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Caso de tortura no mercado Ricoy, o assassinato de Ágatha Felix e Evaldo dos Santos, racismo no futebol; relembre os casos que inflaram a discussão do racismo e genocídio negro no país

Texto / Redação | Edição / Simone Freire | Imagem / Reprodução

Um dos primeiros casos emblemáticos de 2019 ocorreu na Universidade Presbiteriana Mackenzie. A Reitoria decidiu aplicar, definitivamente, a sanção disciplinar de desligamento do estudante de Direito Pedro Bellintani Baleotti.

O aluno, apoiador do presidente Jair Bolsonaro (PSL), divulgou em suas redes sociais vídeos portando uma arma em mãos. No vídeo ele disse que estava à caminho do seu colégio eleitoral “ao som de Zezé, armado com faca, pistola, o diabo, louco para ver um vadio, vagabundo com camiseta vermelha e já matar logo”. No fim do vídeo, filmou duas pessoas negras em uma moto e afirma: “Tá vendo essa negraiada? Vai morrer! Vai morrer! É capitão, caralho”.

Em abril, mais de 80 tiros de soldados do Exército ceifaram a vida de Evaldo dos Santos, de 51 anos. O carro onde estava com a família foi metralhado em Guadalupe, no Rio de Janeiro (RJ). Para falar sobre o assunto, o Alma Preta entrevistou Suzane Jardim, pesquisadora em dinâmicas raciais e criminologia, e Dina Alves, advogada e pesquisadora. Embora tenha comovido o país, o assassinato de um homem negro, na frente da família, parece não ter surtido o mesmo efeito entre os representantes políticos do país.

O caso de Ágatha Vitória Sales Felix, de oito anos, assassinada no Complexo do Alemão, Zona Norte do Rio de Janeiro, também chocou o país e inflou a discussão sobre o genocídio da população negra. Na época, a menina foi a quinta criança morta em função da violência no Rio de Janeiro no ano.

Em março, por unanimidade, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu que é constitucional o sacrifício de animais em cultos religiosos. A sentença havia sido adiada no dia 9 de agosto de 2018, depois da ação ter recebido dois votos a favor, a do ministro e relator do caso Marco Aurélio, e Luiz Edson Fachin, que optaram pela manutenção do exercício da liberdade religiosa. Na ocasião, Marco Aurélio ponderou que não faz sentido “proibir religiões de sacrificar animais em ritos se a sociedade consome diariamente carnes de animais”.

Em julho, um menino de 17 anos tentou furtar uma barra de chocolate na rede de mercado Ricoy. Os funcionários, responsáveis pela segurança do local, amarraram o garoto, o amordaçaram, tiraram suas roupas e o agrediram com chicotadas. No vídeo, que circulou nas redes sociais, o menino negro tenta reagir às agressões com a voz abafada enquanto os funcionários gritam ameaças de morte, obrigam o menino a dar a mão para ser agredida, gargalham e filmam o episódio. Na época, o Alma Preta elencou cinco marcas famosas envolvidas em casos de racismo.

O professor de educação física Luiz Heleno Bento registrou, em outubro, um boletim de ocorrência por racismo após ser agredido no hotel Grand Mercure Vila Olímpia, na Zona Oeste de São Paulo. O autor da agressão alegou ter o confundido com um ladrão. “Ô, negão, me desculpe, mas eu te confundi com um ladrão que tentou me assaltar antes”, disse o homem à vítima.

Janice Ferreira da Silva, mais conhecida como Preta Ferreira, foi presa no dia 24 de junho junto a outros líderes de movimentos por moradia. Todos foram acusados de associação criminosa e extorsão. Sidney Ferreira Silva, irmão de Preta, também foi preso mesmo não fazendo parte de nenhum movimento. Em outubro, ambos receberam habeas corpus para responder o processo em liberdade.

Familiares de presos denunciam superlotação, falta de água e de itens de higiene, alimentação insuficiente e proliferação de insetos no Centro de Progressão Penitenciária (CPP) Dr. Rubens Aleixo Sendin, em Mongaguá, no litoral de São Paulo.

Em pleno novembro negro, o deputado federal Coronel Tadeu (PSL-SP) quebrou uma placa que denunciava o genocídio da população negra. A peça era uma obra do cartunista Carlos Latuff e integrava a exposição “(Re)Existir no Brasil - Trajetórias negras brasileiras”, na Câmara dos Deputados, em Brasília (DF).

No mesmo mês, dois casos de racismo em eventos esportivos geraram repercussão na opinião pública. Na Arena Mineirão, no jogo entre o Cruzeiro e o Atlético Mineiro, pelo Brasileirão, um torcedor atleticano fez declarações racistas e cuspiu no rosto de um segurança negro, contratado para evitar confusões entre as torcidas.

Na Ucrânia, o craque Taison jogava pelo Shakhtar Donetsk e disputava uma partida contra o Dínamo de Kiev quando torcedores adversários subiram o tom para ofensas racistas e fascistas. O atleta brasileiro retrucou as ofensas e gesticulou para a torcida. O árbitro o puniu com um cartão vermelho. Após a expulsão, ele saiu chorando do gramado.

Ainda em pleno novembro negro, Juarez Tadeu de Paula Xavier, professor de Jornalismo da Universidade Estadual Paulista (Unesp), foi alvo de racismo e de uma tentativa de homicídio no estacionamento de um supermercado em Bauru, no interior de São Paulo. O professor, de 60 anos, possui uma longa trajetória no movimento negro e na área acadêmica. Ele foi orientador do projeto que deu origem ao Alma Preta e é conselheiro editorial do portal.

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Vivemos em um mundo de disputa. Nossa sociedade tem profundas marcas das desigualdades que foram desenhadas ao longo da história. Na atualidade parece que há espaço para debate, a tão falada representatividade está sobre a mesa.
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