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Publicação Lance! Usou a expressão na capa da edição desta quarta-feira (12); professores de Jornalismo, Denis de Oliveira e Juarez Xavier comentaram sobre o assunto ao Alma Preta

Texto / Juca Guimarães | Edição / Simone Freire | Imagem / Reprodução

A edição do jornal Lance! desta quinta-feira (12) causou indignação com o uso da frase “Quarta-feira Negra” em sua capa. A manchete era uma chamada para o especial da publicação sobre as consequências da disseminação do coronavírus (COVID 19) para os esportes no Brasil e no mundo.

A palavra “negra” usada pelo jornal personifica na negritude uma característica ruim, desagradável e prejudicial, avalia Juarez Xavier, professor de Jornalismo da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Bauru (SP).

“Um jornal que dá um título como esse fortalece a narrativa preconceituosa e racista, independentemente da subjetividade ou intenção do editor. O jornal precisa ter a compreensão política do impacto da informação que está produzindo”, disse.

Segundo Xavier, historicamente, as expressões que nascem em forma de brincadeira e são aceitas pelo jornalismo esportivo como inocentes acabam sendo levadas para o campo de futebol na forma de violência racial contra jogadores e árbitros negros, e são assimilados rapidamente por vários setores da sociedade.

“Esse é um exemplo de estímulo de uma necro-narrativa racista no futebol. Ele expõe pessoas a áreas de violência racial na medida que, com esses mecanismos, daqui a algum tempo essa expressão seja usada em outros campos”, critica.

Professor de Jornalismo da Universidade de São Paulo (USP) e militante da Rede Antirracista Quilombação, Denis de Oliveira tem a mesmo linha crítica em relação à postura da publicação. Para ele, a manchete é racista e está na mesma disputa linguística de outros termos como câmbio negro (ilegal, ilícito), mercado negro (ilegal), a coisa está preta (ruim), período negro da ditadura (mais duro) e denegrir (difamar),.que visam associar a figura do corpo negro a algo sempre negativo.

Ele cita o linguista russo Mikhail Bakhtin, para o qual os sentidos das palavras é uma construção social, portanto, político-ideológica. “Daí que o uso de termos não é isento de posicionamentos. Isso é um exemplo de como o racismo como estrutura ideológica opera: consolida-se estruturalmente os sentidos - racistas - do uso destas palavras e aí então uma situação como esta ocorre de uma forma ‘naturalizada’”, explica.

A direção do jornal Lance foi procurada pelo Alma Preta para comentar sobre o título da capa da edição desta quinta, porém, não respondeu até o fechamento desta reportagem.

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