Texto: Solon Neto  / Edição de Imagens: Vinicius de Araujo

Após uso de blackface em quadro, protestos e indignação de brasileiros e africanos, programa é denunciado pela OAB à SEPPIR

Com trilha sonora de tambores tribais surge em cena um ator branco com o corpo pintado de preto, um “blackface”. Ele balança os braços, mistura ingredientes com desprezo, e bebe água da torneira como um ser primitivo. De repente, dialoga com o sobrenatural, em alusão às religiões de matriz africana. Sua forma de agir exalta gestos tão ininteligíveis quanto sua fala, que se resume a um encadeamento de grunhidos sem sentido. Uma série inacreditável de estereótipos e desrespeito em rede nacional.

É preciso ter estômago para assistir ao personagem “Africano”, do Pânico na Band. Parte do “Pânico’s Chef”, sátira do sucesso de audiência “MasterChef”, o racismo na perfomance do ator Eduardo Sterblitch é intragável. Além do mais, racismo é crime inafiançável e imprescritível.

A televisão parece não ter limites, mesmo com pesado aporte de investimentos públicos feitos nela. Dados de 2012 mostram que a Rede Bandeirantes é o quarto canal de televisão em recebimento de verba federal de publicidade, dinheiro de impostos. Ela faz parte de um seleto grupo que concentra 70% dessas verbas. Assim como outros canais de televisão, usufrui de uma concessão pública para transmissão de seu sinal, utilizando do espaço público para exibir sua programação.

>Alma Preta tentou contato com a produção do programa, e apesar das perguntas recebeu como resposta a mesma nota enviada à Imprensa na semana passada. Na nota, o programa “pede desculpas ao público que se ofendeu com o personagem” e se justifica dizendo que o “Africano” faz parte de um quadro em que “há caracterizações de mexicanos, chineses, árabes, entre outros”. A reportagem questionou a assessoria de imprensa sobre a naturalização de xenofobia e racismo nessa resposta, porém não houve retorno. Alguns sites divulgaram junto com a nota a informação de que o personagem sairá do ar.

OAB denuncia racismo do programa à SEPPIR

No dia 10 de Agosto, o advogado representante da OAB e presidente da Comissão Nacional da Verdade Sobre a Escravidão Negra, Humberto Adami, enviou à Ouvidoria da Igualdade Racial da SEPPIR,Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, denúncia de racismo sobre o personagem. No documento, ele pontua que “esse tipo de afronta racial atinge toda uma etnia” e critica o uso do “black face”, pois contribui para “perpetuar os efeitos e resquícios da escravidão negra”.

Humberto informa que a denúncia não tipifica crime, porém constata que houve “uma humilhação, um dano, um menosprezo, uma forma de baixar a auto estima de toda uma população, e não de apenas um indivíduo. […] tendo sido contra uma coletividade, eu entendo que, se ficar caracterizado o crime, o crime é de racismo e não de injúria racial”.

O advogado, que também foi Ouvidor da SEPPIR por três anos, acredita que a reação contrária do público ao quadro montado pelo Pânico foi muito positiva, assim como o recuo imediato da emissora. Humberto acredita que a mobilização imediata mostra uma mudança de postura da população: “Até pouco tempo atrás isso passaria despercebido, como passou despercebido por uma grande maioria da mídia brasileira. Precisou um jornal do Senegal reclamar para que os grandes jornais brasileiros pudessem acordar e enxergar que não é natural esse tipo de deboche, esse tipo de programa. O próprio programa já tinha saído aqui duas vezes, e não se tem registro de que a grande imprensa brasileira tenha feito essa anotação de racismo nesse caso. Somente quando viram os africanos reclamando no Senegal e as reclamações na internet é que a mídia passa dar uma atenção. É preciso ter um olhar mais atento e mais imediato para esse tipo de questão que não pode ser naturalizado, não pode se achar que isso é uma coisa normal”.

O atual Ouvidor da SEPPIR, Carlos Alberto de Souza, pediu explicações à Rede Bandeirantes, além de encaminhar a denúncia ao Ministério Público Federal e Estadual, Ministério da Justiça e Ministério das Comunicações. O Ouvidor informou ao Alma Preta que a emissora ainda não enviou resposta, e as denúncias estão tramitando nos Ministérios.

Sobre a denúncia, ele declara: “Esperamos que eles possam tomar a providência da lei, que é o mais correto” e também “que as instituições possam adotar providências de não permitir que programas como esse venha disseminar o ódio e disseminar a discriminação e o preconceito”.

“Eu só consegui assistir aos primeiros doze segundos. É um absurdo”

Sandy Lara dos Anjos organizou no dia nove de agosto um evento no facebook em repúdio ao personagem. Em poucos dias milhares de pessoas aderiram à sua iniciativa, e multiplicaram-se as manifestações. Sandy tem 22 anos, é negra, trabalha como professora e vive na baixada fluminense, no Rio de Janeiro. Seus pais são militantes negros, e desde criança incentivam a filha a lutar pela causa. Ela soube do caso através de uma amiga e conta que mal conseguiu assistir ao vídeo: “Eu só consegui assistir aos primeiros doze segundos. É um absurdo”.

A militante diz ter recebido mensagens com tentativas de intimidação após criar o evento, o que é visto por ela como consequência do racismo da sociedade brasileira: “O que eu vejo e sinto é que estamos inseridos numa sociedade tão racista, que atos que nitidamente querem fazer chacota com uma raça, em público e sem pudores, são considerados coisas normais. E quem reclama é tido como louco e vitimista, tentam intimidar.”

Ela recorda que não é a primeira vez que há uso do “blackface” no próprio Pânico, que já cometeu o erro ao representar o lutador Anderson Silva. A televisão brasileira tem um histórico no assunto. O caso mais emblemático talvez seja o da novela “A Cabana do Pai Tomás”, exibida em 1969, na qual o ator Sérgio Cardoso fazia uso da técnica racista. À época o movimento negro protestou e o personagem saiu do ar.

“Não é o primeiro caso de Blackface no programa pânico, e longe de ser na TV. A mídia, que é constituída por pessoas que consideram isso normal, dá para a sociedade o conteúdo que ela acha legal rir. Quase todo programa de humor tem uma negra que é empregada doméstica e fala tudo errado, ou um cara negro que representa um safado, vagabundo que trai a esposa pra todo mundo rir. Todos julgam engraçado coisas que perpetuam estereótipos sobre pessoas negras.”

Recentemente, o programa “Zorra Total”, da Rede Globo, principal televisão beneficiária de verbas públicas de publicidade no Brasil, também foi acusado de racismo pelo uso de Black Face. A personagem “Adelaide”, interpretada pelo ator Rodrigo Sant’anna, é o exemplo típico do tipo de escárnio descrito por Sandy como corriqueiro na televisão brasileira. Em 2012, a personagem foi denunciada por racismo pela Ouvidoria da Igualdade Racial, orgão da SEPPIR, e passou a ser investigada pelo crime.

“A tendência é que esses casos venham cada vez mais à tona, porque cada vez mais estamos menos tolerantes com os racistas”. Sandy acredita que o quadro possa mudar conforme haja maior visibilidade para o povo negro brasileiro, que para ela deve “sair do cantinho”, apesar de não considerar isso uma tarefa fácil. Porém, ela enxerga que o episódio do “Africano” demonstra a necessidade de união, visto que os protestos geraram repercussão negativa para o programa.“Quanto mais negras e negros conscientizados mais diferença fazemos. O problema é que o racismo é tão cruel que faz com que pessoas negras julguem isso como normal e caiam no mito de que já não há mais racismo no Brasil.  Quanto mais negras e negros empoderados, mais avançamos pra cima dos racistas.”

“Brasil, um país racista?” Para africanos, a resposta é sim

O “Africano” repercutiu internacionalmente. Diversos veículos de comunicação mostraram incredulidade diante do uso do “blackface” e da forma como o programa “Pânico na Band” representou negros e africanos. Quem também deu espaço para a discussão foi o “Washington Post”, dos Estados Unidos, país marcado pelos conflitos raciais. Sandy Lara conta ter sido procurada pelo “News Day”, do “Zimbábue” e pelo “Lusaka Voice”, de Zâmbia. Já o site Senegalês “Seneweb” divulgou um vídeo com quadro com a pergunta “Brasil, um país racista?”. Os dados sobre violência no Brasil não deixam dúvida, assim como casos recentes de ataques a haitianos negros no Brasil também dão indícios da comportamento brasileiro no assunto.

Baw Artur, jovem angolano e estudante universitário, vive há cinco anos no Brasil, e afirma que percebeu o racismo no país desde sua passagem pela imigração. Ele diz ser testado todos os dias devido à sua cor e origem. Algo novo em sua vida, já que diz não ter vivenciado isso antes em Angola. Baw também recebeu com grave incômodo a notícia da existência do personagem do Pânico: “Além de ser um ato racista é uma forma como esses racistas e desumanos ferem a nossa integridade. É uma total falta de respeito e desconsideração pelos africanos que foram arrancados dos seus lares há muito tempo atrás e trazidos em péssimas condições para dar vida a esse lugar que todos os brasileiros chamam de pátria amada”.

Já Ozias La Blessed, nascida em Benin, também cursando universidade no Brasil, se sentiu indignada com o personagem: “Ao me deparar com esse vídeo, eu surtei. É como se eu fosse pegar os criminosos no flagra. Aí está a prova de que a mídia está transmitindo uma imagem da África que nós africanos não merecemos”. A estudante exige retratação por parte do programa, além da retirada do vídeo do ar. “Esse video da Band deve ser censurado. Para nós africanos perdoarmos isso, deveria ter outros números do pânico apresentando a verdadeira África. A África rica naturalmente, culturalmente e economicamente.”

Ozias conta que ao chegar aqui não tinha dimensão da herança cultural que a África deixou aos brasileiros, mas se sente decepcionada com a conotação ruim imprimida à essa herança: “Sempre soube que o Brasil tinha uma forte herança africana pelo fato de que tem descendentes brasileiros no meu país. Mas não sabia que ela era tão forte. Pensava que ela tivesse esquecida. Mas ao vir aqui, percebi que tem e bastante. Mas mais uma vez me decepcionei quando eu soube que essa herança é ligada ao mal, a tudo que é negativo.” Ela também se sentiu surpresa com a ignorância que muitos brasileiros demonstram sobre o continente africano mesmo tendo tanto da África em sua cultura. Ela, no entanto, acredita que há muita culpa da mídia nesse aspecto, e estranha as perguntas que já ouviu sobre sua casa:

“Desde que eu cheguei no Brasil, me deparei com a ignorância do pessoal sobre as realidades africanas. Eu já ouvi perguntas do tipo: você veio estudar aqui por que não tem faculdade no seu país? Lá você tem casa? Tem muita guerra e miséria no seu país?”. Ozias diz acreditar que o Brasil tem um racismo velado, presente em pequenas atitudes. Apesar de ser negra, ela afirma que aqui se enxerga principalmente como estrangeira em um país que não é seu: “um dia, voltarei pra casa, e lá , não verei mais o africano sendo humilhado”.

Por sua vez, Baw confirma a visão ao contar que ser africano no Brasil é ser visto como sobrevivente de guerra e de fome, e diz sentir duplo preconceito, um por ser negro e outro por ser africano. Baw atribui esses problemas à mídia brasileira, excessivamente voltada para a Europa e Estados Unidos, e que trata a África com estereotipação: “A mídia brasileira é voltada para o ocidente. Ela  não passa nada de África, a mídia brasileira é retrógrada e defasada. Quando se fala de África, a mídia brasileira apresenta fome, guerra e animais selvagens, e não enxerga ou mostra a sua própria herança, que contribuiu para esse Brasil e para o mundo. Enquanto isso não acontece, nós africanos e descendentes de África continuaremos a nos orgulhar da nossa mãe África”.

Texto Vinicius Martins / Ilustração Vinicius de Araújo

As representações raciais estereotipadas, criadas no fim do século XIX, persistem na imprensa até hoje

A escravidão permeou toda a colonização brasileira e mais meio século da independência. Inicialmente restrita aos indígenas, teve a participação dos povos africanos aproximadamente 50 anos após a chegada europeia às terras brasileiras. Estima-se que cerca de 3,5 milhões de negros tenham sido trazidos forçadamente da África ao Brasil.

A dominação de classe e de cor de brancos contra negros durou cerca de três séculos. Foi construída em cima da exploração e apropriação violenta do imperialismo europeu. Apenas em 1822 o Brasil daria fim ao regime escravocrata. Último país da América a deixar o modelo.

Nesse contexto de transição que trazia o fim da escravidão e a transformação do Brasil império em Brasil república, inúmeras representações e estereótipos a respeito dos afrobrasileiros foram criadas.

O livro “Retrato em Branco e Negro” da antropóloga Lilia Moritz retoma algumas ideias e representações da época. A partir do estudo dos primeiros jornais da cidade de São Paulo. A análise faz um recorte d’A Província de São Paulo (atual Estadão), do Correio Paulistano e A Redempção (jornal abolicionista).

Datados do meio do século XIX ao início do século XX, as notícias e anúncios publicitários estudados fornecem um retrato das relações raciais durante o processo de abolição. A cidade de São Paulo vivia um intenso momento de desenvolvimento. Construiu-se a primeira Faculdade, as primeiras ferrovias e a população cresceu exponencialmente.

Diante da aproximação da inevitável abolição da escravidão, a população negra passa a figurar cada vez mais nos jornais. Um emaranhado de representações vem à tona. Embasadas pelo discurso científico-positivista da época, o negro é retratado de forma inferior, como uma sub-raça humana. Essas ideias também foram responsáveis por motivar as políticas de branqueamento da sociedade brasileira no mesmo período.

O jornal conservador Correio Paulistano, alinhado aos interesses do Império, se portava de forma mais agressiva à questão negra. Haviam constantes afirmações dos negros como um problema para a sociedade, como raça que inferiorizaria a sociedade e marcada por estigmas como a violência animal e o vício.

A Província de São Paulo próximo aos repúblicanos se colocava como um jornal “imparcial” e moderno. Fazia constante uso do discurso do progresso e da ciência. Essas visões se expressavam na forma de retratar a realidade paulista daquela época. O negro era visto como inferior por um discurso científico hegemônico que hierarquizava as qualidades de cada povo humano e tinha como modelo de raça evoluída os brancos europeus e seus descendentes.

O terceiro jornal analisado foi A Redempção. O veículo era pró-abolicionista radical dentro do debate da escravidão. Entretanto, cabe ressaltar, era um veículo dirigido por brancos pertencentes à elite paulista. Ou seja, era um olhar ainda distante das reais necessidades que a população negra cativa tinha na época.

Dentre as diversas representações dos afrobrasileiros nesses jornais podemos identificar ideias presentes até hoje no imaginário social. O negro foi representado como ser violento e bárbaro, incapaz, imoral, sexualizado (sobretudo as mulheres). Sempre elogiado quando assumia os papéis sociais que lhe impunham (docilidade). Suas manifestações culturais eram vistas ora como bárbarie, ora como exóticas. Tal fato marcou profundamente o Samba, a Capoeira e as atividades religiosas (vistas como feitiçaria ou magia impura). Por outro lado, a elite branca era vista como exemplo de ser humano a ser seguido, sempre acompanhadas de elogios e exaltações às qualidades dos senhores de escravos.

Lilia Moritz faz um ótimo recorte ao evidenciar que a imprensa daquele período histórico era um grupo restrito de brancos pensando sobre negras e negros objetificados. Cabe reforçar que nunca havia espaço para a voz e a figura negra a partir de seu próprio olhar. Tal fato está ligado às origens e composições da atividade jornalística, uma profissão liberal em sua essência e ligada às classes médias altas.

As representações e estigmas propagados pelos jornais daquela época se difundiram ao passar dos anos. Ou seja, mantiveram-se vivos, entretanto, implícitos nas entrelinhas dos jornais até hoje. A profissão de jornalista ainda é branca (cerca de 22% dos profisssionais é afrobrasileira). O negro ainda figura restrito em determinadas seções dos jornais, como as páginas policiais, de cultura ou esporte. Quase sempre reafirmando antigos estereótipos negativos.

Se os jornais são capazes de construir uma representação de mundo ética e estética nas sociedades em que estão inseridas, pode-se dizer que o racismo e o preconceito à cor negra estiveram presentes na mídia burguesa do século XIX. O racismo se construiu e se difundiu a partir das páginas dos periódicos de ontem e de hoje.

Texto: Pedro Borges / Edição de Imagem: Vinicius de Araújo

Passados 100 anos da oficialização da política do embranquecimento, o Brasil vê um dos principais símbolos da cultura negra ser apropriado e embranquecido: o futebol

Em 1911, aconteceu na cidade de Londres, Inglaterra, o Congresso Internacional das Raças. O encontro tinha o propósito de buscar soluções para os países com problemas étnico/raciais. João Batista de Lacerda foi o representante brasileiro e apresentou o projeto do Estado para resolver a questão. A intenção do governo chefiado pelo então presidente Hermes da Fonseca era a de exterminar a presença física e cultural do negro em cem anos.

O anúncio apenas confirma o racismo estrutural deste país. Para dizimar a população negra e cultuar a branquitude, esforços não foram poupados. Tudo o que esteve ao alcance do Estado foi feito para concretizar o sonho nacional: eliminar o histórico africano do Brasil.

Exemplos disso são inúmeros. Durante a escravidão, cerca de 4 milhões de africanos escravizados vieram para cá. Ao invés de incluir a população negra no mercado de trabalho da sociedade pós escravocrata, preferiu-se por trazer aproximadamente 4 milhões de imigrantes europeus para embranquecer o país. O Mapa da Violência é outro indicativo de como essa política ainda é vigente. De 2002 a 2012, o número de jovens brancos assassinados caiu de 36,7% para 22,8%, enquanto o de negros subiu de 63% para 76,9%.

Essas foram as principais políticas adotadas pelo Estado brasileiro para embranquecer o país, a miscigenação e o extermínio de pardos e pretos. O genocídio da população negra ainda é sistemático e, inclusive, protagonizado pelo Estado, na medida em que muitos dos jovens são assassinados pelo seu braço armado, a polícia. O incentivo à miscigenação deixou de ser uma política oficial, mas ainda é muito presente no cotidiano. A pesquisa “Cor nos Censos Brasileiros” de Edith Piza e Fúlvia Rosemberg mostra como o ideal da branquitude ainda é muito vivo. As pessoas evitam se identificar enquanto negras. O estudo documentou inúmeras definições para os tons de pele da população, todos muito presentes no cotidiano nacional, como “café com leite” e “toddynho”. A partir disso, é intrigante observar como muitos preferem recorrer a definições esdrúxulas a se auto afirmarem enquanto negros, ou pretos.

Passados pouco mais de 100 anos do Congresso Internacional das Raças, os negros ainda sobrevivem. Se o Brasil não conseguiu eliminar por completo a população negra, o Estado teve sucesso inquestionável com a estratégia de atacar a identidade e a cultura afro-brasileira.

Por isso, João Batista de Lacerda, como um bom racista, estaria muito feliz com os resultados do seu projeto. O que Lacerda talvez não imaginasse seria o sucesso no embranquecimento do futebol, um dos maiores símbolos da comunidade negra brasileira, senão for o maior.

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O trecho da versão de “Umbabarauma” gravada por Jorge Ben com a participação especial de Mano Brown evidencia a importância do futebol para o negro brasileiro. Sem referências na política, educação, ou economia, muitos se apegaram ao esporte e mais precisamente ao futebol para prosperar. Dagoberto Fonseca, professor de antropologia da Unesp de Araraquara, apresenta como “o futebol é de suma importância não enquanto o futebol somente, mas enquanto esporte. O esporte é de fundamental importância para a população negra se reconhecer e enquanto possibilidade de ascensão social. E o futebol não é diferente. Se a gente estabelece que o futebol é arte, e essa arte é de origem africana e é tão importante no processo ascensional do negro no Brasil e nos EUA, damos conta da importância do esporte para essa população.”.

Dagoberto acredita que a política de embranquecimento alterou ao longo da história a relação entre a população negra e o futebol. Ele apresenta como essa estratégia ganhou corpo depois da Copa de 1970. “Você vai verificar uma presença marcante de uma população negra decisiva para aquela Copa, como o próprio Pelé, o próprio Jairzinho, mas você tem ali Paulo César Caju e outros tão importantes quanto. Na Copa de 74, você tem um esvaziamento. E isso seguiu. E você vai ter a presença negra apenas na Copa dos EUA, com destaque para Romário. Então você pode verificar que a Era Sócrates e Zico não vingou enquanto título. Você precisou de uma população negra marcante e decisiva para você fazer isso. Você vai verificar que na Copa do Japão e da Coréia do Sul, você vai ter um Rivaldo, um Roberto Carlos, um Cafú, e um Ronaldo fenômeno que muito embora não se achava negro, não tem como não dizer isso.”

Juarez Xavier, professor de jornalismo da Unesp Bauru e Coordenador do Núcleo Negro da Unesp para Pesquisa e Extensão, NUPE, ainda salienta a obsessão da mídia esportiva brasileira de construir um Pelé branco. Os exemplos para ele são diversos, desde Falcão e Zico, até Paulo Henrique Ganso. A vontade midiática nada mais exprime o desejo de destruição da imagem do negro em detrimento do culto ao branco por meio da desconstrução de símbolos negros. O professor da Unesp afirma que o ápice desse projeto de embranquecimento do futebol nacional se deu com a seleção da Copa de 1990. Sebastião Lazaroni “convocou uma das seleções mais branca que o país já teve. Com o apoio de parte da imprensa, inclusive com comentários racistas na televisão. O fracasso daquele time naufragou o projeto, por enquanto!”.

Dentro dessa lógica, o país não só tenta embranquecer um dos maiores ícones da identidade brasileira, a seleção de futebol, como rejeita até hoje o nosso modo de jogar. Carlos Thiengo, Doutor em Educação Física pela Unicamp e Coordenador Pedagógico da Ginga Escola de Futebol, recorda que, ao ver Gana x Alemanha em um campeonato de base, ficaram nítidas as diferenças entre os jogadores das duas seleções. Se o alemão preferia o passe, o ganês optava por carregar a bola. E é dessa matriz africana e é com essas características que surgiram os nossos maiores talentos: Pelé, Garrincha, Ronaldinho Gaúcho, entre outros.

Curioso, porém, é o desprezo que parte do país tem acerca do único futebol pentacampeão. Carlos Thiengo mostra como seleções e times de destaque mundial vieram ao Brasil para entender o modo como jogamos. Uma dessas equipes é a Holanda de 1974, que ficou conhecida como o Carrossel Holandês de Cruyff e o Ajax, time holandês que dominou a Europa da época.

O Brasil, porém, seguiu a cartilha do embranquecimento e incorporou o futebol europeu sem nenhuma crítica ou adaptação. Carlos Thiengo recorda como passamos a privilegiar nas categorias de base, por exemplo, garotos fortes e altos, enquanto o Barcelona e diversos clubes europeus extinguiram há anos a exigência de determinada altura para os jogadores em formação.

Mais do que rejeitar a negritude enquanto símbolo a ser seguido e mais do que negar o tradicional jeito brasileiro de jogar, os clubes têm excluído a população negra dos estádios com a construção das arenas. Os pretos, de fora, não podem mais ver de perto seus ídolos, talvez suas únicas referências nacionais para ainda afirmarem a sua identidade. Dagoberto constata como “dentro desse contexto, você vai encontrar justamente em todos os estádios brasileiros, uma presença de praticamente 90% de população branca e um pequeno resíduo de população negra, ou de outras origens étnico/raciais”. Ele ainda ressalta como durante a Copa do Mundo parte significativa dos negros presentes nos estádios eram de outros continentes, sejam africanos ou até mesmo norte-americanos, e não afrobrasileiros.

Dagoberto ressalta também como as bases do nosso futebol se alteraram. Se antes crianças aprendiam a jogar nas ruas, nos campos de várzea e viam o futebol como uma brincadeira, hoje os jovens são encarados como atletas e, por isso, precisam se aperfeiçoar, praticar e repetir os fundamentos do esporte. “Dos anos 90 para cá, o que você tem são as escolinhas de futebol. E as escolinhas são financiadas por clubes e por empresários ligados ao ramo. E você tem um processo pelo qual a gente possa entender o esvaziamento do futebol brasileiro, de uma presença negra que não vê mais os campos de várzea e que não vê mais os campinhos de rua, porque as ruas no Brasil, uma grande maioria delas nas cidades de grande e médio porte, estão asfaltadas.”.

Para Juarez, porém, é possível inverter o quadro, desde que se valorize as raízes negras da cultura nacional e desde que os jogadores assumam a sua origem africana e denunciem o preconceito, como fazem os astros da NBA.

Juarez Xavier mostra como o “Neymar –a exemplo de outros jogadores da mesma geração, e isso ocorre há bastante tempo- é ignorante e alienado, sobre questões ligadas ao futebol e fora dele. Isso fica evidente na relação dos jogadores brasileiros com os estrangeiros. Na questão da luta contra o racismo no futebol, os africanos –Samuel Eto’o- e os europeus –Lilian Thuram- estão a anos luz dos brasileiros, que não se posicionam [nem no caso do Roberto Carlos e depois do Daniel Alves] e não se pronunciam. Quando fazem é um desastre, como no caso do Ronaldo que se achava branco.”.

Enquanto isso não acontece, os ingressos dos jogos ficam cada vez mais caros, há cada vez mais atletas que jogam de acordo com os padrões europeus, assim como há um crescente esvaziamento do futebol para a população negra. Veremos também cada vez menos o futebol como uma festa popular e cada vez menos jogadores geniais ao nosso excepcional estilo.

Resumo da história? João Batista de Lacerda 7 x 1 Garrincha.

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