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No esteio das discussões sobre as pautas em relação ao racismo, trans lembram que não se sentem seguras nas manifestações antirracismo

Texto: Guilherme Soares Dias | Edição: Nataly Simões | Imagem: Arquivo pessoal

Há um privilégio em ser cisgênero, ou seja, se identificar com o sexo com o qual nasceu, que é similar ao privilégio da branquitude pelo fato desse ser considerado o padrão. Quem está fora dessa “normalidade” é discriminado de diferentes formas. No caso das pessoas trans negras, que têm visto a pauta racial tomar conta dos debates, surgiu a necessidade de gritar que vidas trans negras também importam, afinal 82% das 163 travestis e transsexuais assassinadas em 2018 eram negras, confome aponta o dossiê dos assassinatos e da violência contra travestis e transexuais no Brasil.

Além da alta letalidade entre esse grupo social, as pessoas trans ressaltam que nem sempre se sentem seguras dentro do próprio movimento negro, onde também há transfobia e as vidas de quem tem um gênero diferente do qual nasceu é menos valorizada. “Várias irmãs pontuam que não foram as manifestações por não se sentirem seguras”, lembra Kiara Fellipe, atriz, modelo e DJ da Batekoo.

Kiara lembra que a transfobia é a que mais mata no Brasil, equiparada ao racismo, e que os movimentos presentes nas ruas discutem o antifascismo, o antirracismo, mas não pautam anti transfobia/lgbtfobia, mesmo em junho, mês em que se comemora o orgulho e visibilidade LGBTQIAP+. “Ser preto não isenta a pessoa a não ser transfobica. Eu sempre faço essa pergunta, você é anti lgbtfobia?”, afirma.

A co-deputada Érika Hilton (PSOL-SP) ressalta que as pessoas trans são excluídas de todos os espaços. “Quando fazemos a denúncia, a gente revive Xica Manicongo, que é um símbolo do movimento negro, mas que foi apagada historicamente”, conta.

A parlamentar integrante da Bancada Ativista cita Marsha P. Johnson e Sylvia Rivera, criadoras do Revolucionárias de Ação Transgêneras de Rua (Star, na sigla em inglês), e participaram da Revolta de Stonewall na década de 1970 nos Estados Unidos. “As vidas trans sempre ficam as margens, sempre importam menos. Por isso, questionamos quais vidas negras importam e porque vidas negras trans se perdem todos os dias e não provocam as mesmas revoltas”, explica.

Érika salienta que enquanto há um movimento para lembrar do valor das vidas negras, as vidas de pessoas trans continuam banalizadas e perdidas sem que haja comoção. “Nas margens das margens, há um grupo em que 90% das mulheres vivem da prostituição, que é morto por ser travesti, que não convive em sociedade, que vive a exclusão da exclusão. Precisamos somar nessa luta e combater um mal comum”, alerta.

Apoio na pandemia

Durante a pandemia da Covid-19, doença causada pelo novo coronavírus, a co-deputada Érika Hilton lançou a campanha #fortalecaumapessoatrans para dar apoio para ao grupo social. “Criamos um site que reúne instituições que doam alimentos, pagam aluguel e produtos de higiene para garantir a sobrevivência num momento tão difícil. É uma ação para garantir a vida também", ressalta.

Gabriel Van, membro fundador da Liga Transmasculina Carioca João W Nery, questiona se os militante do movimento negro lutam para que pessoas trans tenham acesso à saúde pública e pleiteiam direitos também para esse grupo. “Quantos amigos trans, você pessoa cisgênera tem? Quantos homens trans você apoiou hoje?”, questiona.

O ativista lembra que o homem trans, antes visto como objeto sexual, atualmente é visto como ameaça. “Você sabe o que é ser trans? Alguns acham que é mudar de nome, fazer uma cirurgia, outros que é se vestir designado a um determinado sexo. Ser um homem trans no Brasil é ter seus direitos negados e negligenciados. Você deixa de ser cidadão, passa a ser piada, perigo, aberração”, resume.

Van lembra que a invisibilização das pessoas trans faz com que tenham medo de ir ao banheiro, serem parados pela polícia, impeça relacionamentos afetivos e acesso ao mercado de trabalho. “Se eu pudesse ter um super poder seria ser visível. Ter meus direitos garantidos, afinal, eu cumpro os meus deveres. Queria ter acesso a saúde de qualidade, políticas públicas que me respeitem e me atendam. Afinal, vidas negras trans também importam”.

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