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Com uma campanha com mais recursos, prefeito eleito Bruno Covas não detalhou planos para as periferias e gera incertezas sobre algum efeito prático na luta antirracista

 

Texto: Juca Guimarães I Edição: Flávia Ribeiro I Imagem: Rovena Rosa / Agência Brasil

A reeleição de Bruno Covas (PSDB) em São Paulo, após uma campanha que custou R$ 19,4 milhões, é uma incerteza de melhorias para a população que vive nas periferias da maior cidade do país, sobretudo os negros que reprentam 32% da população. Com 59,38% dos votos, o tucano venceu Guilherme Boulos (Psol) que recebeu 40,62% dos votos em uma campanha que custou R$ 3,4 milhões. Ambos valores de gastos com a campanha são da prestação parcial de contas das candidaturas até o final do primeiro turno, que foi no dia 15 de novembro.

Bruno Covas prometeu nomear mais pessoas negras para o primeiro escalão do governo, atualmente a cúpula da gestão municipal tem apenas uma pessoa negra, e implantar o ensino de cultura afro-brasileira e História da África na rede municipal de ensino. A lei existe desde 2004.

A campanha de Boulos teve seis vezes menos dinheiro do que a de Bruno Covas, porém, o candidato do PSOL venceu o tucano em oito zonas eleitorais da periferia: Campo Limpo, Valo Velho, Piraporinha, São Mateus, Capão Redondo, Grajaú, Cidade Tiradentes e Parelheiros.

“As propostas do Covas dizem pouco sobre algum impacto real nas quebradas. A gente não tem muita esperança de que promessas sejam cumpridas. Talvez, aconteça alguma coisa até mesmo por conta da campanha do Boulos que falou muito sobre a periferia. Mas é o seguinte também, os tucanos não têm contato com a periferia real, então são sempre iniciativas genéricas. Foi um desserviço esse governo ter ganhado as eleições”, disse o escritor Ferréz, autor de vários livros sobre o cotidiano das periferias de São Paulo, entre eles Desterro, em parceria com Alexandre De Maio e Capão Pecado.

Para o rapper Dexter, que durante a pandemia fez uma regravação e um videoclipe da música Voz Ativa, dos Racionais MCs, sobre a importância da união dos negros e dos moradores das periferias para conquistar avanços na política, a eleição de Bruno Covas foi uma decepção.

“Falar que vai colocar os pretos no primeiro escalão é muito fácil. Hoje é a demanda que mais aparece. Mas é uma luta que o movimento negro já faz há muitos anos. Bruno Covas falar em colocar pretos na equipe é fácil, ele podia ter feito isso antes e não fez. Como vamos acreditar agora? Eu não acredito”, disse o rapper.

Dexter lembra que Bruno Covas teve apoio político e foi vice-prefeito do João Doria, também do PSDB, que se elegeu com uma série de promessas para a cidade e depois largou o cargo para concorrer nas eleições para o governo estadual.

“Eles não representam a gente em nada. Não se parecem com a gente e não falam como a gente. O governo do Estado deu carta branca para a polícia matar as pessoas. Estão forjando flagrantes para colocar mais negros nas cadeias. É desesperador o quê estamos vivendo com esses caras no poder. Serão mais quatro anos em um cenário muito ruim. Eles vão governar para quem tem dinheiro, para quem é da classe média alta para cima”, disse o músico.

Na capital paulista, cerca de 30% dos eleitores, algo em torno de 2,7 milhões de pessoas, não foram votar no domingo. Cerca de 273 mil votaram em branco e 607 mil anularam. As abstenções, votos nulos e brancos somam 3,5 milhões de eleitores, mais que os 3,1 milhões de votos do Bruno Covas.

“O que mais me entristece é o desinteresse do nosso povo. Nem parece que são eles os mais atingidos”, disse o rapper Dexter.

 O povo preto quer narrar suas histórias

Vivemos em um mundo de disputa. Nossa sociedade tem profundas marcas das desigualdades que foram desenhadas ao longo da história. Na atualidade parece que há espaço para debate, a tão falada representatividade está sobre a mesa.
Mas o povo preto quer mais. Queremos narrar nossas próprias histórias. Queremos ter direito de fala não somente quando essa é concedida. Somos múltiplos, somos muitos e plurais. A ótica de ser preto no Brasil se revela como um espectro, tamanha a diversidade dos povos ancestrais que nos originaram, e a variedade de experiências que podemos ter e ser. Pertencer. O que nos conecta é pele.

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