Texto: Pedro Borges / Edição de Imagem: Pedro Borges

Atividade acontece na UERJ, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, primeira instituição de ensino superior no Brasil a aderir ao sistema de cotas

O Coletivo Negrex, organização de estudantes negras e negros de medicina, e a Frente pela Democracia da Faculdade de Medicina da UERJ organizam no dia 9 de junho, quinta-feira, no Anfiteatro Ney Palmeiro, dentro das dependências do Hospital Universitário Pedro Ernesto, um debate sobre racismo institucional e cotas raciais nos cursos de medicina.

Mesas de debates e intervenções culturais têm o objetivo de questionar o racismo vigente tanto no atendimento da população negra, quanto na formação dos novos profissionais de saúde. Os organizadores pretendem colocar em pauta maior respeito às diversidades dentro da saúde no país.

UERJ foi a primeira universidade brasileira a adotar a política de cotas

Pesquisa Nacional de Saúde de 2015 mostra que 22% dos negros já se sentiram discriminados nos serviços de saúde no país. O Ministério da Saúde em 2014 divulgou dados que comprovam que 60% das mães mortas durante os partos no Sistema Único de Saúde (SUS) são mulheres negras.

Monique França, estudante de medicina da UERJ e integrante do coletivo Negrex, diz que o pioneirismo da universidade na adoção da política de cotas exige uma reflexão sobre o racismo na formação médica, algo pouco visto. “Desde 2009 existe uma Política Nacional de Saúde Integral da População Negra e nunca tive uma aula/seminário/ trabalho sobre o tema. A discussão de cotas no curso de medicina é importante por se tratar de um curso majoritariamente elitista, branco, permeado de privilégios sociais e ao se incluir diversos estudantes nesse lugar não pode se acreditar que apenas a inclusão é um processo que se finda nele mesmo”.

Ela ainda afirma a necessidade de enxergar a pluralidade da população negra, muito além dos padrões e estereótipos impostos na construção do país. “É preciso que o olhar sobre a saúde da população negra seja transversal e para isso é preciso que saibam que ela (r)existe. E (r)existe pra além dos serviços de limpeza, de segurança, mas como protagonista do cuidado, visto que são, não apenas, a maioria dos usuários do SUS como também da população brasileira e hoje estamos nas salas de aula querendo aprender como melhor cuidar do nosso povo e não repetir práticas eugenistas e racistas”.

Texto: Pedro Borges / Imagem: Moska Santana / Edição de imagem: Pedro Borges

Evento é organizado pela Frente de Mídias Negras de São Paulo em parceria do Celacc/Usp

Entre os dias 15 e 16 de julho, a Frente de Mídias Negras de São Paulo organiza um curso para apresentar o histórico da comunicação preta no país, a sua situação no presente e as técnicas utilizadas para a criação das novas plataformas digitais. A proposta é oferecer aos participantes as ferramentas básicas para a construção de um portal ou blog.

A atividade acontece na Usp, no campus Butantã, e conta com a parceria do Centro de Estudos Latino-Americanos sobre Cultura e Comunicação, CELACC-USP. O chefe do departamento de jornalismo e coordenador do CELACC-USP, professor Dennis de Oliveira, ressalta a importância da atividade. “Formação na comunicação eu sempre digo que é continua, ela nunca termina. Qualquer tipo de iniciativa, formação que tenha esse viés político, teórico, conceitual e prático sempre é bem vinda”.

Grupo é uma organização das mídias negras na cidade de São Paulo

Para o professor da USP, há hoje uma espécie de “inflação de informação” nas redes sociais e um curso teórico e prático sobre as mídias negras é a possibilidade de comunicadores pretos aperfeiçoarem seu conteúdo divulgado na internet. “Você tem muita gente produzindo informação, disseminando isso via redes sociais, via as plataformas digitais. E é importante então que aquelas iniciativas de comunicação que tenham uma perspectiva política e ética de transformação social, como são as mídias negras, se destaquem dessa inflamação de informação pela sua qualidade. A qualidade hoje é fundamental e qualidade quando eu digo, não é só do ponto de vista estético, mas é entender a importância política dessa iniciativa. É entender que isso faz parte de um processo histórico que outros ativistas já tiveram”.

Cronograma e convidados

No dia 15 de julho, a partir das 18h, os professores Dennis de Oliveira, Rosane Borges e Ricardo Alexino são os responsáveis por discutir o histórico das mídias negras no país. Na manhã seguinte, Pedro Borges do Alma Preta e Jéssica Moreira do Nós, Mulheres da Periferia dão um panorama sobre as mídias negras na atualidade.

No período da tarde, começam as oficinas técnicas. Renato Rovai da Revista Fórum mostrará ferramentas de busca e possibilidades de tornar o conteúdo mais fácil de ser acessado nas redes. Odemur será o responsável por apresentar técnicas de programação e plataformas possíveis para abrigar novas iniciativas na internet.

As integrantes do Nós, Mulheres da Periferia, Jéssica Moreira e Semayt Oliveira, ministrarão a oficina de texto para jornalismo especializado na internet e Mayara Penina, também integrante do grupo, ficará responsável por apresentar maneiras de potencializar o alcance de publicações nas redes sociais. Vinicius Martins, membro do Alma Preta, é quem vai apresentar técnicas multimídias e de design para os inscritos.

Celacc-USP é parceiro na construção do curso

Jéssica Moreira pensa que vivemos em outra realidade no campo da comunicação. Agora, não há mais um receptor da informação passivo e por isso é preciso apresentar todas as ferramentas possíveis de comunicação para que essa população negra e periférica continue a produzir e melhore cada vez mais o conteúdo já divulgado nas redes. “Democratizar as ferramentas de uso na internet também é um modo de democratizar a própria comunicação. Se cada um/uma aprender as técnicas utilizadas para formulação de sites, assim como as ferramentas necessárias para seu funcionamento, novas vozes podem ser multiplicadas, assim como novos jeitos de se contar histórias que, durante séculos, foram escritas por pessoas que não vivem a realidade das histórias que contam. Exemplo disso são as mídias negras, que cumprem um importante papel não só de democratização midiática, mas também de ampliação da memória, cultura e narrativa negra”.

Inscreva-se aqui

Frente de Mídias Negras de São Paulo

O grupo nasceu em 2015 com o intuito de aproximar diferentes iniciativas de mídia negra para discutir a democratização da comunicação no país sob o prisma da questão racial. A Frente tem por objetivo também documentar as experiências históricas da mídia negra no Brasil.

Texto: Pedro Borges / Edição de Imagem: Pedro Borges

Em 1942, no dia 17 de janeiro, na cidade de Louisville, no estado de Kentucky, nascia o maior atleta de todos os tempos, Cassius Marcellus Clay Jr.. Detentor de marcas e conquistas históricas, Muhammad Ali, nome que assumiu depois de se converter ao islamismo em 1967, está para além de números e estatísticas.

Descrever o mito do boxe ultrapassa seu cartel de 56 vitórias, sendo 37 por nocaute, e somente 5 derrotas. A vida de Ali não se limita aos seus três títulos de campeão do boxe, 1964, 1974 e 1978. Para o narciso negro, nas palavras de Jorge Ben, é pouco vencer o jovem Jorge Foreman em uma luta épica no Zaire e recuperar o título de campeão em 1974, aos 32 anos de idade.

Ali é mais. E só é mais, porque é único.

A lenda, vencedora de uma medalha olímpica aos 18 anos de idade em Roma, em 1960, travou lutas maiores. Enfrentou adversários que poucos ousaram um dia combater. Os 32 anos de luta contra o Parkinson, um dos poucos golpes que atingiram o eterno campeão, também não conseguem dimensionar quem foi Ali.

O mundo talvez não saiba, mas um dos maiores seres humanos de todos os tempos nos deixou.

O atleta do século XX tem um lugar reservado ao lado de figuras como Nelson Mandela, Ângela Davis, Martin Luther King Jr, Malcolm X. Ali aceitou enfrentar a doença, mal, problema que ataca todos aqueles e aquelas que nascem com a sua fenotipia, cor de pele, cabelo: o racismo. 

Ali consegue ser mais do que a recusa a defender os EUA na Guerra do Vietnã porque nunca um “vietnaminha o chamou de nigger” e mais do que ter sido um aliado de Malcolm X contra o racismo e pelos direitos do povo negro. Ali representa o orgulho e a autoestima de toda a população negra no mundo, seja em África ou nos países que constituem a diáspora africana, caso da América Latina e América do Norte.

O mito é o símbolo da resistência do povo negro mesmo diante das mais diversas pressões racistas. Foi o seu posicionamento político que fez o grande boxeador perder a licença para lutar, maneira encontrada pelos EUA para tentar silenciar e tirar os holofotes daquele combatente imbatível.

É exemplo de resistência, porque mesmo depois de tudo isso, recuperou o título de campeão do boxe e é reconhecido internacionalmente pela sua luta, história, inteligência e por seu carisma. Não há expressão melhor da força de Ali do que o ver ascender a tocha olímpica dos jogos de 1996, em Atlanta. Já com Parkinson, ele emocionou a todos quando apareceu no estádio e consigo trouxe a sua trajetória de superação.

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O atleta do século XX rompeu um dos piores estigmas do racismo: de que o negro não pensa. Mais do que um lutador quase perfeito, Ali tinha posicionamento político e em suas entrevistas, sua inteligência mais do que reconhecida.

Com Ali, negras e negros de todo o mundo sempre souberam que “é possível chegar lá”. Num mundo em que toda a representação negra é negativa, vinculada à imagem do “criminoso”, “marginal”, “malandro”, “suspeito”, a figura de Muhammad Ali tem importância imensurável.

A notícia da sua morte traz tristeza. A sua história, esperança.

Obrigado, Muhammad Ali.

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