Freitas convidava grupos teatrais para se apresentarem na região. A chegada das demais integrantes foi essencial para exigir do poder público e da subprefeitura, com o apoio da comunidade, que se revitalizasse o terreno baldio e o transformasse em praça. Tayla Fernandes, uma das organizadoras do sarau, recorda que em Novembro de 2015, depois de muita pressão política, a praça foi construída. “Foi uma luta conjunta com a comunidade, resistência mesmo, vezes e vezes na subprefeitura para ouvirem nossas vozes. Havia um projeto que nunca saiu do papel para o terreno abandonado e provavelmente nunca sairia. Hoje é um espaço agradável, de encontro de jovens e famílias”.

Mais do que o sarau, o grupo promove ações, debates e mostras artísticas como forma de fortalecer a arte periférica. Mesmo diante das dificuldades para articular todas essas ações, Tayla exalta a satisfação na construção do Pretas Peri e indica projetos futuros do coletivo. “Da luta cotidiana, tiramos força de cada sorriso pra dar o melhor de nós mesmas, mesmo tendo jornada dupla, tripla e às vezes quádrupla, na correria com casa, trabalho, filho, estudos e a luta pela quebrada. Nos próximos passos pretendemos dar mais força ao Sarau. Outro desejo nosso é uma peça teatral. Imagine só: uma peça de luta sobre a mulher preta e periférica?!”.

A poeta destaca a importância do projeto ser articulado por mulheres negras, na medida em que as demais sentem-se representadas e a vontade durante o Pretas Peri. “Somos espelhos pra outras mulheres, assim como elas são para nós. Sabemos que passamos pelas mesmas dificuldades e a nossa luta é contra isso. Mostrar em forma de arte que elas podem soltar o cabelo crespo, que seu companheiro não pode oprimi-la, que ser de religiões como candomblé e umbanda não é feio, e que juntas temos mais força”.

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Tayla acredita que o Pretas Peri, assim como os muitos outros saraus de periferia em São Paulo e por todo o Brasil, é uma forma de manifestação da comunidade preta e periférica. “Somos movidas pelo mesmo sentimento que os nossos coletivos irmãos. Acredito que uma característica nossa seja a parceria forte com a quebrada. Todos fazem acontecer, é uma que traz a energia, outro que traz a lâmpada, o adolescente que desengaveta uma poesia, trabalhamos para que quando não podermos estar aqui tenha alguém que de continuidade no Sarau e terá!”.

Programação:

14hrs as 16h00 - Oficina de composição de poemas curtos com Brevescrita

Pintura e brincadeira para as crianças com Princiane Lucio

16hrs as 17hrs - Banda Pensamentos Libertinos

17h -Apresentação da peça homens de saia do coletivo bixo solto

17h30 - Coletivo Acuenda realizando o Cabaret D'ÁGUA

18hrs - Abertura do sarau com Oro dun aye-- A palavra, o som e o mundo de Luiz Carlos Garcia

(Microfone aberto)

Lançamento do livro - Mania de Mariana Felix

Intervenção com Ashante

Varal de Poesias

21hrs - show com Clarianas- Clariô

Serviço:
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