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Para Douglas Belchior, da Uneafro, é inaceitável que presidente incite manifestação contra o Congresso; junto a uma comissão da Coalizão Negra por Direitos, ele participa de encontro da OEA, no Haiti

Texto / Simone Freire | Imagem / Agência Brasil / Marcelo Camargo | Edição / Pedro Borges

A divulgação pelo presidente Jair Bolsonaro de um vídeo-convocação para manifestações da extrema-direita contra o Congresso Nacional é inaceitável, segundo Douglas Belchior, da Uneafro Brasil.

Segundo o professor e militante do movimento negro, essa não é a primeira vez que o governo dá sinais explícitos de que podem tentar fechar o regime democrático do país. “Já vivemos um governo militar. O apoio público de Bolsonaro à movimentos golpistas é inaceitável”, diz.

Junto a uma comissão da Coalizão Negra por Direitos, entidade que reúne dezenas de entidades e organizações do movimento negro, ele participará, na próxima semana, no Haiti, de um encontro da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), instituição vinculada à Organização dos Estados Americanos (OEA).

“A gente está indo para lá fazer o que a gente sempre faz: denunciar o caráter racista do governo, suas políticas genocidas contra o povo negro e o seu caráter ditatorial. Tudo isso, em meio a um contexto em que ele adere ao fechamento do Congresso. Isso é inadmissível”, pontua.

Reunião

O encontro da Comissão Interamericana dos Direitos Humanos (CIDH) contará com a participação de representantes do Estado brasileiro e do movimento negro. Ela acontece entre os dias 2 e 8 de março, na capital haitiana. O objetivo é debater temas relacionados ao Brasil e a outras nações do continente americano.

Além da violência policial em São Paulo e no Rio de Janeiro, o movimento negro levará a discussão especificamente sobre o caso de Paraisópolis, em SP, no episódio que vitimou nove jovens durante um baile funk que ocorria na região.

De acordo com os moradores, a Polícia Militar fez um cerco na região e encurralou os jovens em becos, que resultaram nas mortes. A versão da PM diz que a corporação, após ser recebida com o arremesso de objetos, revidou com bombas de gás lacrimogêneo para dispersar os presentes, o que resultou no tumulto e consequentemente nas mortes.

Os 31 policiais envolvidos no caso foram isentos da punição pela Corregedoria da Polícia Militar de São Paulo, que pediu o arquivamento do caso. A Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) condenou a decisão e pediu uma investigação “séria, imparcial e eficaz dos fatos”.

Para Glória Maria, da Batalha de Paraisópolis, o mundo precisa saber o que está acontecendo no país. Ela também integra a comissão que participará da reunião. “Vai ficar na história para nunca esquecerem que estivemos lá denunciando os assassinatos da nossa população”, diz.

No entanto, ela questiona a eficácia das pessoas que irão representar o Estado brasileiro na reunião. “Dessas autoridades que vão estar lá, quem decide quem vai ser punido ou não?”, indaga. Para ela, é a periferia quem, no final das contas, fará a diferença na resistência: “só quem pode fazer mudanças é o próprio povo, é a periferia”.

Denúncias

O governo de Jair Bolsonaro também deve responder à CIDH sobre restrições de liberdade de imprensa e a situação dos direitos humanos no país. Em entrevista ao Alma Preta, a coordenadora da Comissão de Direitos Humanos da OAB/SP, Sheila Carvalho, disse que o presidente também é responsável pelo aumento da violência policial nos estados.

“Bolsonaro é responsável por apoiar em suas falas públicas o incentivo à forma precípua de atuação policial. Como o próprio presidente já afirmou ‘se alguém disser que quero dar carta branca para policial militar matar, eu respondo: quero sim!” e que ‘os caras tem que morrer igual barata’. As baratas para Bolsonaro somos nós, pessoas negras, consideradas por esse tipo de governante seres que não merecem viver. Isso precisa ser denunciado em todos os espaços possíveis, nacionais e internacionais”, avalia.

 O povo preto quer narrar suas histórias

Vivemos em um mundo de disputa. Nossa sociedade tem profundas marcas das desigualdades que foram desenhadas ao longo da história. Na atualidade parece que há espaço para debate, a tão falada representatividade está sobre a mesa.
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