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Conheça a historiadora das aulas abertas que encoraja, dentro e fora das lutas sociais e raciais, o fim das prisões e da sociedade punitiva

Texto: Edda Ribeiro | Edição: Nataly Simões | Imagem: Dillasete

História de luta não precisa ser história de dor. É nisso que acredita a historiadora Suzane Jardim, que ressalta sua preocupação com a evidência dada às pessoas negras. Para ela, o destaque a essas vidas é muitas vezes aliado da violência pela qual aquele corpo e mente negra experienciou. “Me preocupo com essa validação pela morte. Eu não quero que uma pessoa como eu precise realmente parar em uma UTI, ser encarcerada ou morta para ser considerada humana. Essa lógica têm me tirado o sono”, afirma.

A historiadora é conhecida por suas aulas abertas sobre o sistema de justiça brasileiro e o abolicionismo penal. Ela também discorre, em diversas reportagens no qual é entrevistada, sobre o genocídio da população negra.

Suzane escolheu o curso de História na Universidade de São Paulo (USP) pelo interesse em ser professora. Em formação, passou a ensinar a matéria de um mundo quase impossível e que é, ao mesmo tempo, a razão do seu ânimo. “Ver uma aula aberta sobre prisões e abolicionismo penal lotada, a galera de faixas etárias, cores e quebradas diversas saindo de suas casas com um caderninho debaixo do braço pra ir me ouvir e entender mais sobre um tema que define a vida e a morte de tantos no nosso país”, conta.

A professora já esteve em muitas salas de aula. Foi responsável pela criação de conteúdo e por oficinas sobre diversidade e inclusão voltadas à questão racial para o “Projeto Diversidades: Educação Antirracismo”, desenvolvido pelo Senac, em 2009. Suzane também atuou como educadora no projeto “Mulheres com Propósito”, da PepsiCo Latin America e FUNDES Latin America, que oferece formação básica gratuita em empreendedorismo para mulheres de baixa renda moradoras da periferia.

As threads postadas por Suzane em sua conta no Twitter também chamam atenção por análises e discussões acerca da violência do Estado. Em uma delas, a historiadora conta sobre um estágio que realizou no Museu de Saúde Pública Emílio Ribas, em São Paulo, e como relaciona o que aprendeu ali sobre epidemias que assolaram o mundo e a Covid-19 hoje, com a omissão de dados dos governos sobre as doenças e a morte que chegava mais para determinados grupos do que para outros.

Suzane também encorajou campanhas contra o encarceramento de jovens negros. Em 2017, a historiadora esteve à frente dos atos conhecidos como “30 dias por Rafael Braga”, discutindo encarceramento, racismo, segurança pública e o papel dos movimentos sociais para mobilizar e defender a liberdade do rapaz preso em uma das manifestações das Jornadas de Junho, de 2013. Pacientemente, ela alimentou uma agenda de atividades em sua conta no Medium. “Por Rafael Braga Livre. Por um mundo sem prisões. Por um mundo onde a liberdade não tenha cor”, diz o documento.

No Programa de Pós Graduação em Ciências Humanas e Sociais da Universidade Federal do ABC, Suzane desenrola a crença de um projeto de mundo diferente. O título “Negros de bem: respeitabilidade e punição na Imprensa Negra Paulista” (1930 - 1970) discorre sobre a “influência do sistema penal e punitivo na construção política dos movimentos negros expressa via imprensa”, entre outros objetivos.

Fim do sistema punitivo

Violência e dor levaram Suzane a pensar sobre o fim das prisões e alternativas ao sistema punitivo. “Percebi que a prisão de meu agressor não viria de fato com nenhuma manifestação de melhora no meu quadro físico ou psicológico e nem traria garantia de diminuição ou fim de casos como o meu”, afirma. Com o processo em curso na Justiça, a professora foi perseguida pelo agressor em Diadema, na Grande São Paulo, ainda durante sua recuperação.

Junto a sua quase fuga e diante da prisão do agressor, Suzane destaca a ausência de políticas eficazes para o fim do feminicídio e o entendimento de que o desejo de encarceramento de quem lhe agrediu só resultaria em tortura e validação do sistema que aprisiona corpos negros. “Uma máquina de criar corpos matáveis”, descreve a historiadora.

O que Suzane Jardim chama de “projeto de mundo” é também uma tema central de relação racial. “O abolicionismo penal se dá pelo entendimento de que o sistema de justiça existe para cumprir funções de controle de raça e classe. Ele se estrutura por meio do racismo e de seus estigmas. Todo abolicionismo penal é obrigatoriamente um projeto antirracista”, defende.

A ideia, defendida também por figuras como a ativista estadunidense Angela Davis, é um convite “para que a gente desnaturalize a prisão, entenda seu papel na manutenção do poder e das desigualdades e pense quais os novos mecanismos precisamos criar em nossa sociedade para lidar com o que nos fere sem que assim apoiemos tortura, estigmatização e políticas de morte”, explica.

Obras e inspirações

Mais do que relatar dores, Suzane exibe seus ganhos. De uma série de feitos, ela traz com carinho os favoritos: o debate “Abolicionismo Penal É Coisa De Branco... Né?”, organizado pela Frente Estadual Pelo Desencarceramento de São Paulo; escritora convidada na Antologia Inspirada no Universo da Mixtape “Pra Quem Já Mordeu Um Cachorro Por Comida, Até Que Eu Cheguei Longe”, lançada em dezembro de 2019 por Emicida; e se ver dando nome a uma das salas da Casa 1, centro de cultura e acolhimento de pessoas LGBT na região central da capital paulista.

Já com os dois pés no mestrado, a historiadora também realiza trabalhos como pesquisadora na área audiovisual. Ao investigar o Rio de Janeiro dos anos 1950 para a premiada obra “A Vida Invisível”, de 2019, confirmou o que já ela estudava antes e o que evidencia a tentativa de se anular registros da história brasileira oficial. Criminalização do aborto e maior incidência de dor e morte entre as mulheres mais pobres e população negra ocupando cargos no setor de serviços foram essenciais na montagem de personagens da ficção. A dinâmica do tráfico e o uso de drogas e associada à criação do inimigo social também surgiram, com personagens reais na pesquisa de Suzane: havia ali CEP e cor pré determinados.

Associações e grupos independentes são inspirações para Suzane, que hoje vive em Sacomã, região Sudeste de São Paulo. Na política, lhe agrada movimentos de mulheres como a Associação de Amigos e Familiares de Presos (Amparar) e os times de mães que, no jogo da vida, perdem seus filhos para o Estado: As Mães de Maio, as Mães de Manguinhos e as Mães do Acari, por exemplo. “Acho que são uma força revolucionária descomunal e que têm muito a ensinar a diversos ‘intelectuais’ por aí”, diz Suzane. Como alguém que pensa em outro mundo, a historiadora se debruça nos escritos de Buenaventura Durruti, Emma Goldman, Lucy Parsons e outros autores anarquistas revolucionários.

Trabalho na pandemia

Com a pandemia da Covid-19, o novo coronavírus, a pesquisadora e filha do movimento punk - como se descreve - viu os ofícios de mãe, ativista e trabalhadora - nos novos moldes da exploração do (des)emprego - ficarem restritos às quatro paredes do isolamento social.

O mundo do trabalho fixo e dos horários certos se afastaram de Suzane. Chamada de empreendedora por uns, ela prefere definir sua condição como “trabalhadora precarizada”: sem direitos e sem jornada de trabalho definida.

Na quarentena, Suzane tem sentido falta de hábitos simples. Desde janeiro está longe dos pais, donos de barzinho em Diadema. “Daqueles que vendem litrão, tem aquelas máquinas de karaokê humildes com ficha a um real e bolovo”, relata. “Espero que pandemia passe pra eu poder voltar a ir cantar por lá”, acrescenta.

Nascida em 31 de dezembro de 1990 e hoje com 29 anos, a fã de Joe Strummer, Jello Biafra e Iggy Pop, Tim Maia, Richard Pryor e tantos outros artistas aguarda ansiosamente pelo fim da quarentena. “Passei anos sem dançar devido à tentativa de feminicídio que sofri. Depois que fiz minha cirurgia e consegui colocar próteses no quadril, prometi que dançaria sempre que possível”, compartilha Suzane. Que seus hábitos voltem à tona e que ela possa visitar os pais em para dançar com seu corpo negro, cibernético e de luta.

No mês da Mulher Negra, Latino-americana e Caribenha, o Alma Preta traz uma série de reportagens especiais que contam a história de mulheres inspiradoras.

 O povo preto quer narrar suas histórias

Vivemos em um mundo de disputa. Nossa sociedade tem profundas marcas das desigualdades que foram desenhadas ao longo da história. Na atualidade parece que há espaço para debate, a tão falada representatividade está sobre a mesa.
Mas o povo preto quer mais. Queremos narrar nossas próprias histórias. Queremos ter direito de fala não somente quando essa é concedida. Somos múltiplos, somos muitos e plurais. A ótica de ser preto no Brasil se revela como um espectro, tamanha a diversidade dos povos ancestrais que nos originaram, e a variedade de experiências que podemos ter e ser. Pertencer. O que nos conecta é pele.

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