Socióloga e ouvidora-geral da Defensoria Pública do Estado da Bahia é referência nacional na luta antirracista e contra o genocídio da população negra

Texto / Aline Bernardes
Imagem / Reprodução / YouTube

Ao longo dos últimos 34 anos, Vilma Reis tem atuado no campo da sociedade civil para garantir e defender o direito de mulheres negras, da comunidade LGBT e da população quilombola.

Referência nacional na luta antirracista e contra o genocídio da juventude negra, a trajetória da socióloga e ouvidora-geral da Defensoria Pública do Estado da Bahia serve como fonte de inspiração para as gerações de negros e negras engajados no enfrentamento à discriminação.

Nascida no bairro de Marechal Rondon, em Salvador, ela foi apenas com 2 anos para Nazaré das Farinhas, interior da Bahia. Seu pai era ferroviário e sofreu um acidente na linha férrea. Quando saiu do hospital, ele assinou alguns documentos que o fizeram perder muitos direitos trabalhistas. A pressão das consequências desse acidente o levou a um sanatório.

Assim, foi criada por uma mulher forte que serviu como principal exemplo do movimento negro: sua avó. Vilma Reis conta, em entrevista originalmente concedida ao Brasil de Fato, que ouvia os seguintes dizeres dela: “Eu estou limpando a casa dos brancos e catando pimenta de ganho, mas você tem obrigação de ser doutora”.

Hoje, ela entende que estes títulos, sejam de graduação, mestrado, doutorado ou pós-doutorado, são ferramentas para o projeto de libertação de seu povo, pois, enquanto uma mulher negra for humilhada no serviço de saúde ou um homem negro for humilhado numa blitz da polícia, todos os negros estarão na linha de tiro.

“O Brasil segue com esta ferida em carne viva, que é o racismo, misoginia e lgbtfobia: o desprezo às pessoas que usam fio de conta de orixá e o desprezo com a nossa forma de falar aqui, no Nordeste, sem levar em conta nossa diversidade. [É necessário] investir no trabalho de base, investir na libertação do pensamento, fazer com que cada vez mais o nosso povo tenha acesso a outros conteúdos e desligue essa televisão que é ‘daltônica’ em um país com diversidade racial e multicor”, destaca Vilma..

Vida acadêmica

Na academia, seus trabalhos são reflexos de sua atuação fora deste contexto: a monografia “Operação Beiru - Falam as Mães dos que Tombaram” (2001); a dissertação “Atucaiados pelo Estado: as políticas de segurança pública implementadas nos bairros populares de Salvador e suas representações” (2005); e a tese de doutorado “Mulheres Negras – criminalizadas pelas mídias, violadas pelo Estado”, que está em andamento.

“Digo sempre que a nossa presença no ambiente acadêmico deve ser de enfrentamento a injustiça cognitiva ao epistemicídio e enfrentamento a este bloqueio cognitivo que a narrativa da "casa grande" historicamente tem sobre nós”, diz Vilma Reis.

Defensoria Pública

“A nossa presença nas instituições altera as instituições. No estado onde 82% da população é negra, não temos um documento de enfrentamento ao racismo. Aqui, onde o racismo mata na saúde e em todos os dias, roubando a esperança das nossas crianças no ambiente escolar. [É o] local onde a criação negra é também usurpada e transformada em espetáculo”, desabafou, ao tomar posse da ouvidoria.

Vilma ocupa desde 2015 este cargo e acredita que esse projeto não seja individual, mas de uma postura política, coletiva, pensada e arquitetada. “Estamos aqui porque cansamos de perder no sistema de justiça e a gente veio para criar uma fissura - o debate colocado por nós sobre a mesa é irreversível. Não é possível ter democracia na justiça sem as ouvidorias externas, portanto, sem posição politizada da população”, explica.

A lógica é colocar a Defensoria nas cidades do interior que ainda estão coordenadas por coronéis que instalam mandatários as suas dinastias políticas. Este é um papel decisivo da ouvidoria para a socióloga.

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