Craque da seleção francesa, garoto-prodígio tem carreira meteórica e já mostra estar pronto para se tornar um dos maiores nomes do futebol nos próximos anos

Texto / Lívia Martins
Imagem / Getty Images

Longe da Torre Eiffel. Prédios previamente planejados para não oferecer nenhum conforto, que acomodam o que o governo quer fingir que não existe na chique cidade-luz.

Longe da região central, no lugar de vitrines de grifes, estão as artes de rua entra as quais uma frase grafitada chama atenção: “Bondy, cidade das possibilidades”. A mensagem, que parece slogan de campanha eleitoral, carrega uma alma incrível e tem um dono sorridente, cujo talento indescritível.

Bondy é o bairro na periferia da zona norte de Paris, onde o craque francês Kylian Mbappé nasceu em 20 de dezembro de 1998. Das esburacadas quadras de Paris vem o jovem atacante da Seleção da França, que está deixando o mundo encantado com as suas belas atuações na Copa da Mundo, realizada na Rússia.

Da torre para lá

Bondy é um exemplo de banlieue, o que no Brasil conhecemos como favelas. Os subúrbios franceses estão também localizados nas áreas mais distantes do centro da cidade. Séculos atrás, a palavra francesa significava “lugar proibido” e era lá aonde os nobres mandavam os mendigos e criminosos.

A partir de 1960, o ambiente e o significado começaram a ser modificados. Com os novos países surgindo no continente africano pós-processos de independência, imigrantes da terra-mãe iniciam um novo movimento de busca por condições melhores de vida, e olharam a Europa como possibilidade. As periferias parisienses ganham novos moradores, além da população de baixa renda que já ocupava a região.

O ambiente também é bem parecido com o que conhecemos. Mbappé cresceu em um local marcado por embates, principalmente com violência policial contra moradores. Os alvos principais da repressão policial eram os jovens muçulmanos e negros.

A família da promessa do futebol tentou blindar a criança para esse tipo de racismo estrutural não fazer mais uma vítima nas ruas. Aos 6 anos, o pequeno Kylian passou a defender o time local Association Sportive de Bondy., cujo treinador e diretor do time era o seu pai, o camaronês Wilfried Mbappé. Além disso, ele contava também com o apoio da mãe argelina Fayza Lamari, ex-atleta de handebol.

Fora dos gramados, Paris vivia seus dias de sombras. Em novembro de 2005, protestos se espalharam pela cidade em resposta à morte de dois jovens negros que supostamente fugiam da polícia. O objetivo do movimento era questionar também as condições precárias de vida nos subúrbios, como a falta de empregos e subsídios básicos. A taxa de desemprego entre os jovens chegava a 40% em alguns bairros.

Manifestantes descendentes de árabes parisienses também participaram e, por 21 dias, mais de 9 mil carros foram queimados, enquanto passeatas e palavras de ordem tomavam conta da cidade.

Quase na velocidade da luz

Aos 11 anos, Mbappé foi tentar a sorte em solo inglês. O atacante passou por uma fase de experiência no Chelsea, mas não foi aproveitado no time.

Quando voltou, Mbappé passou a se desenvolver tecnicamente no centro de treinamento comandado pela seleção francesa, o Clairefontaine. Sondado por times como Manchester City e Bayern de Munique, o jogador optou por defender o Monaco antes de completar 15 anos, em 2013.

Brilhando nas categorias de base do time, Kylian estreou no time principal com 16 anos e foi o mais jovem a fazer um gol no campeonato francês, com 17 anos e 62 dias. O marco desbancou a lenda Thierry Henry, que até então era o dono da posição.

Com seis gols em nove partidas, Mbappé ajudou o Monaco a chegar à semifinal da temporada 2016-2017 da Liga dos Campeões da Europa, provocando curiosidade em times badalados e mostrando ao mundo a sua habilidade.

O Paris Saint-Germain não mediu esforços e contratou o jogador para atuar ao lado de outra estrela, o Neymar. Ambos foram recrutados no mesmo ano e ao lado do uruguaio Edinson Cavani, o trio já ajudou o time a conquistar a Copa da Liga Frances e a Copa da França.

Área de confronto

A primeira vez que o Mbappé foi convocado para a seleção da França foi em março de 2017. O dono da camisa 10 chama atenção pela habilidade, raciocínio rápido em pouco espaço do campo e a velocidade.

Na Rússia, Mbappé tinha, até o jogo contra a Argentina, atuações tímidas e apenas um gol, assinalado na vitória contra o Peru.

Porém, nas oitavas de final, contra a equipe sul-americana liderada por Lionel Messi, Javier Mascherano e Ángel Di Maria, lá foi o nosso menino quebrar mais um recorde. Desde Pelé, nenhum outro jovem jogador com menos de 20 anos havia marcado gol em Copa do Mundo. Mbappé o fez duas vezes e em fase de mata-mata. O rei do futebol marcou uma vez no torneio de 1958, na Suécia.

O próximo desafio do nosso menino e dos Bleus é contra o Uruguai nesta sexta-feira, no Estádio de Níjni Novgorod.

De quebrada em quebrada

Mbappé corre e é bonito ver a inteligência deste jovem em ação nos gramados do mundo. Essa mesma correria é a mesma de outras tantas promessas em campinhos de terra e em quadras esburacadas nas periferias do mundo.

Eles correm atrás de reverter 400 anos de prejuízos. Correm da polícia que confunde. Correm do governo que extermina com ou sem arma. Qualquer semelhança é “mera coincidência”.

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