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Mesmo sendo uma das categorias mais conhecidas na humanização do parto, as doulas enfrentam desinformação sobre sua atuação. No caso das profissionais negras, há ainda outros desafios como a remuneração

Texto: Flávia Ribeiro | Edição: Nataly Simões | Imagem: Arquivo pessoal de Janaína Gentili

Em três posts no Instagram, a cantora Luedji Luna vem contando desde a semana passada como foi a experiência do parto humanizado que trouxe o seu filho, Dayo, ao mundo. Ela fala da jornada da gravidez, troca de médico, a busca pela equipe, os medos e inseguranças até o momento em que o bebê chegou aos seus braços.

Luedji faz parte de uma minoria. As mulheres negras estão em menor número no movimento de humanização do parto, tanto entre parturientes quanto entre as profissionais.Uma das figuras que faz parte do quadro de profissionais é a doula, ou seja, a “mulher que serve”. Ser doula, em tese, é estar à disposição de mulheres no período gravídico-puerperal, porém, atualmente, auxilia emocionalmente e fisicamente no trabalho de parto, auxilia a família a se preparar para a chegada do bebê, informa e orienta sobre possíveis violências que a gestante pode sofrer e em alguns casos interfere para que estas sejam evitadas.

“Além disso, esse suporte traz benefícios à gestante como: partos menos dolorosos, trabalhos de partos mais curtos, menor risco de interferências mecânicas e invasivas, como uso de fórceps ou vácuo, reduzindo o número de cesáreas desnecessárias e partos violentos. A doula possui papel informativo e combativo à epidemia de cesáreas desnecessárias e da necessidade de mulheres identificarem violências e buscarem na medida do possível um parto respeitoso e adequado”, explica Dennyse Sousa, doula de Belém (Pará).

Sem perspectiva

Dennyse também está terminando a graduação em Enfermagem, mas tinha vontade de ser doula desde a adolescência. “Somente no 9º semestre da faculdade consegui me formar doula e trazer a essa ocupação uma abordagem também racializada, já que este serviço infelizmente é elitizado e o número de mulheres negras que têm acesso a ele é irrisório. Mesmo que tenha sido aprovado um projeto de lei, que garante o acesso das doulas nas maternidades de Belém mediante certificado do curso, adentrar as maternidades segue sendo difícil”, comenta.

Ela também traz as dificuldades de ser uma mulher negra e doula no mercado em que a maioria dos profissionais é branca. “É não existir. Eu não consegui exercer presencialmente ainda essa formação. Eu atendo quase que de graça e de maneira remota. As pessoas que ministraram o curso falavam quanto cobravam pelos atendimentos, mas os preços são fora da realidade das pessoas que conheço: mulheres negras e periféricas”, analisa a universitária.

No seu entendimento, o problema está desde o acesso ao curso de formação. Ela ganhou uma bolsa, mas na turma, com cerca de 30 pessoas, só havia duas mulheres negras. “É uma profissão que parece não caber às mulheres negras. As equipes que atendem parto humanizado e têm doulas têm preços inviáveis para pessoas negras. Por outro lado, não se formam doulas negras, não se escolhem doulas negras para colocar numa equipe de parto domiciliar. Não vejo numa perspectiva boa. Não vejo a possibilidade de viver disso”, salienta Dennyse.

janainagentili parto2(Foto: Arquivo Pessoal/Janaína Gentili)

No Rio de Janeiro, Janaína Gentili fala que realmente não tem a doulagem a sua principal fonte de renda. Ela é doula desde 2017 com dois cursos de formação e um teórico-prático. Atualmente, é vice-diretora da Federação Nacional de Doulas do Brasil e diretora de Formação e Pesquisa da Associação de Doulas do Estado do Rio de Janeiro, mas sua renda é garantida pela bolsa como mestranda em Saúde Coletiva do Instituto de Medicina Social da UERJ, no departamento de Ciências Humanas e Saúde.

“Minha visão de mundo para mulheres, sobretudo negras, é a diversificação de renda. Não há, principalmente, neste momento como 100% das doulas viverem, exclusivamente, desta prestação de serviço”, enfatiza Janaina.

Foi por meio de experiências dolorosas que a doulagem entrou na vida de Janaína. Advogada, desde 1995, ela começou a lecionar em 2003 e anos depois, lecionando Direito de Família e ao atender moradores do entorno da faculdade, no Núcleo de Prática Jurídica, ela percebeu que algumas mulheres apontavam a episiotomia como dificuldades na relação conjugal culminando divórcio.

“Em 2015, engravidei e percebi a dificuldade em parir, naturalmente, na assistência suplementar. Tive uma perda gestacional com 12 semanas muito dolorosa e não tive qualquer acolhimento no tocante aos direitos trabalhistas muito menos social, exceto minha mãe. A partir daí despertou-me uma curiosidade sobre os direitos na gestação, parto, puerpério e perda gestacional. Escolhi estudar para entender minha sexualidade, prazer e sobretudo autonomia feminina” revela.

Ausência de informação, falta de acolhimento, racismo institucional e estrutural, a inobservância que violência obstétrica é diferente de racismo são fatores que ela aponta como influenciadores para que as mulheres negras sejam minoria atendendo ou sendo atendidas no parto humanizado. Janaína diz perceber diferença na luta contra o racismo no ambiente em que atua, mas, “ao mesmo tempo há uma trajetória de demolição árdua”.

“Não somos remuneradas iguais”

Com mais tempo de experiência, Nathalya Camargo, atende em São Paulo, desde 2014. Além de doula, Nathalya também é obstetriz e a união das formações é que garante a sua renda mensal. “Claro, não é época de ganhar rios de dinheiro (até porque muitos dos hospitais não estavam aceitando a entrada de doula, com a alegação do aumento de risco de contaminação), então para algumas mulheres não faz muito sentido. Mas para quem entende o papel da doula, sabe que o atendimento não é só na hora do parto. Há todo um trabalho por de traz disso. Está sendo impossível comer e se sustentar com a doulagem” afirma.

A obstetriz destaca que há diferenças não só na remuneração, quando a atuação das profissionais negras é comparada com a das brancas. “Nós, negras, não somos remuneradas iguais. Em equipes grandes, a maioria de nós é direcionada para os partos sociais ou de pessoas que desejam pagar menos. Assim como a cobrança em cima de nós é absurdamente maior”, ressalta.

Nathalya fala que a pandemia exigiu mudanças no atendimento e rotina no âmbito familiar, mas apesar disso e do atravessamento do racismo, ela não pensa em mudar do ramo de atuação até porque boa parte do seu público é composto por mulher negra. “Auxiliar outras mulheres, transmitir informações, ser a doula delas. Além de me fazer resgatar minha ancestralidade, no estar entre as minhas irmãs, me proporciona atuar com uma população que totalmente sofre com o déficit de conhecimento sobre cuidado. Ofertar esse cuidado é o que faz o meu ser feliz”, pontua a doula.

 O povo preto quer narrar suas histórias

Vivemos em um mundo de disputa. Nossa sociedade tem profundas marcas das desigualdades que foram desenhadas ao longo da história. Na atualidade parece que há espaço para debate, a tão falada representatividade está sobre a mesa.
Mas o povo preto quer mais. Queremos narrar nossas próprias histórias. Queremos ter direito de fala não somente quando essa é concedida. Somos múltiplos, somos muitos e plurais. A ótica de ser preto no Brasil se revela como um espectro, tamanha a diversidade dos povos ancestrais que nos originaram, e a variedade de experiências que podemos ter e ser. Pertencer. O que nos conecta é pele.

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