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Com queda na renda, pouca poupança e menor acesso ao auxílio emergencial, população negra lidera os indicadores de dificuldade financeira na crise da Covid-19

Texto: Juca Guimarães I Edição: Nataly Simões I Imagem: Bruno Rocha

Durante a pandemia da Covid-19, quatro em cada dez pessoas negras enfrentam problemas como falta de dinheiro para comprar comida. A realidade desigual é apontada na pesquisa “As Faces do Racismo”, da Central Única das Favelas (Cufa) e da agência de pesquisa Locomotiva. O estudo realizado em 72 municípios traz um capítulo exclusivo sobre a renda e as condições de vida de negros e não negros no Brasil.

Em média, a renda dos negros é de R$ 1.764 por mês, bem abaixo dos R$ 3.100 dos não negros. Uma diferença de 76%. Desde o início da crise epidemiológica no país, os impactos na renda dos negros foi mais brutal. Apenas 29% tinham poupança ou alguma reserva financeira guardada. Desta parcela, 12% já usou todo o dinheiro e 23% usou a maior parte até o início de junho, quando a pandemia ainda estava em ascensão e sem perspectiva de retomada da atividade econômica.

Em relação aos que pediram o auxílio-emergencial do governo federal, no valor de R$ 600, o dado sobre o efetivo recebimento do dinheiro também revela uma desigualdade. Entre os negros entrevistados, 43% fizeram o pedido do auxílio e 74% conseguiram. Já entre os não negros, o percentual de pedidos foi menor, 37%, e o de pagamentos realizados com êxito foi maior, 81% dos não negros receberam.

“Esses números são mais uma prova que o racismo no Brasil é estrutural, e a pandemia escancara isso. A população negra sofre bastante com essa desigualdade econômica e é preciso que seja olhada com mais cuidado pelo poder público”, disse Celso Athayde, fundador do Data Favela e da CUFA.

Com a renda apertada, a população negra lidera os indicadores de dificuldade financeira. Os brasileiros negros tiveram diminuição de renda de 73%, enquanto a dos brancos caiu 60%. Entre os negros, 49% deixaram de pagar contas, percentual de 32% entre os brancos. Pediram dinheiro emprestado, 20% dos negros e 13% dos brancos; e faltou dinheiro para comprar itens de higiene entre 20% dos negros e 12% dos brancos.

Um agravante na situação é a condição de vida da população negra no país com menor acesso a serviços básicos, o que contribui para o adoecimento de famílias inteiras. No levantamento, 59% dos negros disseram que têm acesso ao serviço de rede de esgoto, e 82% possuem acesso à água encanada. Já entre os não-negros, os dois temas têm percentuais maiores: 75% têm esgoto e 88% água encanada.

“São números impactantes. O Brasil tem muito a caminhar na luta contra o racismo. A CUFA, o Instituto Data Favela e o Locomotiva vêm fazendo fóruns, às quartas-feiras, em parceria com a UNESCO, para pensar em soluções para amenizar essas diferenças, expostas nesse trabalho”, explicou Renato Meirelles, fundador do Data Favela e presidente do Instituto Locomotiva.

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