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Dados corroboram os índices de violência contra o povo negro; Brasil lidera há 3 anos o ranking de país que mais mata pessoas trans no mundo

Texto / Pedro Borges
Imagem / Divulgação

“Nós somos atravessadas por dois genocídios em curso no Brasil”, afirma Maria Clara Araújo, mulher negra trans e assessora da deputada estadual Erica Malunguinho. A ativista se refere aos números do genocídio negro e à violência cotidiana existente contra a população LGBT, e em especial trans.

Os números confirmam o que Maria Clara Araújo aborda. De acordo com o Atlas da Violência referente a 2017, documento publicado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 62.517 pessoas foram assassinadas no país, sendo que dessas, 71,5% eram negras. No ano de 2018, o Dossiê dos assassinatos e da violência contra travestis e transexuais no Brasil em 2018, apontou para o homicídio de 163 pessoas em 2018. Dessas, 82% eram negras.

“Eu sou uma travesti negra. Não dá para eu hoje combater o transfeminicídio ou o racismo. Para mim pensar interseccionalmente é pensar como meu corpo foi construído socialmente e quais são os marcadores de violência que me atravessaram, e tem coisas desses marcadores que me atravessam de maneira simultânea”.

Para ela, um dos caminhos para superar essas dificuldades é o maior cuidado por parte dos movimentos sociais para esse segmento.

“Essas questões estão entrelaçadas, mas só passarão a ser visibilizadas a partir do momento que todos os movimentos sociais passem a ouvir mulheres trans e travestis e ter a transfobia enquanto algo que estrutura as relações no Brasil também”, afirma.

Maria clara araújo corpo

Maria Clara Araújo, ativista na luta contra o racismo, LGBTfobia, sexismo e por uma sociedade mais justa (Foto: Divulgação)

A violência contra a população trans

De acordo com o dossiê, o Brasil lidera há três anos o ranking de país que mais mata pessoas trans no mundo. Foram 167 pessoas assassinadas no país em 2018, contra 71 no México, 28 nos EUA e 21 na Colômbia, o que faz do Brasil concentrar 41% dos homicídios de pessoas trans no mundo. Vale destacar que entre as americanas, 85% das assassinadas eram negras.

Maria Clara Araújo acredita que o caminho para a mudança desse necessário ainda é longo. Para ela, os avanços para a população negra e trans no Brasil ainda são limitados, principalmente em se tratando de um grupo que ainda luta pela vida.

“Quais são os nossos avanços no Brasil até agora? Casamento igualitário? Quando a população negra, que é LGBT está discutindo direito á vida”.

A violência contra trans no Brasil também tem outros marcadores presentes: o regional e o etário.

O Mapa dos assassinatos aponta que 60,5% das vítimas tinham entre 17 e 29 anos, 29,1% entre 30 e 39 anos e 10,5% entre 40 e 49 anos.

Os cinco estados mais violentos para pessoas trans, em números absolutos, em 2018 foram Rio de Janeiro, com 16 casos, Bahia, com 15, São Paulo, 14, Ceará, 13 e o Pará, 10.

Somente em 6 estados do país há a aplicação da Lei Maria da Penha para Travestis e Transexuais: Acre, Pará, Piauí, Pernambuco, Rio de Janeiro e São Paulo. De acordo com o documento, “As Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher não estão preparadas para casos de violência a pessoas trans”.

Nordestina e natural de Recife (PE), Maria Clara Araújo aponta que ainda existe uma ausência de políticas fora do eixo do Sudeste também para a população LGBT negra.

“Eu que sou Recife. Lá a gente ainda está muito no campo do micro, das relações micro, do nome social enquanto uma gambiarra de direito e afins”.

A situação da população trans no país

Dados da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA) apontam que 90% da Travestis e Transexuais estão inseridas no mercado de trabalho por meio da prostituição. Não à toa, 65% das pessoas trans assassinadas eram profissionais do sexo e 60% foram executadas nas ruas.

Outro fator que chama atenção é o formato da exclusão. Segundo a ANTRA, travestis e mulheres transexuais costumam ser expulsas de casa aos 13 anos de idade.

No sistema educacional, as disparidades estão presentes. Apenas 0,02% do grupo está nas universidades, 72% não possuem o ensino médio e 56% não tem o ensino fundamental completo, segundo dados do Projeto Além do Arco-Iris/AfroReggae.

A perversidade dos dados e das violências, quando se olha para essa população LGBT e negra, exige da sociedade um olhar interseccional para a superação das desigualdades e garantia de direitos, segundo Maria Clara Araújo.

“Qualquer passo que seja dado tem que ser um passo dado interseccionalmente, pensando em toda a complexidade que implica ter esses corpos em movimento. É preciso que esses movimentos sejam atentos a esses corpos”.

 O povo preto quer narrar suas histórias

Vivemos em um mundo de disputa. Nossa sociedade tem profundas marcas das desigualdades que foram desenhadas ao longo da história. Na atualidade parece que há espaço para debate, a tão falada representatividade está sobre a mesa.
Mas o povo preto quer mais. Queremos narrar nossas próprias histórias. Queremos ter direito de fala não somente quando essa é concedida. Somos múltiplos, somos muitos e plurais. A ótica de ser preto no Brasil se revela como um espectro, tamanha a diversidade dos povos ancestrais que nos originaram, e a variedade de experiências que podemos ter e ser. Pertencer. O que nos conecta é pele.

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