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Proposta é da co-deputada Erika Hilton (PSOL), da Bancada Ativista, que diz que manutenção de estátua para bandeirantes se trata de um “fetiche da branquitude”

Texto: Guilherme Soares Dias | Edição: Nataly Simões | Imagem: Mube Virtual

O jornalista, advogado e escritor Luiz Gama foi um dos maiores intelectuais do século 19, responsável por libertar mais de 500 pessoas escravizadas por meio de seu trabalho. Apesar de fazer parte do livro de heróis brasileiros, o intelectual não é tema de aulas de história, nem recebe homenagens à altura de seus feitos. Já Anhanguera são os famosos bandeirantes dos séculos 17 e 18, conhecidos por escravizar negros e indígenas. Eles receberam homenagens na rodovia que liga a capital paulista à Ribeirão Preto e em estátua na avenida Paulista, em frente ao Parque Trianon, região central de São Paulo.

É essa incongruência que o projeto de lei apresentado pela co-deputada Erika Hilton (PSOL), da Bancada Ativista da Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp), pretende mudar. “Sabemos o quanto os deputados valorizam essa história, que sustenta o racismo institucional. A manutenção dessas estátuas faz parte do fetiche da branquitude”, afirma a parlamentar, em entrevista ao Alma Preta.

Isso porque o apelido “Anhanguera” é um termo tupi que significa “diabo velho” (anhanga, diabo + ûera, velho). Durante décadas, os bandeirantes foram responsáveis pelo genocídio étnico contra os povos originários do Brasil e os africanos e seus descendentes. “Pretendemos reparar o dano histórico causado por se homenagear, erroneamente, dois assassinos, responsáveis pelo massacre físico e simbólico contra negros e indígenas, segmentos sociais que ainda não tiveram a oportunidade de contar a sua versão da história”, justifica Erika.

A co-deputada afirma que garantir a renomeação da rodovia Anhanguera para rodovia Luiz Gama é um ato de reconhecimento não só aos feitos do poeta, advogado, jornalista e abolicionista como também às lutas do povo negro sobrevivente e resistente no estado paulista. “Precisamos recontar a história a partir de uma perspectiva verdadeira. Tirar aqueles que foram colocados como heróis nacionais e deixar como símbolo aqueles que participaram dessa luta para o país que temos”, defende.

Segundo Erica, é preciso colocar os heróis negros em seus devidos lugares de destaque, uma vez que o Brasil é um país racista construído em cima de sangue da população negra. Questionada sobre qual destino teria a estátua atual de Anhanguera, a parlamentar diz que o monumento pode ir para o porão de algum museu. 

Entre as estratégias para levar o projeto à frente na Alesp, cuja casa legislativa é majoritariamente conservadora, está aliar-se à deputada Erica Malunguinho (PSOL), que apresentou o Projeto de Lei nº 404/2020, que visa proibir, em todo o estado, homenagens a escravocratas e a eventos históricos ligados ao exercício da prática escravista no Brasil.

Erica Hilton reconhece ainda que a batalha pela mudança será difícil dentro da Alesp, mas afirma que a provocação precisa ser feita para chamar atenção para o tema. “Parece utopia, mas ela é mola das transformações. Para garantirmos essa mudança, precisamos da união dos movimentos negros para que possam pressionar o estado, mandando e-mails aos parlamentares, e compartilhando matérias sobre o tema para mostrar o apoio das nossas bases em homenagear os nossos heróis de fato”, ressalta.

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