Texto: Divulgação / Edição de imagem: Vinicius Martins

O escritor, artista visual, teatrólogo, político e poeta, além de um dos maiores ativistas dos direitos civis e humanos das populações negras, que deixou um legado de lutas pelo povo afrodescendente no Brasil, é o homenageado da 32ª edição da série Ocupação do Itaú Cultural; como nas anteriores, a exposição é acompanhada de programação em sinergia com os temas que ela propõe, e também de um site e de uma publicação disponibilizada aos visitantes

Com abertura para o público no dia 17 de novembro – 16, para convidados – a 15 de janeiro de 2017, a trajetória do intelectual negro, figura fundamental da história de combate ao racismo no Brasil, é apresentada na Ocupação Abdias Nascimento, no Itaú Cultural. A exposição resgata momentos emblemáticos em sua história, sua participação em grupos artísticos como a Santa Hermandad Orquídea, a fundação de iniciativas artísticas de forte caráter político como o Teatro do Sentenciado, o Teatro Experimental do Negro e o Museu de Arte Negra, e de grupos de articulação política, social e de pesquisa como a Convenção Nacional do Negro, o Memorial Zumbi, o Movimento Negro Unificado e o Instituto de Pesquisas e Estudos Afro Brasileiros – Ipeafro. Estão também representados seus mandatos como Deputado e Senador.

A curadoria é do Itaú Cultural, do Instituto de Pesquisas e Estudos Afro-Brasileiros, de Vinícius Simões, que também assina a cenografia, e de Elisa Larkin Nascimento, co-fundadora e diretora presidente do Ipeafro. No legado que Abdias (1914-2011) deixou para o país, as suas obras teóricas abordam questões relacionadas a lutas sociais, afirmação de identidades negras e defesa de seus direitos. Depois de intensa pesquisa a partir do acervo do Ipeafro, a curadoria reúne exposição de pinturas, documentos históricos, correspondências, discursos, entrevistas, depoimentos, manuscritos e fotografias. Todo o conjunto revela a intensa atividade e personalidade deste notável brasileiro, de quem não é possível separar o ativista, o artista e o intelectual.

Quatro eixos apresentam a Ocupação Abdias Nascimento: A Mulher da Banda de Fora, Teatro Dentro de Mim, As Borboletas de Franca e Sankofa. Eles demonstram esta íntima relação entre a produção artística e política do homenageado, evidenciando como ele trabalhou de maneira estética e discursiva com temas como combate ao racismo, pan-africanismo, diáspora africana, ancestralidade e tradições religiosas e signos de matriz africana”.

Patrimônio artístico e intelectual


Como lembra Elisa Larkin, aos 30 anos Abdias Nascimento já havia sido duas vezes preso político; viajado a América do Sul, a partir do Amazonas, com os poetas da Santa Hermandad Orquídea; passado um ano no Teatro del Pueblo de Buenos Aires; e criado dentro do Carandiru o Teatro do Sentenciado. Na prisão, ele escreveu o romance Zé Capetinha e o livro Submundo. Fez uma extensa atuação artística no Teatro Experimental do Negro (TEN), criado por ele, onde também organizou convenções e congressos para combater o racismo na academia e na política. Publicou o jornal Quilombo, que aprofundava o debate e a reflexão sobre arte negra, negritude e a questão racial, abrindo suas páginas a candidatos negros de todos os partidos.

Voltando ao Brasil, Abdias retomou o ativismo junto a uma nova geração do movimento negro e ajudou a fundar o Partido Democrático Trabalhista (PDT), com Leonel Brizola.

Assumiu como deputado federal ao lado do indígena Mário Juruna, atuou como senador e secretário do governo do estado do Rio de Janeiro. Continuou pintando e publicou peça e poesias ao lado de obras como O Quilombismo, O Genocídio do Negro Brasileiro e Sitiado em Lagos.

Para dar uma ideia do patrimônio artístico e intelectual que ele deixou, só a sede do Ipeafro, no Rio de Janeiro, contém imagens, documentos, obras de arte e registros áudios-visuais produzidos e recebidos por Abdias Nascimento e pelas instituições que ele criou ao longo de sua vida ativa. O acervo que tem itens de 1926 até a atualidade, contém aproximadamente 15 mil imagens entre cromos, negativos, e ampliações fotográficas em cores e em preto e branco de diversos tamanhos; 25 metros lineares de documentos textuais; 800 peças museológicas entre prêmios, medalhas e obras de arte, como pinturas, desenhos, gravuras, esculturas em diversos tamanhos e materiais, incluindo aproximadamente 200 obras de Abdia e 400 obras de arte da coleção Museu de Arte Negra, da qual ele foi fundador e curador.

Publicação, site e programação

Uma publicação produzida pelo Itaú cultural faz parte da Ocupação Abdias Nascimento e será disponibilizada ao público. Nela, o leitor poderá se aprofundar no conhecimento da trajetória política e artística deste intelectual. Alguns dos textos falam do Abdias inteiro e de sua relevância para os dias de hoje. Quanto a isso, é possível dizer que as temáticas que ele pôs em evidência continuam, infelizmente, atuais. Para discutir o que mudou e o que persiste nesse cenário, foram convidados ativistas e grupos políticos que prosseguem o embate pela igualdade no Brasil contemporâneo e contam a sua experiência.

Os debates sobre o legado de Abdias têm ainda um espaço no site Ocupação –itaucultural.org.br/ocupação –, que reúne artigos sobre como ele compreendia a diáspora (a saída forçada do povo negro do continente africano) e as comunidades quilombolas do Brasil contemporâneo. Além disso, entrevistas com artistas e ativistas que foram marcados pelo trabalho do homenageado.

Uma extensa programação, no Itaú Cultural e que se estende a outras instituições, compõe a Ocupação Abdias Nascimento, começando um dia depois da abertura da mostra. Na Conferência Performática – Uma ação Cartográfica Dia Nacional da Consciência Negra, no dia 17, o Dj e pesquisador Eugênio Lima, curador e mediador da conferência performativa, convida o público a fazer uma reflexão sobre o pensamento de Abdias do Nascimento a partir do momento atual. A ação tem participação do professor e ativista Douglas Belchior e a atriz Roberta Estrela D’Alva.

A programação segue de novembro a janeiro, entre performances, leituras dramáticas de peças encenadas pelo TEN – do próprio Abdias e de outros autores – na Sala Itaú Cultural, no Auditório da Secretaria Municipal de Igualdade Racial (SMPIR) e nos CDRs de Cidade Tiradentes, Vila Maria e Jabaquara. Em dezembro integra a série Fim de Semana em Família, do Itaú Cultural, com uma oficina de Adinkras com o Coletivo Manifesto Crespo e a apresentação do espetáculo A Casa de Irene, com o Grupo Teatral Saga. No mesmo mês, é lançado o número 39 da série Cadernos Negros e uma reedição do livro O Genocídio do negro brasileiro, de Abdias Nascimento (veja a programação completa mais adiante).

Texto e edição de imagem: Solon Neto / Fotos: Paulo Oliveira

Em dois anos, UNESP registra 6 casos semelhantes em suas unidades

Esta semana, membros do Coletivo Negro Afrontar encontraram pichações de suásticas nazistas e frases atacando negros feitas em um dos banheiros do campus da UNESP, em Franca-SP.

As frases diziam “Fora pretos nogentos fedidos [sic]”, “Mestiço aceita sua história!!![sic]” e “Manda pro Zoológico”. Segundo membros do coletivo, um dos funcionários da limpeza já havia visto as pichações há alguns dias, porém só agora chegou ao conhecimento dos membros.
Os estudantes formalizaram uma denúncia na Polícia Militar, acompanhados pela vice diretora da unidade.

Para Elias Nascimento e Nathalia Galvão, do coletivo Afrontar, os casos coincidem e podem estar relacionados com acontecimentos recentes do campus. Ambos concorriam a uma vaga como representantes discentes no curso de Direito, a única chapa negra no pleito. Segundo eles, isso causou debates acalorados entre os alunos.

Outro caso que levanta dúvidas envolve a EJUR, Empresa Junior Jurídica da faculdade. A presidenta da empresa júnior, aluna da faculdade, pediu afastamento do cargo após ser acusada de injúria racial.

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Para Elias Nascimento, os casos têm relação. “Acredito que elas já vêm de um tempo. Tivemos pichações anteriores e sabemos que se trata de um racismo estrutural dentro da universidade pública, entretanto sou levado a acreditar que após meses sem pichações racistas no campus elas reaparecerem justamente no corredor de direito, em semana de eleição, tem relação com a organização política dos pretos do campus, a organização que levou a denúncia de injúria racial por parte da presidenta da EJUR e também devido a presença de uma candidatura negra para o conselho de curso”.

Os casos são recorrentes, e a postura dos estudantes negros no campus incomoda. É o que diz Nathalia Galvão, aluna de Direito na universidade e candidata à vaga de representação discente em seu conselho de curso. “O que vem mudando recentemente é a forma combativa que esses casos têm sido tratados pelos próprios estudantes que não toleram, de forma alguma, qualquer tipo de preconceito”.

IMAGEM RACISMO FRANCA

Nathalia também critica a postura da universidade. Para ela, as medidas tomadas pela instituição são insuficientes. “[...] vemos um silenciamento por parte da Instituição. Não se faz mais do que a burocracia permite, é colocado a todo momento inúmeros empecilhos para que os culpados sejam descobertos e punidos”. Ela critica o fato de que a universidade apenas pinta as paredes onde há pichação e que as investigações para punir os culpados pouco anda. “No caso das pichações tudo é resolvido ainda de forma mais rápida, tinta e pincel, pronto, o caso foi mais uma vez escondido e é como se não existisse nenhum preconceito novamente”. A estudante acredita que o regimento é mal empregado, e que esses casos de pichação tem permanecido na impunidade. “Pedimos por no mínimo uma investigação minuciosa, queremos a punição dos culpados, queremos a efetividade do nosso regimento, que funciona para ameaçar inúmeras condutas e nessas horas se faz inutilizável. Pronunciamentos e notas oficiais de nada adiantam se no fim de tudo todos saem limpos de qualquer acusação”.

UNESP se torna foco de pichações racistas em banheiros

Diversas unidades já relataram o mesmo problema. Em 2015, ao menos dois casos semelhantes foram registrados e denunciados em julho e agosto, em Bauru-SP e Ourinhos-SP, respectivamente. Este ano, em abril, outra denúncia foi feita na unidade de São José do Rio Preto-SP, em Maio, na unidade de Rio Claro-SP, em outubro, em Bauru-SP e agora em Franca-SP.

O último caso relatado, em Bauru (http://www.almapreta.com/realidade/pichacao-nazista-negros-bauru), gerou protestos dos estudantes e uma denúncia à Ouvidoria da UNESP. As diretorias das faculdades de Bauru emitiram notas de repúdio ao ato para professores e funcionário. Denúncias do mesmo tipo foram realizadas através do NUPE, Núcleo Negro para Pesquisa e Extensão da UNESP, em relação ao caso de Franca.

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O Coletivo Negro Afrontar reúne estudantes negras e negros para realizar ações de formação, debate e denúncia sobre a questão racial. Grupos semelhantes se reúnem em pelo menos 9 das 23 unidades da UNESP no estado de São Paulo. A maioria tem um histórico comum, e surgiram a partir de 2014.

O ano marca o início da política de cotas na Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, a UNESP, que segue sendo a única das universidades estaduais de São Paulo a possuir um programa de ingresso por cotas raciais. Naquele ano, a UNESP reservou 15% de suas vagas para alunos de escola pública, dos quais 35% são reservadas para Pretos, Pardos e Indígenas. A medida é progressiva, e a meta é que a reserva total atinja 50% das vagas em 2018.
Uma das reclamações ouvidas na universidade é a falta de uma política institucional de combate ao racismo, mesmo diante da realidade brasileira e do sistema de reserva de vagas.

Pichações racistas, nazistas e homofóbicas vêm sendo denunciadas em diversas universidades e já surgiram na USP e no Mackenzie, em São Paulo-SP, por exemplo, como relatou a reportagem do Alma Preta, em 2015.

Texto: Pedro Borges / Edição de Imagem: Vinicius de Almeida

Atividade marca o lançamento da campanha de assinaturas e loja virtual do Alma Preta, portal de imprensa negra criado em Bauru

No dia 12 de Novembro, sábado, o Alma Preta, portal de mídia negra, organiza um encontro para discutir a democratização da mídia no país. A atividade tem início às 16h e acontece na Estação Ferroviária, Praça Machado de Mello, centro.

Os convidados para o debate são Greice Luiz, jornalista e turbantista, Juarez Xavier, jornalista e Coordenador Geral do Núcleo Negro da UNESP para Pesquisa e Extensão (NUPE), Julia Conceição, estudante de psicologia e co-fundadora do coletivo negro Kimpa da UNESP, e Roque Ferreira, jornalista e vereador da cidade pelo PSOL.

O evento também serve para o Alma Preta divulgar a sua campanha de assinaturas e loja virtual como formas de sustentar o projeto. “É importante que a mídia negra se adeque aos novos modelos de negócio existentes no jornalismo. Essa missão é fundamental para a manutenção de uma prática independente e qualificada”, explica Vinicius de Almeida, co-fundador do Alma Preta.

Criado em Maio de 2015 pelos então estudantes de jornalismo Pedro Borges, Vinicius de Almeida, Solon Neto, e de design, Vinicius de Araújo, o Alma Preta faz cobertura de eventos da comunidade negra e produz reportagens sob a perspectiva racial. O projeto propõe uma reflexão sobre o racismo existente no Brasil e a democratização da mídia.

De acordo com dados da Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ), apenas 22% dos jornalistas se autodeclaram negros. Para Vinicius de Almeida, é importante que haja uma maior diversidade na imprensa do país. “A democracia exige a pluralidade de opiniões e olhares. O jornalismo, como peça de extrema importância para o ambiente democrático, precisa refletir a diversidade da sociedade brasileira”.

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A atividade faz parte da programação da Marcha do Orgulho Crespo, que acontece na cidade no dia 12 de Novembro e tem concentração marcada para as 13h na Praça Rui Barbosa, centro. Antes do debate do Alma Preta, haverá uma discussão em torno da construção da identidade negra, com a participação de Patrícia Alves, pedagoga, e Greice Luiz, jornalista e turbantista. Às 19h, o rapper Dom Black faz o show de encerramento.

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