Durante a realização do Bloco Bleque, em Vitória (ES), o impressor gráfico Iarley Duarte, 23, e seus amigos foram vítimas de publicação racista no Instagram; após o episódio, o autor foi demitido pelo patrão, que também é negro

Texto / Amauri Eugênio Jr.
Imagem / Reprodução Facebook/Instagram/Acervo pessoal

“Ele simplesmente nos abordou e pediu para tirar uma foto da gente. A gente tirou a foto com ele, sem maldade nenhuma, e ele sumiu logo em seguida. A gente nunca o tinha visto na vida”. É desse modo como o impressor gráfico Iarley Duarte, 23, descreve ao Alma Preta como o jovem Lucas Almeida os abordou enquanto acontecia o Bloco Bleque, em Vitória (ES), na segunda-feira de carnaval.

O que parecia ser um momento de descontração, contudo, tornou-se uma dor de cabeça para ele e seus amigos e motivo de revolta justificada.

Sem saber, Iarley e companhia foram retratados em um stories – publicação de imagens no Instagram que ficam disponíveis na plataforma por 24 horas – no qual Lucas, o autor da foto, incluiu a legenda “Vou roubei seu celular”. Coincidência ou não, a única pessoa na imagem que não era negra era o autor. Iarley soube apenas na quarta-feira seguinte quais foram os desdobramentos daquele momento que aparentava ser apenas fruto de interação no carnaval.

“Ontem [quinta-feira (15)] pela manhã, um rapaz compartilhou a publicação desse Lucas, indignado com o que foi feito. Foi quando tomei conhecimento de tal grosseria e do ato de racismo que ele fez. Eu me revoltei e mostrei que chega de racismo. Nós, negros, sofremos muito por causa disso”, relata, sobre o post no Facebook em que ele expressou sua indignação sobre o episódio. Até a veiculação desta reportagem, a publicação tinha mais de 32 mil reações e havia sido compartilhada mais de 15 mil vezes. 

Reviravolta do caso

Após a repercussão do episódio, a publicação feita por Lucas Almeida não ficou impune. Na noite de quarta-feira (14), Fabrício Affonso, proprietário do Studio Vitória, onde Lucas era estagiário, pronunciou-se sobre por meio da página da empresa no Facebook. Na publicação, Fabrício, que também é negro, considera “inadmissível a conduta de qualquer funcionário da empresa” no que diz respeito a manifestações de cunho preconceituoso e pejorativo, ao falar sobre as dificuldades que ele mesmo encontrou em sua própria trajetória, pois havia saído da periferia do município de Alegre, no ES, para tentar a sorte em Vitória.

Ainda na mesma publicação, que teve mais de 35 mil reações e 2,5 mil compartilhamentos, Fabrício Affonso afirmou também que, apesar de acreditar que “a postagem tenha sido profundamente infeliz, beirando a ingenuidade”, a empresa não compactuaria com aquele tipo de comportamento e que medidas necessárias seriam adotadas, pois “nada é desculpa para o racismo.”

Questionado sobre o posicionamento da empresa na qual Lucas Almeida era estagiário, Iarley concordou com relato. “Acho que ele foi tão racista que até se esqueceu de que o patrão dele era negro também e veio de baixo. Achei [a atitude] correta e a mais cabível nessa situação. Procurada pela reportagem do Alma Preta para falar sobre o caso, a equipe do Studio Vitória não respondeu aos questionamentos até a publicação do material. 

Após o post de Iarley e o pronunciamento do Studio Vitória terem viralizado no Facebook, Lucas fez, na quinta-feira (15), publicação na mesma rede social, para pedir desculpas pelo teor se seu post no Instagram e na qual afirmou não exercer e se opor a qualquer manifestação preconceituosa, além de ter usado a frase em questão para fazer alusão a um meme de teor preconceituoso. De acordo com o jovem, a “brincadeira”, que “foi infeliz, inoportuna e precipitada pelo contexto da imagem”, tinha como objetivo “criticar e combater, usando de ironia, uma reconhecida injustiça e discriminação social”. A publicação não está mais disponível na rede social.

O desfecho

Sobre o desenrolar do episódio, Iarley entende que isso servirá para mostrar que o racismo existe e que manifestações desse teor devem ser denunciadas. “Ninguém pode ficar calado diante dessas coisas e abaixar a cabeça, achando que não haverá justiça, que deve deixar quieto e não ‘dará nada’ para o agressor. Tem de lutar pelos seus direitos, pois racismo é crime. A gente nunca pode se calar diante das coisas e temos de levantar a cabeça”, finaliza o jovem.

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