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Entre os anos 50 e 60 artistas e bandas negras movimentaram no cenários musical nos EUA com inovações capazes de transcender o jazz e o blues para tomar o mundo. O Rock 'n' Roll negro iniciou um dos ciclos hegemônicos mais importantes da história da música pop no mundo. O Alma Preta selecionou cinco dos principais artistas do gênero.

Texto e imagem / Vinicius Martins

O presidente da Sun Records Sam Phillips tinha uma ambição: apresentar a América branca à música negra. “Se eu pudesse encontrar um homem branco que tivesse o som negro e o feeling negro, eu poderia fazer um bilhão de dólares”, teria dito Phillips. Ele sempre negou essa declaração publicamente, ainda assim, seus objetivos se concretizaram.

O mandatário da Sun Records foi o homem que descobriu Elvis Presley: um jovem branco de Tupelo (Mississippi) que transformou-se no suposto Rei do Rock. Uma das figuras que garantiram que o gênero tomasse os Estados Unidos e o resto do mundo a partir de um país racialmente segregado e que por muito tempo odiou o rock ‘n’ roll, o blues e o jazz criado e feito pela população negra daquele lugar.

A crescente popularização desses gêneros entre o público branco e jovem dos EUA abriu espaço para artistas brancos como Jerry Lee Lewis, Bill Haley, o próprio Elvis, entre outros. A industria viu um caminho para eles e lucrou seus bilhões. Mas o que aconteceu com Chuck Berry, Bo Didley, Sister Rosetta Tarpe, Jimi Hendrix, Black Merda e tantos outros artistas e bandas negras que criaram o rock ‘n’ roll de maneira inovadora desde os anos 50?

Mais de meio século depois, o rock é visto como um gênero branco. Há pouca identificação das populações negras ao redor do mundo com o estilo. Apesar disso a história feita nos guetos norte-americanos deixou um legado incrível para a música.

Hoje, 13 de julho, no dia do rock, selecionamos cinco artistas negros que definiram o rock ‘n’ roll e garantiram a hegêmonia do gênero por mais de 40 anos.

A mãe do Rock 'n' Roll

Rosetta Nubin, conhecida como Sister Rosetta Tharpe, nasceu há 102 anos atrás. E antes que qualquer um pudesse imaginar Chuck Berry tocando sua guitarra como se tocasse uma campainha, Rosetta já dominava de forma exemplar o rock ‘n’ roll em sua Gibson SG branca, acompanhada de letras e refrões dedicados a Deus e à Igreja.

A Mãe do Rock ‘n’ Roll era a exceção em uma época em que pouquíssimas mulheres podiam tocar guitarra. Começou sua carreira aos quatro anos de idade, influenciada pelo jazz e pelo blues produzido pelos afroamericanos. Sua aproximação com a igreja vem desde cedo e influenciou diretamente sua obra.

Quando gravou seus primeiros registros enfrentou diversas críticas por misturar música sacra com ritmos até então atrelados ao pecado e ao diabo e por incentivarem danças mais sensuais do que permitia a época. Em 1944, lançou a música “Strange Things Happening Every Day”, considerada por muitos a primeira gravação da história do rock ‘n’ roll.

Nunca julgue um livro pela sua capa

Diz a lenda que na primeira aparição dos Beatles nos Estados Unidos, em 1964, a coisa que mais interessava o beatle John Lennon no país era Otha Ellas Bates McDaniel, conhecido como Bo Diddley, um dos pioneiros do rock ‘n’ roll americano nos anos 50.

Bo tinha uma batida única e característica em sua guitarra, chamada de “Bo Diddley Beat”. A técnica lembra o gingado da rumba e tem origem no ritmo dos tambores do oeste africano. Esse tipo de batida era identificado em muitos dos grupos de escravos sequestrados que foram levados às Américas durante o colonialismo europeu.

Proibidos de possuir seus tambores tradicionais, os cativos usavam seus corpos para produzir as batidas. Alguns registros mostram que as crianças negras também produziam o som com uma espécie de guitarra com uma corda, chamada “Diddley Bows”. Tal fato pode explicar o nome artístico de Otha Ellas.

Diddley também era conhecido como “The Originator”, por ser um dos criadores do rock ‘n’ roll nos anos 50. O músico se orgulhava do título, apesar de sempre reclamar que sua posição foi “tomada” por Elvis Presley: “eu estou cansado de todo mundo falando de Elvis. Eu e Chuck Berry criamos o rock ‘n’ roll”.

Sua música influenciou diversas músicos das gerações seguintes, desde Buddy Holly e Yardbirds até o U2.

“Se você der outro nome ao rock ‘n’ roll, você deve chamá-lo de Chuck Berry”

Chuck Berry nasceu em St. Loius, estado do Missouri, nos EUA, em 1926. Ele é o autor de canções históricas como Johnny B. Goode (não, ela não é do Martin McFly), Roll Over Bethoven, Maybellene, Sweet Little Sixteen e School Days.

É citado por muitas bandas e guitarristas como uma das maiores influências do rock, sendo um nome importante para a consolidação do gênero nos anos 50. Berry conseguiu fazer uma das misturas mais competentes de rhythm and blues e country music para produzir o rock ‘n’ roll cinquentista. Suas músicas descreviam a vida na escola, incentivavam a dança, falavam de carros rápidos e romances adolescentes.

Assassinato Negro

O rock ‘n’ roll negro não morreu nos anos 50. Apesar do crescimento do funk dentro da comunidade afro-americana, muitos músicos ainda foram influenciados pelos artistas que construíram o gênero em seu início. Considerada a primeira banda de black rock da história, o Black Merda (pronuncia Black Mur-dah, de Murder) produziu um estilo único, aliado ao jazz, ao blues, ao funk e à psicodelia.

Produto do contexto de forte embate racial dos EUA, os membros Anthony Hawkins (guitarra/vocal), Veesee L. Veasey (baixo/vocal), Charles Hawkins (guitarra/vocal) e Tyrone Hite (baterista) construíram em Detroit um rock ‘n’ roll psicodélico capaz de questionar as opressões vividas pelos negros norte-americanos e a violência racista de sua época.

Em 1970, lançaram seu primeiro álbum, influenciados pelos acontecimentos políticos e sociais e pelas principais estéticas musicais da época. Suas temáticas permanecem atuais no panorama racial dos EUA, que enfrenta a violência policial contra a população negra norte-americana. Nos últimos anos, mortes de homens afro-americanos pela polícia no país levaram milhares às ruas contra a violência policial.

Força da Natureza

Jimi Hendrix estava além de seu tempo. O maior guitarrista da história tornou-se um simbolo absoluto do rock, quando o gênero já havia se tornado um estilo branco, na década de 60. Nascido em Seattle, nos EUA, formou-se como guitarrista tocando nas bandas de apoio de artistas como Little Richard e BB King.

Jimi atingiu o sucesso ao mudar-se para Inglaterra em 1966. Uma vez em território inglês, lançou o aclamado “Are You Experienced?” em 1967, considerado um dos maiores álbuns do rock psicodélico. Chamou a atenção pela facilidade em viajar por ritmos distintos como o jazz, o blues e o funk e pelo ímpeto criativo para produzir solos de guitarra memoráveis, como nas músicas Red House, Voodoo Child e Little Wing. Com estilo espacial e moderno, há quem diga que ele é um dos grandes expoentes do afrofuturismo na música contemporênea. Certo mesmo é que Jimi deixou legado imaterial indispensável à humanidade enquanto músico, guitarrista e poeta.

 O povo preto quer narrar suas histórias

Vivemos em um mundo de disputa. Nossa sociedade tem profundas marcas das desigualdades que foram desenhadas ao longo da história. Na atualidade parece que há espaço para debate, a tão falada representatividade está sobre a mesa.
Mas o povo preto quer mais. Queremos narrar nossas próprias histórias. Queremos ter direito de fala não somente quando essa é concedida. Somos múltiplos, somos muitos e plurais. A ótica de ser preto no Brasil se revela como um espectro, tamanha a diversidade dos povos ancestrais que nos originaram, e a variedade de experiências que podemos ter e ser. Pertencer. O que nos conecta é pele.

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