Grupo de leitura tem se reunido de maneira quinzenal para conhecer e refletir sobre o pensamento de Sueli Carneiro, uma das principais referências na luta antirracista no Brasil

Texto / Pedro Borges
Imagem / Otávio Valle

Cerca de 15 pessoas, na maioria mulheres negras, tem se reunido para ler a tese de doutorado de Sueli Carneiro “A construção do outro como não-ser como fundamento do ser” e discutir o pensamento de uma das principais referências da luta antirracista no Brasil.

Os encontros acontecem de maneira quinzenal na Galeria Metrópole, Avenida São Luís, 187, Loja 10. O próximo diálogo será às 19h, no dia 13 de Fevereiro, data da quinta reunião.

O grupo “Lendo Sueli Carneiro” partiu de uma provocação da própria intelectual à jornalista Bianca Santana sobre a sensação de que poucas pessoas leram suas obras. A partir dai, Bianca Santana e Juliana Gonçalves, também jornalista, decidiram articular os encontros.

“Partimos do princípio de que ler é privilégio e precisamos cada vez mais democratizar os saberes. Assim, fizemos a chamada nas redes sociais e as pessoas apareceram para ler conosco. Ler Sueli com a ajuda de pessoas comprometidas com a luta antirracista, sobretudo mulheres negras, tem sido um acalento em tempos tão duros”, conta Juliana Gonçalves.

Na tese de doutorado, Sueli Carneiro relaciona os conceitos de Michel Foucault para tratar sobre a racialidade presente na ideia de “biopoder”, fundamento clássico construído pelo autor. É a partir desses cruzamentos que a intelectual formulou a noção de epistemicídio para o povo negro no Brasil, que seria a morte simbólica desse segmento social.

Valérya Borges, jornalista, acredita que essa oportunidade tem sido única, de discutir uma autora tão importante para o pensamento social brasileiro ao lado de outras mulheres negras.

“Fazer parte desse grupo de leitura para ler Sueli Carneiro para mim é uma oportunidade única e incrível, porque eu havia lido muito pouco da Sueli. Ela é uma intelectual muito importante que precisa ser lida pelo povo preto e por todo mundo, porque o trabalho dela é muito relevante”.

Leitura em voz alta

O estudo da tese é feito de maneira coletiva pelas participantes, que se revezam para fazer a leitura em voz alta. As interrupções, sejam elas para expor dúvidas ou reflexões, são aceitas durante todo o processo.

Valerya tem aprovado a experiência, a primeira vez em que tem estudado e aprendido nos moldes propostos pelo grupo.

“Ler em grupo é muito bom para aprender o conteúdo. Ler e fazer parte de um grupo formado prioritariamente por pessoas pretas e um número tão grande de mulheres, além de ser tão bom para o aprendizado é também fortalecedor para mim enquanto mulher preta”, conta.

Lendo Sueli Carneiro Corpo

Grupo de leitura da tese de doutorado de Sueli Carneiro (Foto: Divulgação)

O espaço, onde se compartilham e cruzam as experiências pessoais dos participantes e as referências acadêmicas de cada um, é aberto para todos.

“O grupo é predominantemente composto por mulheres negras, mas é aberto para homens negros e pessoas brancas. Tem sido um exercício de mediação, escuta e um processo político e pedagógico de aprendizado no coletivo”, conta Juliana Gonçalves.

Quem é Sueli Carneiro?

Nascida em 1950 e criada na Zona Norte de São Paulo, Sueli é a mais velha de sete filhos de uma costureira e um ferroviário.

Sueli é filósofa e doutora em educação pela Universidade de São Paulo (USP), escritora e ativista do movimento feminista e da luta antirracista. A intelectual também participou da fundação do Geledés – Instituto da Mulher Negra, em 1988, uma das principais referências sobre as questões raciais no país.

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