Caroline Amanda, terapeuta menstrual, fala em entrevista ao Alma Preta sobre seu trabalho Yoni das Pretas

Texto / Thalyta Martins
Imagem / Valda Nogueira

Em busca por tratamentos naturais para uma disfunção ginecológica minha, acabei conhecendo a Yoni das Pretas, feita por Caroline Amanda (27), fundadora do Yoni das Pretas, associada da “Associação de Mulheres de Ação e Reação” - Terapretas e membro do Coletivo Negro Carolina de Jesus (UFRJ). Yoni, do sânscrito, representa o órgão sexual feminino e tem significados que vão desde "passagem divina" até "templo sagrado".

Fiquei feliz por ser um rosto conhecido (estive no mesmo evento que ela em 2016, o EECUN - Encontro Nacional de Estudantes e Coletivos Negros) e senti uma identificação maravilhosa por encontrar uma mulher negra falando de cuidado, de prazer, de ginecologia natural, de cura, de humanização, entre outros temas tão necessários.

Fiquei curiosa e um tempo depois consegui o contato da Caroline para uma entrevista que agregou muito para mim, pessoalmente, e eu espero que acrescente para outras pessoas negras que estão trilhando o caminho do resgate, do autoconhecimento, do autocuidado, buscando também quebrar com o ciclo vicioso, que nos diz que temos que ser fortes o tempo inteiro ou que insiste em não reconhecer nossos corpos como humanos, passíveis de dor e, também, de doenças (refiro-me aqui à expressão ‘doença de branco’), assim como para as pessoas que buscam formas de resistir nesse período tão difícil pra nossa democracia e, especialmente, para nós, mulheres negras que somos a base da sociedade. Espero que te ajude no caminho da cura, assim como tem me ajudado.

Confira a entrevista na íntegra.

Thalyta Martins: Por que criar um espaço destinado para mulheres negras?

Caroline Amanda: O espaço destinado às mulheres negras tem o compromisso de realocar o nosso olhar para o íntimo como lugar de autocompreensão, autoresponsabilidade, visando causar uma vasta compreensão, não só sexual, ou biológica e orgânica, mas subjetiva. Isso é importante porque, no geral, mulheres negras têm sido colocadas no lugar de muita luta e resistência.

Quando comecei a despertar para isso de que existiriam outras formas de cuidado que fugissem da alopatia, eu fiz um propósito com o universo de que queria ser sempre cuidada, direcionada por uma terapeuta ou um terapeuta negro, e isso tem acontecido. Só que apesar de os terapeutas serem negros, as companheiras que participavam comigo não eram negras, e isso comprometia um pouco a minha entrega. Então eu entendi que era importante ter facilitadores negros, mas também criar espaços onde pessoas pudessem falar sobre si e entre si.

TM: Como surgiu a Yoni das Pretas? O que te incentivou?

CA: Surgiu de uma necessidade do meu corpo, de uma crescente dedicação de horas à vida acadêmica e política. Meu corpo sentiu isso profundamente e refletiu na minha ciclicidade e no meu processo menstrual (Confira no link uma matéria veiculada pelo HuffPost e que conta mais sobre este momento). Então, eu precisei ter apoio de mulheres poderosas, mulheres da minha família, minha mãe, as irmãs do Terapretas.

Só que também eu vivia outras violências na medida em que fui encontrando o caminho holístico. Eu fui me deparando com o racismo nesse caminho e entendi que era importante ter a representatividade estética, energética e linguística, para que mulheres negras percebessem também esse olhar, meditar, se automassegear, estabelecer outro tipo de reconexão consigo mesma.

TM: Como funciona a Yoni das Pretas? Quais são as terapias que você usa?

CA: A Yoni das Pretas funciona com encontros mensais, organizados por meio das luas. Na Lua Nova a gente faz introdução à terapia menstrual e na Lua Crescente introduzimos um propósito. Eu também faço atendimentos individuais. Todos os atendimentos são atravessados pela terapia menstrual, que é uma medicina formulada por uma mulher incrível, Zulma Moreira, e pompoarismo, que também é uma prática milenar, referenciada na sociedade indiana, mas que certamente é uma prática de outras sociedades..

A gente faz exercícios para buscar a quebra de crenças militantes e faz também a utilização de ferramentas como aromaterapia, cristaloterapia, cromoterapia, que dão um suporte muito interessante para o processo terapêutico.

TM: Quais são os resultados a curto, médio e longo prazo para mulheres que cuidam da sua Yoni?

CA: O resultado a curto prazo é o despertar. Você percebe que existe uma agenda e um tempo do corpo, prioridades que nem sempre se enquadra com as demandas externas de um mundo que não é orgânico, que é técnico.

O segundo resultado é se perceber. A medida que você começa a se perceber, consegue se reorganizar e organizar o mundo externo a partir de uma demanda íntima que diz muito sobre ser leal consigo mesmo. Esse é, sem dúvidas, um grande resultado a médio prazo, a possibilidade de, a partir do íntimo, do orgânico, vivo e cíclico, organizar a vida externa.

A longo prazo há a possibilidade de trazer outras mulheres que podem estar em um lugar de adoecimento, de profunda desatenção consigo mesma. A medida que isso vai acontecendo, a gente vai despertando e despertando toda a nossa comunidade, não só outras mulheres, mas homens, né, para que eles estejam atentos e sejam apoiadores de um novo paradigma da agenda, inclusive comunitária, a partir da relação cíclica dessas mulheres, uma agenda familiar. Então, os filhos e maridos, os primos e homens ao redor têm que estar atentos às especificidades das mulheres mais novas, das mulheres em situação de menarca, puberdade e plenipausa.

Os resultados são imediatos, mas também tem outros resultados no decorrer do processo, que eu vejo tanto no acompanhamento individual, quanto nos pós encontros mensais. Mas há a possibilidade de se perceber como parte de um todo, né? Fazer menção ao ventre, às mães, às avós, refletir sobre as experiências dos pais, sobre as heranças familiares, os impactos delas na nossa construção subjetiva e identitária, na nossa vida sexual, organização enquanto sujeito são grandes resultados assim.

Ver a força que é resgatada, a cura de alguns traumas do ventre, testemunhar mulheres negras sendo humanas, testemunhar lágrimas, exercendo o autocuidado é realmente poderoso. Não há performance, há sentir. Há momento de silenciamento dessa razão ocidental que tem uma regra cartesiana de raciocínio. Isso é curativo!

TM: O que você quer dizer quando escreve no Facebook "Com base Matriarcais, Keméticos,Tântricos"? O que significam essas palavras?

CA: Primeiro que a Yoni não tem um viés de base feminista, eu não sou feminista e todo conteúdo que atravessa a Yoni não tem como princípio o feminismo. As feministas podem se identificar e são sempre muito bem vindas, mas não é o princípio da página ou do meu trabalho. É matriarcal porque a sociedade matriarcal me inspira muito.

Kemético porque me parece que as práticas de autocuidado, yoga, enfim, são oriundas de Kemet, são oriundas do antigo Egito e fazer menção a ele é justo e necessário e diz muito sobre nossa herança, enquanto diásporicos. Tântricos porque é uma linguagem que as pessoas compreendem mais, né?

TM: Como é discutir sexualidade sendo mulher negra nessa sociedade racista?

CA: É um exercício de agência que passou por autorresponsabilidade. As mulheres negras, não só, mas comunidade negra precisa começar a refletir sobre o que nós faremos com aquilo que fizeram com a gente.

A diáspora é resultado do esfacelamento da subjetividade, da cognição, da identidade. A colonialidade, a escravidão esfacelou a dimensão da intimidade. Então, reconstruir uma intimidade saudável é também se reconectar com tudo que a gente tem fé.

A discussão sobre sexualidade a partir desse corpo negro feminino diz muito sobre a reconexão com o sagrado. Proponho autorresponsabilidade como exercício da cura da nossa intimidade.

TM: Como o autocuidado se relaciona com todo este trabalho?

CA: Autorresponsabilidade e autocuidado são os principais exercícios para gente nesse momento tão duro, que tem se desenhado a cada momento. A sofisticação da colonialidade tem se apresentado.

A nós, pessoas da diáspora, tem sido imposto, de maneira imperativa, a necessidade de autocuidado, que é um ponto basilar do que eu tenho tentado construir com a comunidade nesse momento.

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