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A prova impressa está marcada para os dias 17 e 24 de janeiro; estudantes, professores e instituições públicos pedem o adiamento

Texto / Flávia Ribeiro | Edição / Lenne Ferreira | Imagem / Fabio Rodrigues Pozzebom / Agência-Brasil

Mesmo com vários setores da sociedade pedindo o adiamento da realização do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) por conta do aumento no número de casos e de mortes em decorrência da pandemia de Covid-19, o novo coronavírus, em todo o Brasil, a primeira prova está marcada para o dia 17. A manutenção do calendário prejudica, principalmente estudantes negros e das periferias, que tiveram menos acesso e estrutura para a preparação durante o ano de 2020.

rozana barroso Sheyden“São jovens que já sofrem com a exclusão digital, que têm menos acesso a recursos tecnológicos e que até sofreram desnutrição, porque muitos só se alimentavam na escola. A escola pública não acompanha o desenvolvimento tecnológico. Então, manter a prova é excluir esses alunos do processo”, afirma a carioca Rozana Barroso, presidente da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas.

Todas as mulheres da família de Rozana são empregadas em residências. Ela foi a primeira a terminar o ensino médio e quer ser a primeira no ensino superior. “O governo não preparou medidas para combater a desigualdade social que faz diferença na preparação, além de não oferecer condições seguras para a prova e é o maior interessado na exclusão de estudantes negros. Tivemos uma enorme evasão e isso tudo é um processo cruel de destruição de sonhos”, afirma a estudante, que tenta uma vaga no curso de Biomedicina.

Larissa Cazé é moradora de São Paulo e quer muito ingressar no curso de Licenciatura em Artes Cênicas. Mas avalia o adiamento como a opção mais justa para este momento. “Ninguém vai morrer se não houver o Enem em janeiro. Mas pessoas podem morrer se forem infectadas durante a prova. Além disso, mesmo quem passar não vai conseguir cursar tão cedo porque não sabemos quando as aulas voltarão. É preciso ter censo de coletividade”,  comenta.

Larissa já fez uma graduação em Recursos Humanos e decidiu fazer o Enem de novo.. Ela acredita que a realização da prova também acarreeta prejuízos que vão além da questão sanitária. “Todo mundo está com o psicológico abalado. Foi um ano em que todo mundo teve medo e mesmo quem não perdeu familiares, saiu muito abalado. O poder público poderia adiar e dar essa assistência”, destacou.

Além disso, muitas pessoas não puderam se preparar de maneira adequada para o exame. “Eu entendo que sou privilegiada porque tinha internet à minha disposição. Mesmo tendo que trabalhar, eu tinha internet para estudar e das vezes que tive problema, tinha a casa da minha irmã. Há alunos que sequer tinham um celular ou outro recurso”, afirma a Larisse, que é filha de uma zeladora de prédio, semianalfabeta e de um eletricista, ela é a mais nova de três filhas é a primeira com curso superior na família.

Provas presenciais - Ao todo, cerca de 5,8 milhões de estudantes estão inscritos no exame. O Enem 2020 terá uma versão impressa, nos dias 17 e 24 de janeiro, e uma digital, nos dias 31 de janeiro e 7 de fevereiro. Vários setores da sociedade alegam falta de segurança para a realização das provas. A prefeitura de Manaus (AM), que vem sendo duramente atingida pela pandemia, não liberou escolas para a realização das provas. O Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conas). "Não é adequado realizar um exame nacional destas proporções num contexto de alta transmissão da doença e em realidades tão assimétricas no país. Todos os Estados possuem regiões de alta transmissão” alegou o Conselho em uma rede social, ontem, 13.

Na semana passada a Defensoria Pública da União (DPU) apresentou pedido de tutela de urgência para o adiamento diante do agravamento da pandemia no país. Além disso, uma nota foi assinada por cerca de 50 entidades científicas, como a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e a Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco).

 

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