As principais instituições de pesquisa do país anunciaram cortes em seu orçamento; Para professor da UNESP, a medida prejudica mais os negros

 Texto / Lucas Veloso | Edição / Pedro Borges | Imagem / Gibran Mendes

Em maio, a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal no Nível Superior (CAPES) comunicou o bloqueio de 3.474 bolsas. Esse foi o primeiro anúncio de corte. No mês junho, a entidade anunciou que deixaria de oferecer 2,7 mil bolsas, em cursos com conceito nota 3.

Para o professor do curso de jornalismo, em Bauru, e assessor da Pró-reitoria de extensão da UNESP, Juarez Tadeu xavier, por mais que a universidade não faça o recorte racial dos alunos, os cortes previstos devem atingir principalmente os alunos negros.

“Todos os cortes e reestruturação do orçamento acaba sendo racializada no sentido de que as consequências negativas destas medidas recaem sobre os negros”, aponta Juarez.

Em setembro, considerados todos os anúncios feitos, a previsão é de que 11.811 bolsas deixarão de ser oferecidas neste ano no país.

Para o docente, os cortes anunciados precisam ser vistos no conjunto da educação, pois todos prejudicam os mais vulneráveis socialmente. “Haverá cortes na educação básica, isso vai afetar muitos jovens negros, sobretudo nas áreas mais pobres. Também na área da graduação, em especial, onde existe maior prestígio social, como medicina, direito e engenharia”, destaca. “Além disso, tem o sucateamento das áreas onde historicamente a população negra tem participado, como humanidades e licenciaturas”, completa.

Entenda a notícia

O Ministério da Educação (MEC) anunciou cortes de bolsas de pesquisa na CAPES e no Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), ligado ao Ministério da Ciência e Tecnologia.

A CAPES e o CNPq também suspenderam a concessão de novas bolsas pelo próximo período para qualquer programa de especialização, no país inteiro. Alguns cortes de orçamento também ameaçam o pagamento das bolsas já concedidas a alunos. Por enquanto, não há previsão de regularização.

“Desidratar o investimento na universidade, em geral, afeta particularmente a população negra, em especial na permanência dela na universidade, pois é um problema se os alunos ingressam, mas não se mantém”, analisa Juarez.

Para ele, o propósito da política pública é garantir que os alunos permaneçam dentro da universidade e que tenham mobilidade vertical, com acesso até o pós-doutorado.

Em 2020, a CAPES só terá metade do Orçamento deste ano. Foram destinados R$ 2,2 bilhões para a instituição, em comparação aos R$ 4,25 bilhões previstos neste ano. Na previsão da CAPES, como as bolsas duram 4 anos, a economia no período pode chegar a R$ 544 milhões.

Na proposta de orçamento para o ano que vem, a perda prevista para o MEC é de 9%. O governo pretende ter uma economia de R$ 37,8 milhões em 2019 com a medida.

O professor Juarez acredita que o país precisa repensar medidas para evitar segregação, já que os maiores impactos são sentidos pela população negra. “No Brasil, a política decide quem vive e quem morre. Qualquer medida, em qualquer área, aqueles que têm sido mais prejudicado são os negros”, reforça. “Como diz Angela Davis, numa sociedade racista, não basta não ser racista, é necessário ser antirracista”, conclui.

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