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Para encerrar o mês de comemorações do 25 de Julho, Dia da Mulher Negra, Latino-americana e Caribenha, conheça a história da arquiteta, urbanista e educadora do Rio Grande do Sul, que fez da filosofia Ubuntu um agente transformador no cenário educacional de Pelotas

Texto: Aline Bernardes | Edição: Nataly Simões | Imagem: Dillasete

A frase “Não aceito mais as coisas que não posso mudar, estou mudando as coisas que não posso aceitar”, de Angela Davis, norteia a personalidade de Rosemar Lemos. Nascida e criada em Pelotas, no Rio Grande do Sul, a arquiteta de origem pobre viu o pai trabalhar para custear os estudos da mãe. Enquanto isso, Rosemar e os irmãos eram cuidados pela avó paterna. Assim que nasceu, seu pai conseguiu uma casa e isso fez com que ela tivesse uma infância alegre e divertida, regada de amizades que duram até hoje.

Por vezes, frequentava as belas casas da cidade por ir com as suas tias Geni e Georgina, empregadas domésticas, em seus trabalhos. Curiosa, Rosemar perguntava às tias a razão de as casas terem tantas coisas que não faziam parte da sua realidade. “Elas me contavam onde seus patrões trabalhavam, suas profissões, e então decidi que queria ter uma vida semelhante”, relembra. Para perseguir esse objetivo, a jovem negra definiu sua rotina na infância: ir à escola, fazer suas tarefas, sem precisar que a mandassem e depois brincar até a noite.

Primogênita entre três irmãos, a arquiteta, urbanista e professora começou ainda cedo o seu projeto de vida. Aos 11 anos pediu para que uma professora a ajudasse a conseguir uma vaga na maior escola pública da América Latina – o Colégio Municipal Pelotense – e depois a pleitear bolsa de estudos em um dos melhores cursinhos pré vestibular da cidade. A conquista garantiu a ela o 14o lugar no Curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Pelotas (UCPel).

Ao ser questionada se o colégio foi um bom lugar, a urbanista diz que sim, pelo menos até o final do ensino fundamental. Sua personalidade nunca a permitiu ser humilhada e Rosemar brinca com o fato de que como sua mãe trabalhava em escolas fora da cidade, ela resolvia os entraves do seu jeito. “Estudei sempre em escola pública, por isso, os grupos se formavam por classe social e essa era forma de garantir respeito”, conta.

Segundo a arquiteta, o racismo estava presente, mas a educação recebida, e os diálogos com sua mãe, pai e avós, a deram certeza de que poderia chegar onde quisesse a partir do respeito, dignidade e humildade. A única coisa que não teve como escapar na escola foi ter de interpretar a Tia Anastácia (do Sítio do Picapau Amarelo) em uma peça de teatro.

Rosemar lembra que até os 14 anos viveu como qualquer criança e adolescente, sem deixar de ser aprovada em todas as séries. A partir dos 15 anos, decidiu que queria ser uma profissional com curso universitário, ter um bom salário, casa, carro e viajar muito. Ela sabia que para isso, precisaria estudar. “Foi o que fiz, inclusive dando aulas particulares de matemática e física para custear meus estudos”, ressalta.

A educação como agente transformador

“A Academia me permitiu ver o mundo por outro ângulo, e isso fez toda a diferença”. É dessa maneira que Rosemar começa a falar sobre a sua vivência no ambiente universitário. “Percebi que conhecimento é poder e que conviver com outros grupos e outras civilizações são fontes de sabedoria”, destaca.

No ambiente acadêmico, a urbanista percebeu que sua inteligência a levaria ao desafio de progredir intelectualmente. Na época da sua colação de grau, somente poderia entregar o diploma ao filho, ao pai ou mãe que tivesse nível superior. “Meu pai havia estudado até a sétima série, mas foi ele quem se sacrificou para que pudéssemos estudar. Logo, era o momento de quebrar a regra”, afirma.

A questão foi parar no Colegiado do Curso sob protestos e declarações. Foi isso que a influenciou para que concluísse duas graduações na Universidade Federal de Pelotas. Ela também realizou uma especialização e um mestrado em Química; doutorado em Engenharia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e pós-doutorado em Ciência da Arte e do Patrimônio pela Faculdade de Belas Artes de Lisboa, em Portugal, além de ser professora universitária. A frase: “Você não irá conseguir” sempre a moveu no sentido contrário.

“Se não fosse a educação pelo exemplo e o apoio que recebi dos professores, em sua plenitude não negros, eu não teria alcançado tal formação e reconhecimento profissional. Minha vida é o exemplo que a luta antirracista deve ter a participação de toda sociedade, independente da etnia”, considera.
Na universidade, Rosemar ainda fez um curso para obter titulação para Licenciatura. Em 1999, ela passou a ser professora substituta de Geometria no Instituto Federal de Educação e, em seguida, de Matemática e Química em uma escola pública de Pelotas.

Ao ministrar aulas de Geometria, Construções Geométricas e Perspectiva e Sombras no Centro de Artes, no Curso de Licenciatura em Artes Visuais (UFPel), Rosemar notou que haviam diversos alunos negros. Criou, então, a disciplina Arte e Cultura Afro-brasileira a fim de que os estudantes se identificassem mais com o curso e em cumprimento à lei 10.639 de 2003.

“A disciplina trata de temas culturais, mas também sobre o racismo e todas as suas intersecções. Atualmente esta disciplina faz parte do banco universal e qualquer aluno da Universidade Federal de Pelotas pode cursá-la”, explica a professora.

Artivismo

Além da carreira universitária, Rosemar é uma artista e levou para o cenário acadêmico de sua cidade natal projetos artísticos em cursos de extensão. “Sou uma ativista que tem como forma de expressão a arte, que sensibiliza, que desarma, que faz com que as pessoas parem para pensar sobre, de uma forma carinhosa”, define.

Para ela, a música, os filmes, as artes visuais suscitam o uso de tecnologias tanto na produção quanto na divulgação. Em um de seus projetos, o Grupo Design, Escola e Arte, Rosemar teve a ideia de reunir pneus que estavam na UFPel e que deveriam ser descartados. A partir de uma iniciativa desenvolvida com os alunos de uma escola pública da periferia, os pneus foram usados para construir uma área de lazer que inclui ainda paredes grafitadas pelo grupo.

Já no curso de Engenharia de Materiais, na disciplina de Reciclagem de Materiais, os alunos construíram brinquedos reaproveitando resíduos e presentearam no Natal os moradores de uma casa onde viviam crianças em situação de vulnerabilidade social.

Durante a realização do pós-doutorado em Lisboa, a partir de uma bolsa pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), Rosemar produziu um documentário chamado “O Grande Legado”, onde narra a chegada de mulheres africanas ao país, suas experiências de vida e a influência de suas culturas no patrimônio histórico imaterial de Portugal. Para a educadora, o documentário é um dos exemplos de como a arte e as ciências se complementam.]

Cercada dos familiares e amigos

Quando questionada sobre quem é a Rosemar Lemos na vida pessoal, a professora enfatiza: “sou uma mulher preta que descobriu realmente o mal que o racismo e os preconceitos produzem e desde então nunca mais parou de lutar por aqueles que não conseguem reagir”. A arquiteta está casada há 33 anos com um homem que considera generoso, companheiro e amigo. Com o cônjuge, Rosemar teve dois filhos, uma mulher de 30 anos e um homem de 22, aos quais ela chama de “meninos que me dão orgulho”.

“Sem perder a alegria de viver, adoro viajar e adotar os filhos dos amigos, os priminhos, os alunos. Se é adolescente ou jovem, lá estou para transformar tristezas em alegrias e vitórias”, acrescenta.

Rosemar ainda separa um tempo de sua rotina para estudar, dançar e tocar instrumentos de percussão. “Estou vivendo a melhor fase na minha vida. Plantei até meus quarenta e dois anos e agora estou colhendo: sabedoria, vitórias e a realização de muitos sonhos”, compartilha.

Filosofia Ubuntu e aquilombamento

Ubuntu – palavra africana de origem Zulu – significa para a professora mais do que o título de seu livro “Ubuntu: As transformações Através das Ações Afirmativas”, lançado em 2019. “É unir forças, independente da etnia, para alcançar determinados objetivos”, descreve.

Para Rosemar, a condição de descendentes de africanos escravizados e de minorias nos espaços de poder exige que aqueles que pensam como as pessoas negras e que entendem suas posições de privilégio lutem juntos contra as desigualdades, ou pelo menos, não coloquem barreiras.

Outro projeto desenvolvido pela professora e que foi, de certa forma, guiado pela filosofia Ubuntu é a implementação e coordenação do Núcleo de Ações Afirmativas e Diversidade da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), com o objetivo de promover pluralidade étnica na instituição de ensino superior, entre 2017 e 2019.

“São alunos, advogados, professores, profissionais liberais, conjuntamente desenvolvendo ações educativas e pela garantia de direitos. Ubuntu é a palavra que define a minha forma de agir junto à sociedade”, relata.

Rosemar entende que o aquilombamento é necessário, inclusive nos tempos atuais, e explica: “é ter persistência, fé em nós mesmos e união para alcançar nossos objetivos; respeitar a natureza extraindo dela o que precisamos sem matá-la; buscar na ancestralidade o conhecimento e a força para vencer os desafios de toda ordem; juntar-se aos semelhantes para conquistar a dignidade e o respeito que, segundo a lei devem ser garantidos a todo ser humano. Transformar em atos todo aprendizado transmitido pelos nossos antepassados”.

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